sábado, 9 de maio de 2015

Por que essa cultura do ódio pós-eleitoral? O psicanalista Christian Dunker explica

O ÓDIO, A EXCLUSÃO E A LÓGICA DO CONDOMÍNIO

O ódio, a exclusão e a lógica do condomínio
Para o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker, a falta de um “período de luto” dos derrotados nas eleições de 2014 possibilitou a consolidação de uma cultura do ódio que pode ter origens mais profundas que o cenário político sugere
Por Glauco Faria
“Emerge uma lógica que não é mais negocial, de reconhecer o outro, que vira alguém que tem que ser excluído. Daí a força que a lógica do condomínio tem nesse momento. Temos que por para fora, ‘limpar’, purificar.” É assim que o psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker analisa o momento em que a cultura do ódio se tornou mais explícita no Brasil, o cenário pós-eleitoral vivido em 2014. Para ele, a falta de um “período de luto”, no qual os derrotados avaliam as razões da perda e chegam mesmo a se reinventar, foi substituído pela criação de um inimigo.
Autor do recém-lançado Mal-estar, Sofrimento e Sintoma – A Psicopatologia do Brasil Entre Muros (Boitempo), Dunker avalia que o contexto atual, que traz a necessidade de as pessoas terem pontos de vista definidos como sujeitos políticos, faz com que algumas procurem conhecer mais determinados temas, mas também facilita a emergência de “gurus” de opinião fácil, como colunistas que pregam o desrespeito à diferença. “São usinas de captação de descontentamento e a ampliação disso em uma espécie de gritaria geral”, pontua.
Por outro lado, com as recentes transformações na pirâmide social brasileira, Dunker também avalia existir no país uma transformação dos símbolos de classe, com uma contestação do discurso senhorial. “A grande mutação positiva que está acontecendo é que a gente não aceita mais isso, se tornou um ridículo social. Não o cara que ostenta, mas o que ostenta sem poder dizer como chegou ali. Esse é o lado bom da controvérsia sobre a corrupção, tem uma parte desse discurso rançoso que está dizendo uma coisa positiva, não aceitamos mais ostentação de símbolos culturais de riqueza sem uma história.”
Confira os principais trechos da entrevista abaixo.
Fórum – Hoje, na discussão política, mas não só nela, percebemos uma cultura de ódio, consolidada especialmente nas últimas eleições. É possível identificar a origem disso?
Christian Dunker – Tem várias coisas concorrendo, mas começaria dizendo que talvez estejamos no fim de um ciclo de um tipo de Brasil, país que foi marcado pela redemocratização, pela reinvenção econômica e no qual se colocam tanto o projeto do PSDB como o de Lula/Dilma. Um momento mais à direita, outro mais à esquerda, mas que tínhamos uma interpretação consensual a partir da qual as tensões, oposições e divergências podiam se colocar, e que no fundo o poder continuava nas mãos daqueles com os quais sempre esteve, dentro de uma estrutura que chamo nesse livro de “condomínio”, onde um certo grupo de pessoas se reveza e existe um síndico. Pode até ter a emergência de um governo de esquerda, como de fato teve e operou uma série de transformações, mas não se mexeu nisso, tornou o projeto da esquerda muito mais ligado ao campo do social, o que é uma grande coisa, mas não se alterou a relação, digamos, mais profunda do ponto de vista econômico. Ou seja, não alterou o sentimento de propriedade. Essa ideia produz certos efeitos psicológicos de que no fundo existe um grupo que, quando quiser de volta o poder, ele vai vir. Claro que isso é uma espécie de ideologia de certos segmentos que estão acostumados a uma distribuição não equitativa, essencialista, do poder.
A segunda eleição da Dilma colocou isso em cheque porque o antigo poder, o antigo dinheiro, o quis de volta, e isso não aconteceu. Não se gerou um processo tradicional que existe depois de um pleito, que é o de luto, já que alguém perdeu, que ocorreu após a eleição do Collor, do FHC, Lula, Dilma… E o luto, para a psicanálise, é um trabalho muito importante, porque permite que as pessoas se reformulem, que se separem de uma forma de vida e criem outra. O luto não é só saber perder, é um processo de inventar coisas novas, de ressignificação, muitos inventores fizeram suas coisas em uma situação de luto, que pode ser pela perda de um ideal, perda de uma pessoa, de um estado, não é só aquela experiência psicológica em um sentido individualista. E nós não vimos esse luto, os derrotados disseram: “tem algum problema na regra do jogo, vou pôr em questão o processo, há uma imbecilização do eleitorado, alguém roubou nos números…”.
O embrião veio a partir do discurso da corrupção, que é endêmica, tem sua lógica própria. E por que ela se tornou um grande mote? Porque é a situação daquele sujeito que diz “não é que eu perdi, o juiz roubou”. Então, existe um conjunto de afetos que são de outra natureza, você poderia ter classicamente um ressentimento, um tipo de ódio que chamamos de alternante no processo de luto. Tenho ódio de mim porque se tivesse feito mais essa pessoa não teria me deixado, se tivesse trabalhado mais, se tivesse sido mais amável… Enfim, não teria perdido. Mas em seguida há uma avaliação de que ele me odeia, quis me deixar, é um sacana, não fez o que foi prometido. E entre essas duas fases a gente vai elaborando a perda e inventando uma nova identidade, uma nova forma de vida.
O que aconteceu é que, com o bloqueio do luto, não há esse ódio alternante, a reflexão de que “a gente também pisou na bola porque escolheu um candidato…”. Não tem um movimento de partilha dos culpados, um pouco fui eu quem pisou na bola, um pouco foi o outro. Não. Foi o outro que pisou. E quando isso se polariza no outro é que o ódio vai se acumulando e assumindo uma outra função não muito característica que é de produzir massa, produzir multidão, produzir laços. Sou muito diferente de você, não temos muita coisa em comum, mas nós temos um inimigo comum. E esse tipo de vinculação que é considerado mais simples, mais pobre, menos elaborada do ponto de vista subjetivo, grassa numa situação em que você consegue criar o inimigo, estabelecendo esse consenso relativo de que não fui eu que perdi, foi o juiz que roubou.
Fórum – Como o personagem do Goldstein, do livro 1984, para o qual se dedicavam até os “dois minutos de ódio” durante o dia…
Dunker – Que era um cara que pensava diferente… Massacrar a diferença é uma tendência das grandes massas, como foram chamadas, “regredidas”, qualquer forma de diferença é um ataque ao laço que a gente tem. É a raiz da homofobia, do familiarismo, temos um tipo de laço que sobrevive porque estamos negando outros que não são como nós. No fundo, são estratégias mais simples que denunciam que temos um problema do tipo, “bom, o cara arranjou uma amante, está traindo a gente, mas será que não tem algo que não está funcionando no casamento?”. Para tratar esse mal-estar surgem essas estratégias, a criação de um inimigo, o laço baseado no ódio, substituição do luto pelo acting out, as ações, atos e discurso feitos para que não pensemos.
Fórum – E, do seu ponto de vista, como esse clima acaba ajudando também a emergirem pautas como a redução da maioridade penal e outros debates de cunho conservador?
