Dilma e o PT terão que mudar

Neste domingo votei em Dilma com duas convicções: 1) a
presidente termina seu primeiro mandato com resultados que ficam aquém
daquilo que as potencialidades da conjuntura proporcionavam; 2) Dilma e o
PT terão que mudar de rumos se quiserem manter a perspectiva de futuro.
O resultado das eleições foi uma exceção. A conjuntura era de mudança e
a lógica seria a de que a oposição tivesse triunfado. Só não triunfou
porque Aécio Neves, embalado pela agressividade, pelo falso moralismo,
pela disseminação de preconceitos e pela ausência de um programa
consistente, não conseguiu gerar confiança na maioria do eleitorado.
Dilma cometeu inúmeros erros na condução da política
econômica. Repetiu fórmulas que deram certo no governo Lula, mas que não
faziam mais sentido com as mudanças de conjuntura. Atrasou o plano de
infra-estrutura por equívocos e preconceitos iniciais. Adotou uma
política monetária e cambial confusa que não conseguiu redirecionar
recursos para investimentos produtivos e nem conseguiu manter a inflação
baixa. Na política fiscal voltaram as velhas maquiagens, perniciosas à
credibilidade do país. No plano externo foi inapetente e manteve o
Brasil recuado em suas próprias fronteiras. Não foi agressiva na
política comercial – uma exigência dos tempos. O resultado foi a
desconfiança dos investidores, o baixo crescimento e a redução de ritmo
na criação de empregos e na elevação da renda.
No plano político, os passivos são maiores. Colocou
gente que não entende de política para cuidar da articulação política;
deixou Gilberto Carvalho esquecido no Planalto, retirando-lhes as
funções de articular os movimentos sociais; o Conselhão do governo Lula
foi abandonado; o diálogo com os partidos e com a sociedade foi pífio; o
Ministério, ou por medo da chefe ou por incompetência, foi uma negação.
Em resumo: foi um governo burocrático e arrogante, que não exerceu a
atividade política de forma criativa, agregadora de energias e de
propósitos orientados por um projeto claro de futuro para o país. Por
não definir com clareza os fins do seu governo, perdeu-se nos meios.
Dilma escolheu o caminho da solidão e exilou-se dentro de si mesma.
Dilma, antes de tudo, terá que mudar de estilo e de
conduta como presidente. Terá que governar exercitando o diálogo
democrático, pois sem ele a própria democracia não se desenvolve. Terá
que destravar politicamente o governo, seja na relação com a sociedade,
seja na relação com os partidos e o Congresso. Terá que trocar a equipe
econômica, que carece de credibilidade. Terá que escolher um ministério
mais qualificado, com ministros capazes de afirmar sua personalidade
política e sua capacidade de gestão. Terá que fazer uma limpeza moral
nas estatais, principalmente na Petrobras, para recuperar a
credibilidade e a eficiência das mesmas.
Dilma começará o segundo mandato imersa em um
paradoxo. Por um lado, terá que recuperar a credibilidade do governo num
ano de ajustes duros e com movimentos sociais mais propensos a levarem
suas lutas para as ruas. A fragmentação do Congresso também será um
enorme desafio. Por outro, é preciso reconhecer que a vitória nas urnas
representa uma espécie de resgate da própria presidente. Venceu contra
uma conjuntura adversa, contra um adversário que usou as armas do
ludibrio e do engano, contra uma parcela conservadora da sociedade que
disseminou o ódio e todo o tipo de preconceito, contra a volúpia
especulativa do mercado financeiro e contra um bombardeio intermitente e
impiedoso de setores da mídia. Dilma deveria saber aproveitar a
potência desse auto-resgate para fazer ajustes profundos em seu governo,
com o objetivo de produzir resultados profícuos, passadas as
dificuldades iniciais do seu segundo mandato. Será a coragem de mudar e o
alcance das mudanças que dimensionarão o lugar que Dilma terá na
história.
