
Barcelona,
2013: 1,5 milhão de pessoas nas ruas, pela independência da Catalunha.
Esquerda cresce entre movimento, e reivindica fim das políticas de
“austeridade”
Por Conn Hallinan, do The Nation | Tradução: Antonio Martins
As famílias felizes são todas parecidas;
cada família infeliz o é à sua maneira”
Leon Tolstoi, Anna Karenina
cada família infeliz o é à sua maneira”
Leon Tolstoi, Anna Karenina
A abertura do grande romance
de amor e tragédia de Tolstoi poderia ser uma metáfora da Europa de
hoje, onde “famílias infelizes” de catalães, escoceses, belgas,
ucranianos e italianos consideram divorciar-se dos países de que são
parte. E, em mais um caso em que a realidade imita a ficção, cada uma
delas é infeliz à sua própria maneira.
Enquanto os Estados Unidos e seus aliados exasperam-se
com o recente referendo na Crimeia, que separou a província da Ucrânia,
os escoceses viverão uma consulta muito similar em 18 de setembro e os
catalães gostariam muito de fazer o mesmo. Assim como os habitantes do
Tirol do Sul e a população de língua flamenga do norte da Bélgica.
Na aparência, muitos destes movimentos de secessão sugerem que regiões ricas estão tentando “libertar-se” de outras mais pobres. Mas ainda que haja alguma verdade nisso, a fórmula é muito simplista. No norte da Bélgica, os flamengófonos, mais ricos, querem separar-se dos francófonos despreocupados do Sul, assim como os tiroleses gostariam de se separar da Itália meridional, castigada pela pobreza. Mas na Escócia, muito da luta tem a ver com a preservação do contrato social que os governos do “novo” Partido Trabalhista – agora conservador – e do Partido Conservador – de direita – desmantelaram sistematicamente. O caso da Catalunha é bem mais complicado.
As fronteiras europeias podem parecer imutáveis, mas
certamente não o são. Foram deslocadas várias vezes – pela guerra,
necessidades econômicas ou porque os poderosos desenharam linhas
caprichosas que ignoram a história e a etnicidade. A Crimeia,
conquistada por Catarina, a Grande, em 1783, foi arbitrariamente cedida à
Ucrânia, em 1954. A Bélgica resultou de um congresso das potências
europeias, em 1830. A Escócia, empobrecida, ligou-se à ria Inglaterra,
em 1707. A Catalunha caiu diante dos exércitos espanhol e francês em
1714. E o Tirol do Sul foi um espólio da Primeira Guerra Mundial.
Em todos os casos, ruídos históricos, desenvolvimento
injusto e tensões étnicas foram exacerbados por um crise econômica de
longa duração. Nada como o desemprego e as políticas de “austeridade”
para acender as fogueiras da secessão. Os dois movimentos separatistas
mais fortes estão na Escócia e Catalunha – e são os que podem ter
impacto mais profundo no resto da Europa.
As regiões são infelizes de diferentes maneiras.
Escócia
A Escócia sempre teve
um partido nacionalista expressivo, embora marginal – mas foi dominada
tradicionalmente pelo Partido Trabalhista britânico. Os Conservadores
quase não existiam a norte do rio Tweed. Mas o “novo trabalhismo” do
ex-primeiro-ministro Tony Blair adotou cortes de investimentos públicos e
privatizações que marginalizaram muitos escoceses, obrigados a gastar
mais com Saúde e Educação que o resto dos britânicos.
Quando o Partido
Conservador ganhou as eleições, em 2010, seu orçamento de “austeridade”
devastou a Educação, Saúde, os subsídios para Habitação e o Transporte.
Os escoceses, irados, votaram no Partido Nacional Escocês (SNP), nas
eleições de 2011 para o parlamento local. O SNP imediatamente propôs um
plebiscito que indagará aos eleitores se querem revogar o Ato de União
de 1707 e voltar a ser um país independente. Se a resposta for sim, o SNP propõe renacionalizar o correio e expulsar da Escócia os submarinos britânicos Trident, dotados de mísseis nucleares.
Levando em conta o
petróleo do Mar do Norte, quase não há dúvidas de que uma Escócia
independente seria viável. O país tem um PIB per capita mais alto que o
da França e, além de petróleo, exporta bens industriais e uísque. A
Escócia seria um dos 35 países com maiores receitas de exportação.
O governo britânico do
Partido Conservador diz que, se a Escócia votar pela independência, não
poderá mais utilizar a libra como moeda. Os escoceses dizem que se a
ameaça for mantida, não assumirão mais responsabilidade por sua parcela
na dívida pública britânica. Neste ponto, há um impasse.
Segundo os britânicos,
e alguns tecnocratas em posições de poder na União Europeia (UE), uma
Escócia independente não poderá permanecer integrada ao bloco europeu,
mas isso pode ser um blefe. Primeiro, porque contrariaria precedentes
históricos. Quando a Alemanha reunificou-se, em 1990, cerca de 20
milhões de habitantes do país oriental (a República Democrática Alemã)
foram automaticamente reconhecidos como cidadãos da UE. Se 5,3 milhões
de escoceses foram excluídos, será por ressentimento, não por política.