Dunker – Queria voltar na sua observação sobre o Goldstein porque ela tem outro traço que ajuda a entender isso. Uma das maneiras de não fazer o trabalho do luto é suprimir os afetos. Nós não estamos sentindo nada, não aconteceu nada, continua tudo igual. Esse afeto que é suprimido volta na forma de um ódio catártico, vamos bater em alguém porque não dá pra viver num estado como em Alphaville, filme do Godard, de suspensão de afetos. Ele vai aparecer em algum lugar e você controla o lugar onde isso vai vir. Quando se tem esse deslocamento do afeto dominante na política é todo o sistema de ideias, controvérsias e contradições sociais que é passado a limpo. Já havia uma disputa, mas era uma disputa em que supostamente se reconhecia o adversário. Você tem ideias, eu tenho ideias, não concordo com você, mas o reconheço como alguém que preciso convencer, derrotar. Um adversário, não um inimigo.
Quanto temos esse processo de polarização com o ódio, há um processo de desumanização do outro e é muito interessante como a psicopatologia foi convocada nesse momento de uma forma bizarra, gente trazendo psiquiatras americanos falando da mentalidade do esquerdista, da mentalidade do terrorista, porque no fundo a ideia é dizer: esse outro não é um outro, é um louco, um doente mental, não adianta a gente conversar com “petralha”, com o cara da esquerda, porque no fundo ele não vai compartilhar comigo o processo e o fim desse processo que é o Brasil.
Todo esse conjunto de temas indeterminados fica assim: não preciso mais prestar contas e me justificar porque entendo que, como o outro roubou, é uma questão de força, violência. Vou praticar aquilo mesmo que acho que o outro faz, que é passar uma votação sobre redução de maioridade penal com um “truquezinho” – e pelo jeito o Eduardo Cunha é um mestre nisso. É um mágico, um especialista no funcionamento da Câmara, do alto e do baixo clero, a típica pessoa que sabe operar nas duas lógicas, cinicamente, ao mesmo tempo. Mais que isso, tem aquele timing de colocar os projetos obscenos no tempo certo. Um tipo de “corrupção dentro da lei”, de deslealdade, o cara está caído no campo e você pisa no calcanhar, diz que foi sem querer e não se sabe se foi ou não. Emerge uma lógica que não é mais negocial, de reconhecer o outro, que vira alguém que tem que ser excluído. Daí a força que a lógica do condomínio tem nesse momento. Temos que pôr para fora, “limpar”, purificar. Um entendimento da catarse grega, nós, nossa família, nosso Sul, os brancos, heterossexuais; esses outros, pra fora do muro.
Fórum – E existe um desaparecimento total da empatia. O pai de família branco que vê seu filho como potencial vítima de um jovem que comete um crime não consegue se colocar no lugar de um pai que vive na periferia e tem seu filho como vítima constante da violência estatal e não-estatal.
Dunker – Esse processo, diria que é anterior. Já vinha acontecendo, essa distribuição senhorial dos bens simbólicos, justiça, saúde, educação, é algo colonial no Brasil e nunca foi de fato enfrentada, existe esse mal-estar que aparece em pensamentos do tipo “como assim, meu filho vai estudar na faculdade em que a filha da empregada está indo?”. Vou ao aeroporto e não é mais aquela coisa “nossa”, está todo mundo viajando de avião, parece rodoviária, é uma degradação dos símbolos de classe. Isso cria uma animosidade a mais na diferenciação que já existia representada pela lógica do “meu filho sofre bullying, tenho problema, mas o filho do outro pode ser assassinado como um homo sacer”. Não tem punição, não tem justiça para ele.
Esse estado mudou porque de repente o menino pobre, negro, da periferia se aproximou do meu garoto. Como eu faço? Vai virar a mesma lei? Não consigo mais distinguir. Ele tem carro também… É um pouco o que a gente viu num certo veio do cinema da retomada, o Cidade de Deus, por exemplo, Meu nome não é Johnny, uma série de protagonistas de filmes que mostra esse outro que sempre foi muito distante – tão distante que eu podia até acolher ele como agregado, “olha, eu tenho um lá em casa de tanto que eu gosto dele”.
Fórum – “Trato como se fosse da família…”
Dunker – Isso, ótima expressão. Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei. Tem coisas engraçadas acontecendo, como o “drama das babás”. Não sei se você está acompanhando o que acontece com uma certa classe social que contrata e precisa contratar babás. São mulheres que se emanciparam, que estão trabalhando e que precisam, pelo menos durante um tempo. Babás hoje em São Paulo ganham bem, algumas entre 4 e 5 mil reais, e escolhem pra quem vão trabalhar. Isso que é o “mais grave” (risos). Se me tratar mal, não volto aqui. Estou vendendo meus serviços, tenho uma formação e você precisa de mim talvez mais do que eu precise de você. Essa é uma relação que a classe média e a classe alta não estão acostumadas e recebem como uma confrontação. Crio uma população em que escolho quem vou “salvar”’ e esse caso indica uma inversão. São as babás que vão escolher quem de nós vão querer e quem não vão. E isso vale para empregados, funcionários, prestadores de serviços.
Fórum – Nessa questão do pensamento senhorial, pode-se entender que um segmento social pense assim até por uma questão “hereditária”, algo passado de geração a geração. Mas existe uma parte da classe média e até de parcelas que ascenderam recentemente que já pensa dessa forma. Como essa ideologia vai perpassando e irradiando nessas classes?
Dunker – Existem processos que são psicológicos, são formas de ideologia, mas também suportes de identificação. Gosto muito das pesquisas do Jessé de Souza, que analisou a ralé que virou pobreza, os pobres que viraram classe trabalhadora ou classe média, classe C, e existe um conjunto de reformulações muito importantes e pouquíssima gente fala disso. Não é fácil, você nasceu numa classe e agora está em outra, é como mudar de país. Tem que fazer um ajuste de contas com os valores de origem, com seu pai, sua mãe, um ajuste de contas com as pessoas que não conseguiram fazer essa travessia. E você gosta deles, eles gostam de você, mas cria-se um ressentimento dentro da sua família.
E isso acontece até na classe média, com a pessoa que monta um negócio e é bem sucedida. A gente é muito “verde” nessa questão do sucesso e da felicidade e acha que basta isso, todo mundo tem uma ilusão de que basta isso. Você vai, se mata de trabalhar, compra a sua casa… É terrível do ponto de vista do trabalho subjetivo que isso envolve e mais terrível ainda porque ninguém diz nada a respeito de como se virar com isso. O que você acaba tendo são misérias identificatórias. O que posso comprar agora? Aquela marca, porque ela é um signo de pertencimento. Uma coisa muito empobrecedora nessa identificação que gera um tipo de consumo e de narrativa de crescimento ligada ao consumo. Crescer é consumir. Consumir mais. Até o ponto em que você começa a se perguntar “e daí?” depois que fez aqueles targets que são mais ou menos óbvios.
Acho que uma parte do ódio e do conflito que estamos vivendo deriva do fato de muita gente no Brasil estar nessa situação. Pela primeira vez descobriu, por exemplo, que é um sujeito político. Que pode falar coisas, que uma das características de se estar na classe que se galgou é que tem que ter uma opinião. Isso detona uma pessoa. Tem um grande amigo meu que trabalha com orientação vocacional e diz que não consegue trabalhar com as classes pobres porque essa questão não se coloca pra elas. Não é uma pergunta que se coloca. Mas a nova geração cresce, a pessoa vai para a escola e chega um momento em que pela primeira vez tem que ter uma opinião sobre o que quer fazer como trabalho. É uma decisão difícil, que marca a vida de uma pessoa, e ela não tem recursos, ninguém falando sobre isso, ninguém tematizando esse problema.