O PT Deve Mudar
A campanha eleitoral de 2014 foi marcada por um forte
antipetismo em setores expressivos do eleitorado. De acordo com as
pesquisas, o PT perdeu a adesão nas classes médias, e da maior parte dos
mais jovens e dos mais escolarizados. Mesmo entre aqueles que têm o
ensino médio, 49% têm uma imagem negativa do partido. Ao perder a adesão
dos jovens, o partido perde a perspectiva de futuro.
As razões do antipetismo são de duas ordens. A
primeira diz respeito ao ressentimento de setores da classe média que
perderam status social pela ascensão das camadas sociais excluídas. É
nítido o incômodo da classe média tradicional com a presença da chamada
classe C em aeroportos, nos shoppings, nas universidades, nos cinemas e
até com o aumento do número de pessoas proprietárias de carros. O
ressentimento social fomenta o ódio que esses setores, que se sentem
ameaçados, destilam contra o PT por identificar o partido como promotor
da ascensão dos debaixo. A violência verbal e, às vezes física, e até
mesmo atitudes neofascistas são alimentadas e radicalizadas pelos
representantes midiáticos do conservadorismo. O ressentimento
preconceituoso se expressa num coquetel explosivo: antipetismo,
homofobia, preconceito contra pobres, negros, nordestinos e mulheres.
A outra face do antipetismo é estimulada pela a
corrupção de membros do partido e pela arrogância de petistas. O próprio
presidente Lula reconheceu, durante a campanha, que o partido se
corrompeu, que se transformou “numa máquina de fazer dinheiro”. Os
filósofos políticos clássicos sempre advertiram que a corrupção é o
principal mal das repúblicas. Na história das esquerdas democráticas
ocidentais, particularmente na América Latina, a corrupção foi a causa
da erosão de muitos partidos e governos. O fato é que o PT vem sendo
identificado como um partido corrupto nos mais variados setores sociais.
Mesmo na classe C, a mais beneficiada pelos governos petistas, a imagem
do partido só é positiva para 36%. O PT encontrou uma forma estranha
para lidar com a corrupção em suas fileiras e em seus governos: se
defende e se justifica atacando a corrupção dos outros partidos. Se o
partido quiser renovar-se e sair da vala comum da maioria dos partidos
terá que lidar de forma intransigente com o problema da corrupção,
promovendo uma limpeza interna e propondo mecanismos institucionais
capazes de reduzir a corrupção estrutural que graça no Brasil.
A arrogância e a falta de humildade dos petistas
também são combustíveis que alimentam o antipetismo. Invoque-se aqui,
novamente, a autoridade do presidente Lula que asseverou que o partido
se tornou “um partido de gabinetes”. Na medida em que o PT foi se
consolidando como partido do poder, escavadeiras potentes escavaram
fossos profundos entre os dirigentes e políticos petistas e o povo. Até
mesmo a militância do partido foi sendo afastada de uma relação mais
direta com seus líderes, com exceção dos momentos de campanha, é claro.
Registre-se que há notórias e honrosas exceções nessas condutas.
Mas não resta a menor dúvida que muitos políticos
petistas foram assumindo a ideologia e a conduta do “novo rico” a partir
das vitórias eleitorais e do desfrute das comodidades do poder. O
partido fechou-se para o diálogo e para as críticas. Fechou muitas
portas à participação da militância e dos movimentos sociais. Eleitores e
integrantes do partido que ousam criticá-lo são estigmatizados como
inimigos – agentes do PIG. Invariavelmente, o debate aberto e crítico,
de idéias e propostas, é substituído pelas adjetivações
desqualificadoras. Uma pessoa que queira realmente contribuir com a
construção de uma sociedade mais justa, igualitária e solidária não pode
apresentar-se como um similar de sinal trocado do radicalismo de
direita. Essa arrogância petrificante fez com que setores mais
politizados buscassem opções de voto no PSol, por exemplo. O
esmorecimento das virtudes políticas e morais no PT paralisou até mesmo
sua capacidade de inovar nas políticas públicas. Se o PT quiser
recuperar a perspectiva de futuro terá que fazer uma profunda reforma
política e moral interna.
Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.
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