De qualquer forma, como o Partido Conservador britânico planeja, em
2017, um referendo que poderia separar a Grã-Bretanha da União Europeia,
Londres não está apostando todas as fichas numa postura de
intransigência…
Se as eleições fossem
hoje, os escoceses provavelmente optariam por permanecer no Reino Unido,
mas as tendências estão mudando. A pesquisa mais recente indica que 40%
votarão pela independência – um avanço de 3 pontos percentuais, em
relação à sondagem anterior. A parcela dos eleitores contrária à
independência caiu 2 pontos percentuais, e agora representa 45% do
total. Há 15% de indecisos. Todos os residentes na Escócia com mais de
16 anos podem votar. Dada a formidável habilidade eleitoral de Alex
Salmod, o primeiro-ministro da Escócia e líder do SNP, as perspectivas
não são tranquilizadoras para o governo de Londres.
Catalunha
A Catalunha, situada
no Nordeste da Espanha bem junto à fronteira com a França, foi sempre um
motor da economia espanhola e uma região marcada por sensação de
injustiça histórica. Conquistada pelos exércitos unidos da França e
Espanha, na guerra de secessão espanhola (1701-1714), foi também
derrotada na Guerra Civil espanhola, entre 1936 e 39. Em 1940, os
fascistas, triunfantes, suprimiram o uso do idioma catalão, reprimiram
sua cultura e executaram o presidente da região, Lluis Companys – um ato
pelo qual nenhum governo de Madri desculpou-se até hoje.
Após a morte do
ditador Francisco Franco, em 1975, a Espanha buscou reconstruir sua
democracia, sepultando as animosidades profundas engendradas pela Guerra
Civil. Mas os mortos podem não permanecer enterrados para sempre, e
cresce um movimento pela independência catalã.
Em 2006, a região
conquistou autonomia considerável, mas ela foi revogada pelo Supremo
Tribunal espanhol em 2010, para alegria do Partido Popular (PP,
conservador), no poder. A decisão serviu de combustível para o movimento
pela independência da Catalunha e em 2012 partidos separatistas
chegaram ao poder.
O PP, do
primeiro-ministro Mariano Rajoy, é uma preocupação permanente na
Catalunha, cujo parlamento é dominado por diversos partidos
independentistas. O maior deles é a Convergencia i Unio (CiU), do presidente provincial, Artur Mas. Porém, a Esquerra Republicana de Catalunya (ERC) dobrou, há pouco, sua representação legislativa.
Estes partidos
divergem entre si. Muitos tendem a ser centristas ou conservadores,
enquanto o ERC é de esquerda e se opõe às políticas de “austeridade” do
PP – algumas das quais foram adotadas também pelo CiU. O centrismo deste
partido é uma das razões pelas quais sua bancada caiu de 62 deputados
para 50, nas eleições de 2012, enquanto a do ERC saltou de dez para 21.
A taxa oficial de
desemprego na Espanha é de 25%, mas o índice é bem mais alto entre os
jovens e nas regiões do Sul – e a esquerda parece disposta a ir à luta.
Mais de 100 mil pessoas marcharam em Madri, no mês passado, exigindo o
fim da “austeridade”.
Dizendo apoiar-se na
Constituição de 1976, Rajoy recusa-se a permitir um referendo de
independência, uma intransigência que alimentou a chama do movimento
separatista. Em janeiro, o parlamento catalão votou, por 87 a 43, por
realizar o referendo, e as pesquisas mostram uma maioria em favor da
separação. Há seis meses, um milhão e meio de catalães marcharam em
Barcelona pela independência.
De olho no eleitorado
de direita, o PP também radicalizou e parece disposto a provocar os
catalães. Quando a Catalunha proibiu as touradas, Madri aprovou uma lei
que as considera herança cultural da nação. Os bascos podem arrecadar
seus próprios impostos; os catalães, não.
Como a União Europeia
reagiria a uma Catalunha independente? E o governo central de Madri
faria algo para impedir o passo? É difícil imaginar o envolvimento do
exército espanhol, embora o partido de Rajoy tenha entre seus fundadores
um ex-ministro do governo franquista e a reivalidade entre Madri e
Barcelona seja evidente.
Outras linhas de ruptura
Há outras linhas de ruptura na Europa.
A Bélgica poderá se
dividir? A fissura entre os flamengófonos (no norte) e os francófonos
(no sul) é tão profunda que foram necessários dezoito meses para formar
um governo, após a última eleição. E se a pequena Bélgica rachar, ela
dará origem a dois países, ou será engolida pela França e Holanda?
Na Itália, o Partido
da Liberdade do Tirol do Sul reivindica um referendo de independência e
uma fusão com a Áustria, embora a minúscula província, – chamada na
Itália e Alto Adige
– quase não tenha do quê se queixar. Ela retém 90% dos impostos que
arrecada, e sua economia conseguiu evitar o pior da crise de 2008. Mas
parte da população germano-austríaca ressente-se de cada centavo
transferido a Roma e há um profundo preconceito contra os italianos –
que constituem 25% dos habitantes – particularmente, os do Sul. Nesse
sentido, o Partido da Liberdade não é muito diferente da Lega Norte, racista e elitista, que tem como base o Vale do Po.
É instrutivo assistir a um vídeo,
no YouTube, sobre como as fronteiras da Europa mudaram, de 1519 a 2006 –
um período de menos de 500 anos. O que julgamos eterno é efêmero. O
continente europeu está novamente à deriva, tensionado por linhas de
ruptura antigas e contemporâneas. A atitude de países como Espanha e a
Grã-Bretanha, e de organizações como a União Europeia diante deste
processo determinará seu caráter – se civilizado ou doloroso. Mas tentar
interrompê-lo causará, muito provavelmente, apenas mais dor.

Fonte: site Outras Palavras
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