O mais importante é o seguinte: existe uma mutação dos símbolos que marcam uma classe. E é uma mutação boa porque, até então, o discurso senhorial vinha com um tipo de apropriação dos signos culturais de classe que faziam com que não fosse necessário contar nenhuma história a respeito. Você vai para a Europa, tem alguém contando que o barão tal, a minha família mora aqui há cem, duzentos anos, ganhou na batalha tal título… São os ricos muito, muito velhos. Os nossos ricos se contentavam em mostrar os signos. Você tem um carro, não precisa saber se comprou à prestação, se roubou, se é fruto de um negócio ilícito, não importa. Os nossos ricos não fizeram nada para diminuir a iniquidade, a diferença social, pelo contrário. Desde o modo de se vestir até onde estuda, o bairro em que mora etc, tudo era sem história, bastava mostrar. Só vale o último capítulo. O que é um problema. Se você perder tudo, nada te garante no tempo. Está sempre dependendo da mostração da última sexta-feira.
A grande mutação positiva que está acontecendo é que a gente não aceita mais isso, se tornou um ridículo social. Não o cara que ostenta, mas o que ostenta sem poder dizer como chegou ali. Esse é o lado bom da controvérsia sobre a corrupção, tem uma parte desse discurso rançoso que está dizendo uma coisa positiva, não aceitamos mais ostentação de símbolos culturais de riqueza sem uma história.
Fórum – Tem que explicar de onde veio.
Dunker – Tem que explicar de onde veio não só juridicamente, a nossa nova lógica de reconhecimento é essa. Com essas transformações todas, o que o sujeito tem que fazer é contar sua história: comecei lá no Brás, minha família fez a confecção, eu ia, buscava mercadoria…
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“Existe uma mutação dos símbolos que marcam uma classe”
Fórum – Mas é a justificativa pelo trabalho. Se for por herança, pensando, por exemplo, no filho do Eike Batista.
Dunker – É uma história curta, eu nasci, né (risos). Não é que é errado, tem cara que nasceu rico mesmo e não vai ser punido por isso, mas a história não é bacana.
Fórum – Quando você falou a respeito da necessidade de se ter uma opinião, isso remete à questão das redes sociais, onde a pessoa tem que ter uma opinião a respeito de toda e qualquer coisa. E que também existe a exposição dos signos de felicidade…
Dunker – É esse ponto de encontro entre esse velho sistema conspícuo, de felicidade à base da inveja, o antigo, com o novo, que diz que história você vai contar. É um acontecimento do Brasil, de tantas pessoas entrarem e se dedicarem às redes. Em outros países para os quais viajo as pessoas falam “eu tenho Facebook” e isso é algo menor na vida das pessoas. Aqui não. Tem os fanáticos, é um espaço de altíssima sociabilidade, lugar de conhecer pessoas, de ser reconhecido. Mas na lógica antiga era assim: você põe sua Mercedes e lá vem 418 mil curtidas, posta uma foto nas pirâmides do Egito… Mas isso é no começo, depois de ver dez vezes esse tipo de postagem, percebe-se que é tudo igual. Isso significa que o “passe” dessa pessoa desvalorizou.
Juntei dinheiro a vida toda para ter uma Mercedes e dizer que sou o único que tenho e aparecem 214 Mercedes no Facebook iguaizinhas… E a pessoa sente essa coisa que os caras que curtem jazz avançado pensam quando a música começa a tocar no rádio: “Ah, acabou com meu prazer!”. Não tenho mais aquele sentimento de superioridade, de exclusividade, de que sou diferente. O que vai te diferenciar? A sua postagem, a sua história, o seu meme, a sua opinião. E existe um problema. É muito difícil, nesse estado de coisas, você simplesmente concordar. Um concorda, outro também, chega alguém que concorda, mas observa que tem um ponto que ficou de fora… Vem mais um e diz: “concordo com esse, concordo com o ‘mas’, só que tenho que fazer alguma coisa aqui…”. E aumenta uma oitava. Daí chega outro e aumenta duas, outro aumenta três e vêm as comunidades de ódio. Criam-se Revoltados Online, comunidades orientadas para quem é que vai gritar mais alto. Depois de algum tempo está todo mundo rouco, surdo, e querendo fazer alguma coisa fora da rede social.
Fórum – E não existe um diálogo real, é cada um sustentando sua posição de surdo em relação ao outro. Em geral não existe um método hegeliano de uma síntese integradora…
Dunker – Porque é choque. Nós, no Brasil, estamos nessa situação. A rede só dá musculatura a essa oposição sem síntese, acredito que isso não vá ficar assim indefinidamente, mas é nosso corte no momento. Agora, tem um outro lado. No começo desse tipo de conversa é exibição, mas no meio dela vem um negócio interessante, essa percepção de se ter uma opinião e que os outros também têm, e penso como a minha vai ser diferente. Isso leva as pessoas a ler, estudar, procurar outros sites, é uma outra revolução que está acontecendo que não estamos vendo. A quantidade de pessoas que está se interessando por um site como a Fórum, que fizeram fila para ver uma exposição chinesa ou do Dalí, os dispositivos de cultura ficaram pequenos, as pessoas estão lendo mais, estudando mais, há uma coisa que a gente nunca teve, uma concorrência de opiniões. Vai ler porque você pode encaixar uma boa opinião.
Mas daí tem um terceiro momento, que é a percepção de que isso vai dar trabalho. Se eu der um gritão aqui, fizer uma micagem, inventar uma loucura, é capaz de não ter que ficar lendo para tentar entender o que está acontecendo, faço minha presença no clube de algum jeito.
Fórum – E é aí nesse terceiro momento que aparecem estes “gurus” como Rodrigo Constantino, Olavo de Carvalho…
Dunker – São usinas de captação de descontentamento e a ampliação disso em uma espécie de gritaria geral, repetitiva. Não dá mais pra botar a jaqueta do entendido, do ricaço, a pessoa não sabe direito ter opiniões e vem o cara que “sabe” ter opiniões. Que inclusive se parece comigo, que nunca li nada. Olha só que lindo. Eu me encaixo com ele, reproduzo, copio. A gente tem essa tendência mimética no Brasil, tem alguém falando uma coisa que não sei se concordo direito com ele, mas está bonito, está fácil, acessível, consigo ler uma revista toda semana… Essas pessoas só se tornaram rotweillers e pitbulls porque tem gente lendo. São leitores que não querem fazer o trabalho duro e compram no supermercado. Ou na loja de 1,99.
Fórum – Essa necessidade de posicionamento nas redes tem relação com o que o senhor chama de importância excessiva que damos para a nossa identidade? Como a sociedade contemporânea corrobora com isso?
Dunker – Vou reduzir esse problema a três tópicos. Uma ideia primeira vem da antropologia do Viveiros de Castro, que tem estudado uma população diferente de indígenas e trazido o que poderíamos chamar de filosofia indígena, com adaptações, mas que entra no páreo das coisas que têm sido ditas mais nobremente no cenário de ideias. Ele, reconstruindo a lógica discursiva e experiencial dessas comunidades, percebe que os indígenas brasileiros – não todos, mas alguns – tinham uma espécie de crise permanente de identidade, eram sequiosos por comer, antropófagos, mas não só pedaços de carne do outro e sim comer palavras, almas. Isso é uma tese antiga que aparece nos modernistas, somos uma cultura que come outras culturas, antropófagos, mas a novidade do Viveiros de Castro é que nosso canibalismo é diferente de outros, não é totemista em que se come aquilo que se sabe e se respeita que o outro tem. Você come porque está em uma espécie de déficit em relação à constância da sua própria alma, daí o título do livro se chamar “A inconstância da alma selvagem”.
Isso seria lá, longinquamente, se é que queremos acreditar em alguma origem antropológica, algo complicado, mas meio alegoricamente poderíamos dizer isso. Nosso gosto pelo estrangeiro, nossa superficialidade, nosso sentimento de que o brasileiro tem um problema, um defeito de origem, um complexo de vira-latas, uma expressão de que não estamos muito certos de quem somos. Isso se articulou com duas matrizes, uma mais cultural e outra social, de Juscelino pra cá, que é a interpretação que temos sobre o Brasil: por que deu errado?
Fórum – Já se parte do princípio de que deu errado…
Dunker – Nós somos fanáticos por diagnósticos, estamos sempre fazendo novos. Tem um grande diagnóstico que diz o seguinte: no fundo, o Brasil nunca conseguiu implantar um tipo de individualismo e o tipo de instituição que esse individualismo exprime, que as tradições liberais anglo-saxônicas conseguiram. Isso é ibérico em parte, mas o individualismo ibérico é mais bem concluído enquanto projeto liberal do que o individualismo à brasileira.
Um dos motivos é que ser indivíduo no Brasil é mais problemático, frustrâneo, do que em outros países, menos desenvolvidos inclusive. Não é uma questão de pujança econômica, social, como pensavam os desenvolvimentistas dos anos 70, que quando o país desenvolve isso vai junto. Não vai junto. Existe um descontentamento de base com ser apenas um indivíduo. Estávamos falando das redes sociais e é um caso exemplar. Não consigo ser só mais um em uma curtida que tem 15, 20 pessoas, tenho um problema em ser só mais um. Tem um tipo de diferença baseado na pessoa, um fetiche na celebridade, naquele que se diferencia não por ser um como qualquer outro que trabalhou mais, que tem dotes melhores, mas se diferencia por um “xis” a mais, um truque, uma mágica, que fico procurando para descobrir qual é. Isso vai levar ao fato de que na minha relação com as instituições nunca vou largar a ilusão de ser uma exceção, quero a porta social, não a dos funcionários.
A outra matriz é de que somos uma cultura sincrética, uma democracia racial, o país que nunca entrou numa guerra pra valer, em que nossos generais usavam terno, não farda, um país em que há uma acomodação, uma complacência, que durante muito tempo era uma forma de mitigar a barbárie e a opressão. É o senhor que é tão poderoso que ele pode te proteger também. Então, é melhor a gente chegar num acordo aqui, você não exerce seu poder sobre mim e não me rebelo muito contra você. Isso está subsidiado em um tipo de interpretação cultural de que há uma mistura criativa, uma ginga, uma síncope – e é possível que isso seja verdade, olhando para a nossa cultura vamos encontrar esse traço. O problema é a derivação ideológica desse traço. Já que estamos em uma cultura assim, e a cultura é nossa terapia espontânea, vamos acomodando as coisas.
De repente, o passivo acumulado em torno disso veio à tona. Não quero mais isso para a questão da negritude, para a questão gay, de acesso privilegiado à universidade… Precisa mudar a chave. Não quero mais sincretismo, o “eu e o meu amigo temos um conhecido no Detran que resolve o problema pra gente”. Agora, novo capítulo. Essas duas matrizes, o déficit do individualismo liberal e a hipótese sincrética se esgotaram. Tem que se inventar outra coisa. Enquanto não se inventa, é Hobbes, todos contra todos.
Fórum – Em uma palestra sua, o senhor traça um histórico de neuroses que se relacionam com o contexto de cada época, e no fim do século 19 já havia neuroses associadas ao trabalho. No capitalismo atual, temos o desenvolvimento de um trabalho mais intensificado e também mais extenso. Que tipo de sofrimento psíquico essa forma de trabalhar acaba proporcionando?
Dunker – Tem uma resposta mais ou menos consensual. Sua pergunta remete ao fato de que transformações nas nossas formas de vida, quer dizer, trabalho, linguagem e desejo, transformam as formas de sofrer. Um tipo de neurose pra um tipo de laço social que foi se sucedendo.
Há um consenso de que a nossa forma neoliberal, formada de 1970 pra cá, com Reagan e Thatcher, se associa com a emergência da depressão como forma de sofrimento compulsório. Hoje, a depressão é a segunda maior causa de afastamento de trabalho do mundo e estima-se que em dez anos seja a primeira, fácil. A depressão e quadros que estão mais ou menos ligados a ela como pânico, ansiedades, fibromialgia, problemas de sono, anoréxico-bulímicos. Tem uma constelação de formas de sofrer em torno da depressão, que está ligada ao eixo potência-impotência.
“Seus talentos, sua potencialidade, tire isso para fora” é algo que está ligado ao discurso mais chinfrim de recursos humanos, que é todo ele voltado para isso, saia da impotência e vá para a potência. Um negócio sem fim, um infinito ruim, como diria Hegel. Você sempre pode mais, até desfalecer. Potência e impotência substituem o eixo do proibido-permitido, que era a chave onde Freud descobriu a psicanálise, a partir de um certo tipo de posição do pai-chefe na cultura que estabelecia essa gramática para o desejo. O que é permitido e o que não é. A gente saiu disso e partiu para “o que não é mais permitido no trabalho?”. Você pode fazer qualquer coisa, inclusive o prescrito se reduziu a entregar mais, mais rápido e melhor.
Daí tem as depressões e um grupo de sintomas que é meio secundário a essa chave. Como faço se não sou um super-herói? Vou me dopar. Tem vários tipos de doping. O oficial, como dar ritalina para uma criança – tem os casos, sim, em que é indicado, mas não justifica o fato de em um ano para outro ter um aumento de 75% no consumo dessa substância, uma epidemia. Tem o doping antigo que é tomar o álcool, você resiste, vai em frente, se quebrando por dentro. O irregular, cocaína, estimulantes, e os psicológicos, “fitoterápicos” digamos assim, e o ódio é um deles. É muito comum você entrar em uma redação de um grande jornal e existir o cara com chicote. Quanto mais ódio estimula nele, mais entrega; quanto mais ódio do sistema, mais se liga. É um tipo de doping que vai se criando por um discurso gerencial.
Um dos fatores indutores da depressão, e volto a esse ponto, é que ela também é algo que se alimenta da lógica do último capítulo. O depressivo está sempre julgando sua vida naquela semana, senão naquele dia. Se só importa o que você conseguiu fechar naquele trimestre como meta, não consegue mais se contar uma história. Sua vida ficou resumida a esses meses. Vida que não consegue criar uma história, não consegue ser compartilhada e ser reconhecida, nem se reconhecer. É uma vida que vai matando o desejo, ninguém consegue desejar desse jeito, com a potência ilimitada e indefinida.
Fórum – O que lembra um trecho do seu livro, no qual se conta o pesadelo do soldado que volta da guerra, está sentando à mesa, mas ninguém ali o escuta contar o que passou.
Dunkler – Era um soldado, um caso avançado, como o exemplo do Primo Levy voltando de Auschwitz. Hoje é todo mundo voltando da guerra todo dia, pensando “ah, mas vem a sexta-feira e o feriado”. Sua boa história é conseguir dar um jeito e sobreviver mais uns meses. Na lógica amorosa, a mesma coisa. Não é como se cria um laço, como gera intimidade, como se consegue reconhecer… Não, é está rendendo ou não está rendendo.
A gente não estabelece formas de vida que são ostensivamente percebidas como equivocadas sem pagar um preço. Já vivemos épocas em que as pessoas eram comidas por leões, mas aquilo era minimamente um consenso de que deveria ser assim. Não há um consenso hoje. As pessoas percebem que isso não é vida. As novas gerações não querem isso, escolhem outras formas de trabalho. Vai ter um deserto antes de vir o oásis.
Foto: Divulgação/Boitempo
Fonte: Revista Forum

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Facebook pode levar ao pensamento único?

Manipulações ideológicas do Facebook: muito além da omissão

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Pesquisadores desmentem alegações da rede de Zuckerberg e afirmam: ela estimula bolhas de opinião que excluem pensamentos diversos
Por Rafael Evangelista

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Internet: a sombra de um grande retrocesso
Rede está ameaçada por novos monopólios. Facebook manipula fluxo de informações e experimenta influir no estado emocional das populações. Há saída?
Na última quinta, dia 7, pesquisadores do Facebook publicaram um artigo na revistaScience analisando os efeitos de seu polêmico algoritmo de seleção, aquele pedaço de código que roda nas redes sociais e seleciona os amigos cujas publicações você vê ou não, quais aparecem primeiro e mais frequentemente e quais vão lá pra baixo da tela. Outros pesquisadores rapidamente apelidaram o artigo de “não é minha culpa”, dado o viés complicado na análise dos dados coletados. A conclusão principal do estudo é, basicamente, que a razão de vermos na nossa linha do tempo textos cuja tendência política é mais parecida com a nossa deriva de seleções feitas por nós mesmos.  Quanto mais diversos ideologicamente os nossos amigos, mais conteúdo diverso receberíamos. O Facebook só apimentaria um pouco isso, fazendo uma retirada, em tese mínima, do que é diverso. Entre 5 a 10% do que não se alinha à visão política do usuário é omitido pelo sistema.
Os portais e jornais brasileiros rapidamente repetiram a fala oficial, provavelmente seguindo algum release.
Mas, como mostra, Zeynep Tufecki, socióloga ligada ao Berkman Center, de Harvard, o estudo tem coisas bem mais interessantes escondidas. Coisas inclusive que complicam bastante as conclusões contidas no artigo original. (Além de Tufeck muitos outros pesquisadores comentaram o artigo, o texto dela é um bom ponto de partida para outros links).
 Em primeiro lugar, a amostra usada para o estudo é problemática.  Foram tomados dados de um pequeno subgrupo de usuários, aqueles que se auto-identificam como liberais ou conservadores (o que na língua política brasileira corresponde mais ou menos a esquerda e direita, respectivamente). Ora, presume-se que esses que se auto-identificam claramente são mais propensos a criarem uma bolha informativa em torno de si, estão politicamente bem definidos.
Além disso, o estudo meio que esconde coisas bem interessantes – que ficam fora também do release.  Uma delas é que há uma brutal variação entre a probabilidade de um link ser clicado se ele está disposto no topo da página ou lá embaixo. Ou seja, o Facebook não precisa sumir com um determinado link, basta dispô-lo no fim da linha do tempo (que “do tempo” não tem mais nada) que a chance de ser realmente visto será menor. Por exemplo, um link tem 20% de chance de ser clicado, por um conservador, se estiver no topo da página. Esse número cai para menos de 10% se estiver na décima posição e e vai a quase 5% se, além de estar em décimo, não for ideologicamente alinhado a esse leitor.
A supressão automática de posições políticas diversas à nossa, somada às regras utilizadas para o ordenamento das postagens são dois elementos que se complementam e não podem ser analisados em separado.
O fato de que evitamos de ler algo que não está politicamente alinhado a nossa visão de mundo não é exatamente uma novidade. É por isso que, idealmente, deveria haver uma variedade ideológica entre os meios de comunicação, refletindo os diferentes setores da sociedade.
O elemento novo trazido pelos algoritmos das redes sociais é que essa escolha não é mais transparente, não se trata mais de comprar o jornal A ou B, ou ver a TV B ou C. Os próprios pesquisadores, que são do Facebook e têm acesso aos códigos que rodam lá, não fizeram uma análise do algoritmo, do código, para mostrar seus efeitos. Eles trabalharam com a interação entre usuários e código, tentando ver o que emerge dali. O algoritmo em si mostra pouco, seria como tentar entender o futebol apenas lendo as regras do jogo.
Isso indica que a análise do consumo de notícias tem um problema técnico e de difícil compreensão pela frente. Um problema que envolve poder e que é agravado pela centralização da distribuição das notícias em poucas redes sociais, cuja propriedade é privada. Mais complicado ainda, em sua análise, para quem nem pode ler as regras, como nós. Um abacaxizão cibernético.
——
No próxima semana, entre os dias 13 e 15 de maio, acontece no Rio de Janeiro o III Simpósio Lavits, encontro da Rede Latino Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade. Em pauta estarão assuntos diversos como redes sociais e big data, criptografia, drones, o mundo pós Snowden, entre outros. É gratuito e aberto, com o objetivo de conectar o que há de mais novo na pesquisa com a sociedade e os movimentos sociais. Mais detalhes no link http://lavitsrio2015.medialabufrj.net/
Fonte: Outras palavras

sexta-feira, 24 de abril de 2015

A democratização da mídia: uma necessidade

Chomsky: "As empresas privadas vão fazer de tudo contra a democratização da mídia"

A liberdade de imprensa não se resume à liberdade das empresas privadas fazerem o que querem: é o direito das pessoas receberem informação de muitas fontes


Le Monde Diplomatique (tradução do Esquerda.net)
Esta é a segunda parte da entrevista com Chomsky, para ler a primeira, clique aqui
 
Ignacio Ramonet: Uma reflexão sobre política externa dos Estados Unidos e a sua rivalidade com a China. Pensa, como alguns analistas, que a China será o grande rival estratégico dos Estados Unidos no século XXI? E que consequências pode ter isto para a marcha do mundo em geral e para o destino dos Estados Unidos?
 
Noam Chomsky: A China desenvolve-se de uma maneira muito eficiente. Começou no ano de 1949, quando conquistou a independência. Há uma expressão para isso no discurso norte-americano, diz-se “a perda da China”, é muito interessante... “a perda da China”... Não se pode “perder” algo do qual não se é dono. Mas, nos Estados Unidos, damos por assente que somos os donos do mundo, e se algum país se afasta do nosso lado, “perdemo-lo”...
 
A China é hoje uma produtora offshore das fábricas norte-americanas. As principais empresas dos EUA produzem na China, importam da China. Ou seja: as nossas principais empresas importam bens baratos da China e obtêm ganhos extraordinários. Uma empresa norte-americana pode dispor de uma mão-de-obra reprimida, muito barata, onde o Estado controla muito diretamente os trabalhadores; não tem de se preocupar com a contaminação e outras coisas: é uma forma muito inteligente de ganhar dinheiro. Assim, há vínculos comerciais, financeiros e industriais muito fortes. Ao mesmo tempo, a China tem as ambições normais de uma superpotência. Por exemplo, a China, se prestar atenção ao mapa, está rodeada ao Leste por um cordão de protetorados dos Estados Unidos que controlam as suas águas territoriais. Isso a China não gosta. Os chineses querem expandir-se pelas suas próprias águas offshore. Surge assim um conflito potencial bastante grave entre a China, por um lado, e os EUA e o Japão pelo outro. E esse conflito diz respeito ao conjunto do Pacífico Ocidental. É uma região onde o Japão, durante a sua época imperial, tinha todas as suas forças. E continua a controlar uma boa parte. E a China não gosta disso. Neste momento, os caças japoneses e chineses passam continuamente sobre ilhas que não têm nenhum interesse. Nalgum momento isto pode desembocar numa guerra.
 
Não obstante, muito se falou da nova potência da China no século XXI. Acho que há um tremendo exagero. O crescimento da China foi forte durante muitos anos, mas continua a ser um país muito pobre. Se reparar, por exemplo, no índice de desenvolvimento humano da ONU, acho que a China está na posição noventa e não sai daí. Tem problemas internos importantes, o movimento laboral está a romper as cadeias, há muitas greves, protestos, problemas ecológicos tremendos, as pessoas falam de poluição, mas é muito pior: há destruição dos recursos agrícolas, que são limitados; está a passar por extraordinários problemas que os Estados Unidos e a Europa não têm, continuando a ter uma enorme pobreza. E não está a ponto de se transformar numa potência hegemónica.O mesmo sucede entre os EUA e China; a política externa de Obama para Ásia é mandar forças militares para a Austrália, e construir uma enorme base militar numa ilha próxima à China. Não diz que é uma base militar, mas é-o certamente. Os Estados Unidos têm, a poucos quilómetros da China, a base de Okinawa, cuja população se opõe redondamente à sua permanência. O Japão controla esse território, e os EUA querem manter as bases nessa zona. E novas bases estão a ser construídas e a expandir-se com a frontal objeção da população e da China, que olha tudo como uma ameaça. E tem razão. Ou seja: há um confronto potencial não somente com os EUA, como também com os países vizinhos, como as Filipinas, o Vietname e o Japão, é claro. É um problema de tensão. Da mesma forma há um problema económico, uma tremenda interação económica, de produção, de finanças, de importação, etc. De maneira que certamente vai continuar a ser um tema importantíssimo nos assuntos internacionais.
 
De maneira que a pressão dos EUA e do Japão sobre a China, a partir do Leste, está a empurrá-la para a Ásia Central, e um dos desenvolvimentos recentes mais importantes dos assuntos mundiais é o estabelecimento do que se chama a Organização de Cooperação de Xangai (OCS) que tem a China como base, mas que inclui a Rússia, os Estados centrais asiáticos, a Índia, e o Irão como observador. Está a deslocar-se também para a Turquia, e talvez vá continuar a expandir-se para a Europa, com o que seria reconstituído algo parecido com a velha “rota da seda”, que saía da China e ia para a Europa. Washington não gosta disso. Os Estados Unidos pediram para ser observadores no seio da OCS, mas foi recusado; o Irão e outros países têm esse estatuto de observador, mas aos Estados Unidos foi negado. Aliás, a OCS pediu a saída de todas as bases militares norte-americanas da Ásia Central. A Ásia tem grandes recursos; o confronto atual com a Rússia está a empurrar o Kremlin a ter relações mais próximas, mais estreitas com a China, sendo a China a potência dominante e a Rússia menos. Mas é como um desenvolvimento natural, por assim dizer. A parte oriental da Rússia tem grandes recursos, minerais, petróleo, etc. E isso poderia permitir aproximar ainda mais a China da Rússia. Pode-se ver uma espécie de sistema eurasiano ou eurásico, com melhores vínculos, mais estreitos. Por exemplo, hoje pode-se tomar um comboio de alta velocidade desde a China ao Cazaquistão, e no entanto não se pode tomar um comboio de alta velocidade de Boston para a Europa, mas sim de Pequim ao Cazaquistão. Faz parte do desenvolvimento que estamos a ver e é algo bastante forte; e alguns estrategas norte-americanos consideram-no uma NATO com base na China. Talvez o seja. Talvez. Em tal caso, há grandes avanços, e tem razão ao dizer que são ameaças potenciais nos assuntos internacionais, que poderiam se transformar em perigosos.
 
Gostaria agora de lhe fazer duas perguntas sobre a comunicação de massas. A primeira é uma grande preocupação que existe, no mundo do jornalismo, sobre a crise da imprensa escrita. Há uma enorme crise, muitos jornais estão a desaparecer, muitos jornalistas estão a perder o emprego. E a pergunta é: o jornalismo de papel vai continuar a existir? Que consequências pode ter o desaparecimento do jornalismo de papel?
 
Não acho que seja inevitável. Há algumas exceções interessantes. Por exemplo, no México. Acho que o La Jornada é atualmente o segundo jornal diário mais importante, que se lê muito amplamente, ainda que os empresários não gostem disso de forma alguma, e por isso não anunciam nele; se repararmos, não há publicidade de marcas, só publicidade do governo; porque a lei mexicana assim o exige, exige que o governo faça a sua publicidade oficial em todos os diários. Assim, o La Jornada sobrevive, e pode ver que muita gente o lê. O La Jornada é um jornal diário de boa qualidade e está a sobreviver. E acho que não se trata de uma coisa impossível.
 
Na Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), um dos artigos, acho que é o 19, fala da liberdade de imprensa. E diz que a liberdade da imprensa tem dois aspetos: o direito a gerar uma informação livre do controlo governamental, mas também o direito de receber informação e de ter a oportunidade de gerar informação livremente. O que significa sem concentração de capitais. A imprensa rica, complexa e independente, do século XIX e princípios do XX, sucumbiu. Sucumbiu por duas causas: a primeira, a concentração de capitais, que significava que se investia grandes quantidades de capital na imprensa comercial privada. E a segunda, a dependência da publicidade. Quando se depende da publicidade, são os anunciantes que começam a ter impacto no jornal. Se virmos um jornal moderno atual, é um negócio; e como qualquer outro negócio, tem de gerar um produto com o seu mercado, esse mercado são as outras empresas que fazem publicidade; e os produtos são os leitores. Mas os produtos não subsidiam um jornal. Hoje o jornal vende publicidade às empresas, tal como a televisão. Não se paga quando se liga a televisão, mas a empresa, que é o canal, vende o público aos seus anunciantes; e é aí que se vê um grande esforço, onde está a parte criativa: a publicidade. Na indústria da televisão, a publicidade é o verdadeiro conteúdo. A história é simplesmente um recheio, o que vemos entre dois espaços publicitários. Essa é a estrutura básica da televisão comercial. Na imprensa escrita há um termo: o buraco das notícias. Como se faz? Primeiro põe-se a publicidade, que é o importante; e depois recheia-se um pouquinho aqui e lá com umas notícias [risos]. Essa é a estrutura natural dos meios de comunicação comerciais. Este tema foi uma batalha durante séculos. E o que se viu na Argentina recentemente: será que a liberdade de imprensa é apenas a liberdade das empresas privadas fazerem o que lhes dá na gana? Ou a liberdade de imprensa também teria de compreender o que diz a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos, ou seja: o direito das pessoas receberem informação de muitas fontes, e de terem a oportunidade de se juntarem, de gerar e produzir informação a partir de muitas fontes?
 
Recentemente esteve em Londres para visitar Julian Assange, o fundador da WikiLeaks, na Embaixada do Equador – eu tinha estado com ele nuns dias dantes – e, por outro lado, Edward Snowden, com as suas revelações, também demonstrou a existência de todo o sistema de vigilância, desmascarando algumas ações dos Estados, o poder dos Estados em matéria de vigilância e de ocultação da informação. Ou seja, por um lado, a WikiLeaks, por outro lado, fontes como Snowden, que utilizam a Internet, as redes sociais, que nos ensinaram muito, ultimamente, em matéria de informação. Pensa que este tipo de jornalismo novo é algo que se vai desenvolver num futuro próximo em termos de comunicação e de emancipação intelectual, com a tomada de consciência dos cidadãos?
 
A sua pergunta sobre os meios de comunicação impressos situa-se nesse contexto. Poderia haver meios impressos e com muita vitalidade, mas têm de ter uma responsabilidade pública. E quando se fala de subsídios governamentais, se o governo é democrático, significa subsídios públicos; significa que é o público quem participa para garantir um meio no qual a informação esteja disponível em toda uma gama de fontes; e que muitos grupos diferentes tenham a oportunidade de apresentar os seus próprios factos, as suas próprias interpretações, as suas análises, as suas investigações, etc. Essa seria uma versão enriquecida da liberdade de imprensa. E pode ser conseguida mas, tal como as demais formas de democratização, é preciso mobilização pública. As empresas privadas vão fazer o impossível para impedi-lo. Está aí a Argentina para prová-lo. Mas acontece em todos os lados.
 
A resposta, como à maioria das perguntas, é que depende do que façam os cidadãos. Sem lugar a dúvidas, qualquer sistema de poder vai impedi-lo tanto quanto puder, dentro das suas possibilidades. Assange está refugiado na Embaixada do Equador em Londres, e a Grã-Bretanha está a pagar muitíssimo para que não escape pela porta. Como sabem, Assange está em piores condições que as da prisão, porque na prisão pode-se ver a luz do dia, a não ser que esteja na solitária; mas ele não pode. Snowden está na Rússia, sabe o que ocorreu com o voo de Evo Morais, o presidente da Bolívia que voava de Moscovo para a Bolívia, e os países europeus – França, Espanha, e outros – intercetaram-no por ordem do Grande Amo em Washington... Uma coisa incrível! Finalmente, o avião teve de aterrar na Áustria. A polícia imediatamente entrou no avião para certificar-se de que Snowden não estava escondido na cabine. Estas são, diretamente, violações de protocolos diplomáticos, que mostram duas coisas; primeiro, a dedicação extrema do governo de Obama a castigar Assange, e depois, em segundo lugar, quão servil é a Europa ao Grande Amo norte-americano. Um fenómeno muito interessante.
 
Obama vai além, castigou mais whistleblowers do que qualquer outro presidente. Há uma lei nos EUA, a lei de espionagem durante a Primeira Guerra Mundial. Obama usou-a para evitar este tipo de revelações à sociedade, como fizeram Assange e Snowden. O governo vai impor o indizível para proteger-se do seu “inimigo principal”. E o “inimigo principal” de qualquer governo é a sua própria população. Há muitas provas disto que, aqui [na Argentina], se podem entender. Da mesma maneira que as grandes empresas privadas vão proteger o seu controlo tirânico sobre qualquer aspeto da vida dentro do possível; para estes whistleblowers, a luta por uma informação livre e transparente é uma coisa quase natural. Terão sucesso? Bom, é como saber se a ditadura argentina poderia voltar a tomar o poder. Isso depende das pessoas. Se Snowden, Assange e outros fazem o que fazem, fazem-no na sua qualidade de cidadãos. Estão a ajudar o público a descobrir o que fazem os seus próprios governos. Acaso existe uma tarefa mais nobre para um cidadão livre? E Obama castiga-os severamente. Agora, se isto vai continuar ou não, vai depender de como respondam os cidadãos.



quinta-feira, 19 de março de 2015

Casa Grande, senzala ou a crise do lulismo


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Por uma década, PT buscou construir social-democracia desenvolvimentista que superasse antagonismo “Casa Grande e Senzala”. Esta conjuntura acabou: a “Casa Grande” foi às ruas

Por Felipe Amin Filomeno | Imagem: Ana Menendez, dos Jornalistas Livres

As manifestações ocorridas neste março confirmam que o Brasil se encontra numa grande crise social, com implicações econômicas, políticas e culturais. Há um consenso emergente entre os intelectuais de esquerda de que a crise está associada ao esgotamento do Lulismo. Defino como Lulismo o modelo de desenvolvimento sócio-econômico implementado pelo PT no governo federal, baseado no tripé presidencialismo de coalizão, prosperidade econômica mundial e desenvolvimentismo social-democrata. Em palavras simples, com o agravamento da crise econômica, o cobertor ficou curto demais para atender às demandas crescentes da parcela da sociedade que ascendeu socialmente na última década e aos custos de cooptação de partidos políticos que costumavam formar a base aliada do PT no Congresso Nacional.

Diante deste quadro, o PT não inovou em políticas públicas e em estratégia política. Pior, após vencer a eleição presidencial com uma agenda de propostas à esquerda, curvou-se aos seus adversários, adotando uma política de austeridade e o discurso moralista de combate à corrupção. Isto não tem sido suficiente para acalmar os ânimos do “mercado”, para diminuir a oposição das grandes empresas de comunicação, para conter a raiva dos setores conservadores da classe média ou para reaglutinar a “base aliada”. O PT não quis assumir os riscos de uma radicalização e, agora, paga o preço da aposta na agenda conservadora.

As forças conservadoras de oposição, por outro lado, galvanizaram-se em um movimento de contra-reforma. Neste movimento, confluem diversas correntes. Primeiramente, há o conservadorismo de classe — daqueles que sempre odiaram a esquerda e o PT, daqueles que não conseguem mais arcar com o salário da empregada doméstica, daqueles que viram seu lucro encolher por causa do aumento dos salários dos empregados, daqueles que passaram a dividir o aeroporto, o shopping e a universidade com pessoas da “periferia”. Em segundo lugar, há o conservadorismo moralista — daqueles que veem na Igreja e no Exército instituições capazes de solucionar, pela via autoritária e fundamentalista, os problemas de uma democracia disfuncional. Um dos principais — talvez o principal — ator neste movimento de contra-reforma conservadora é a mídia capitalista. Seu massacre ideológico contra o PT tem gerado, há anos, um clima de niilismo político e instabilidade que fomenta o radicalismo de direita.

Por mais de uma década, o PT buscou construir consensualmente uma social-democracia desenvolvimentista que fosse capaz de superar o antagonismo da “Casa Grande e Senzala”. Esta conjuntura acabou. A “Casa Grande” foi às ruas no dia 15 de Março. E que a maior parte dos manifestantes contra o governo seja de classe média não faz desta manifestação menos da “Casa Grande”. Em países centrais, com baixa desigualdade social, uma grande classe média serve como sustentáculo da democracia. No Brasil, não. A classe média brasileira age como “Casa Grande” e, cada vez mais, “ousa dizer seu nome”, admitindo-se fascista, classista, racista e machista. Basta ver o conteúdo dos cartazes das manifestações de direita ocorridas neste dia 15.

Há, claro, indivíduos de classe média que não são conservadores e autoritários, mas que são muito vulneráveis à manipulação ideológica que reduz todos os problemas do país à corrupção associada à Dilma e ao PT (que, na prática, controlam apenas um fragmento do sistema político brasileiro). A classe média brasileira avalia o mundo da perspectiva de sua varanda gourmet, mas não percebe isso. Não são indivíduos que, durante os governos do PT, passaram a ter uma pessoa com nível superior na família pela primeira vez, que passaram a ter carteira assinada pela primeira vez, que viajaram de avião pela primeira vez. Então é lógico que vão bater panela na varanda depois de ficarem enfurecidos com o país ao lerem a capa da Veja enquanto estão na fila do caixa do Pão de Açúcar. E a taxa de câmbio é uma variável importantíssima nesta dinâmica política de classe. O dólar alto distancia a classe média brasileira do padrão de consumo dos países avançados e gera frustração política quase imediatamente
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À medida que a crise do Lulismo se agrava, não só as políticas desenvolvimentistas e redistributivas estão a ser desmanteladas, mas a própria democracia brasileira está ameaçada. O PT está refém das forças conservadoras e de seu próprio governismo. A contra-ofensiva conservadora está forte e bem organizada, contando com seu poder econômico, seu aparato mídiático-ideológico e suas bancadas parlamentares. Será preciso muita mobilização e inteligência política da parte dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda e dos setores esclarecidos da sociedade civil para evitar que o Brasil, ao invés de superar a crise do Lulismo iniciando um novo ciclo de desenvolvimento, faça uma curva de retorno ao neoliberalismo e ao autoritarismo. Há muita coisa no Brasil para se consertar, incluindo erros cometidos pelo PT apesar dos avanços promovidos pelo Lulismo, mas um impeachment motivado por ódio de classe, por fundamentalismo religioso e por ideologia fascista só agravaria os nossos problemas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Como se trava a guerra da Comunicação


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Em um momento em que governos petistas de todo o país, em todos os níveis (federal, estadual e municipal), mergulham na impopularidade por razões justificáveis (campanha de oposição da mídia e crise econômica) e injustificáveis (por inação e medo do enfrentamento político), o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, deu uma aula de comunicação eficiente.
Ao fim deste texto o leitor poderá ouvir na íntegra, em três partes uma entrevista de Haddad que mostra luz no fim do túnel para o PT. Mas, antes, algumas considerações necessárias.
Na quarta-feira da semana passada (12/02), o alcaide paulista esteve no programa “Jornal da Manhã”, da rádio Jovem Pan. Para entrevistá-lo foram convocados dois antipetistas de carteirinha, o historiador tucano Marco Antonio Villa e a apresentadora de telejornal do SBT Raquel Sheherazade.
Foi um massacre. A disparidade de preparo intelectual entre os entrevistadores e o entrevistado ficou escandalosamente evidente. Villa foi quem mais apanhou, apesar de que, em nenhum momento, Haddad o desrespeitou. Apenas mostrou quão desinformado é o historiador tucano sobre os assuntos que pretendeu debater com um administrador que demonstrou dominar, de forma impressionante, cada aspecto da administração que comanda.
Sheherazade ficou aparentemente intimidada e pegou mais leve. Villa, porém, apesar de muito mais agressivo, ficou tão perdido que começou a apelar à ironia como forma de suprir sua falta de informações e de argumentos.
Nos primeiros minutos da ENORME entrevista que Haddad concedeu – de quase uma hora e meia –, o prefeito já deu um “chega-pra-lá” em Villa para ele perceber que não iria ter moleza. Confira, abaixo, o primeiro ataque do historiador tucano e a forma como Haddad repeliu a ofensiva.
Marco Antonio Villa – O senhor já percorreu mais da metade do mandato. A última avaliação Datafolha do senhor não foi positiva. Quando é uma avaliação no primeiro mês, no primeiro semestre, no primeiro ano, sempre há uma justificativa do mandato anterior; historicamente é no Brasil assim. Mas o senhor já cumpriu mais da metade do mandato e a avaliação ruim e péssimo é extremamente alta para os padrões inclusive de São Paulo, onde os prefeitos inclusive também foram mal avaliados; é de 44%. Como é que o senhor avalia? Quem é que está errado, a gestão do senhor ou os eleitores. 
Fernando Haddad – Acho que você…
Marco Antonio Villa – É? Os dados estão errados?!
Fernando Haddad – Não, você. Vila, você é historiador…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – …Então você tem que fazer análise de série histórica…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – …Se fosse pegar o primeiro semestre do terceiro ano da gestão da Marta e do Kassab, vai ter, exatamente, a mesma avaliação…
Marco Antonio Villa – Sei, sei… Eu precisava consultor esses dados… Então o senhor acha normal ter 44% de ruim e péssimo depois de dois anos de gestão?
Fernando Haddad – Dependendo da conjuntura, sim.
Marco Antonio Villa – E que conjuntura que o senhor tem que o senhor pode explicar que a gestão… Que os eleitores estão errados, que eu estou errado, que o senhor está certo?
Fernando Haddad – Não, eu não estou dizendo que os eleitores estão errados…
Marco Antonio Villa – Sei…
Fernando Haddad – Estou dizendo que a sua análise está errada. Você falou que é a primeira vez que isso acontece e eu estou dizendo que não…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – Estou dizendo que na gestão da Marta aconteceu, na gestão do Kassab, antes da reeleição, aconteceu e, portanto, não é uma novidade em São Paulo…
Marco Antonio Villa – E por que que isso acontece?
Fernando Haddad – Olha, tem várias razões. Por exemplo, tarifa de ônibus. É uma coisa que afeta muito a popularidade no Brasil, mas, em São Paulo, em particular…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – Se você pegar os quatro anos de mandato da gestão da Marta e os quatro anos de mandato da gestão Kassab – o segundo mandato, porque o primeiro não houve reajuste e, no segundo, um reajuste muito acima da inflação – você vai ver que as pesquisas que foram feitas na sequência dos reajustes de tarifa, deram indicadores [negativos] superiores a esse que você acabou de se referir…
Raquel Sheherazade – Prefeito Haddad…
Fernando Haddad – … Em março de 2003, a Marta estava no terceiro ano de mandato, como eu. Teve 45% de ruim e péssimo. Imediatamente depois do reajuste da tarifa. Se você pegar os dois reajustes do Kassab no segundo mandato, chegou a 46% de ruim e péssimo. Basta você  [Villa] pegar a série história – você é historiador, sabe fazer leitura de números – e vai ver que a coisa é bem diferente […]
Ufa! Haddad correu o risco de ser acusado de espancamento com requintes de crueldade. Ele mostrou que o “historiador” que tentou fustigá-lo não conhece nem a história recentíssima de sua cidade. Não teve nem o cuidado de ir ao site do Datafolha analisar como estava a popularidade dos antecessores de Haddad quando chegaram a terceiro ano de mandato nos primeiros meses do ano – quando a tarifa do transporte público aumenta em todo o país.
Ao longo da entrevista, Haddad mostrou um outro dado: é extremamente fácil rebater as críticas da mídia tucana. Só é necessário alguém com boa oratória e informado sobre dados políticos e técnicos da administração, dados que o prefeito paulistano mostrou que domina. Esse conhecimento, aliado a uma oratória extremamente fluente e precisa, triturou apresentadores despreparados.
Mais adiante, aliás, acuado por um entrevistado que já dominava completamente o debate, o “Jornal da Manhã” pôs no ar um ouvinte mal-educado que fez uma crítica boba ao prefeito, que já abordará a questão que esse ouvinte levantou. Vale a pena conferir, abaixo.
Ouvinte – Bom dia pessoal da Jovem Pan. Meu nome é [inaudível], eu sou de Carapicuíba. Em resposta a esse “prefeito Haddad”, o que define o mandato dele como péssimo são as ruas esburacadas, é esse preço do ônibus, a tarifa do ônibus, essa a saúde de São Paulo, é isso que define esse governo dele como péssimo. Esses números…
Fernando Haddad – É, você vê que a tarifa de ônibus fica na cabeça das pessoas. O que as pessoas não entendem é que o salário do motorista e do cobrador aumenta. Nos últimos quatro anos a tarifa ficou congelada […]. O último reajuste foi quatro anos atrás. O salário de motorista e cobrador aumentou 35%, nos últimos quatro anos; o reajuste da tarifa foi 17%. E ele [o ouvinte], você vê que ele não menciona o metrô. Ele poderia estar se referindo, também, ao metrô e ao trem. Ele não menciona. Provavelmente porque ele desconhece que é atribuição de outra esfera de governo… São dois governos de dois partidos diferentes que tomaram a mesma medida, não contra a população, mas porque tem custos aumentando […]
A entrevista foi longa – cerca de oitenta minutos, que o leitor poderá ouvir ao fim do texto –, mas os trechos que você leu acima sintetizam o que nela ocorreu. Haddad arrasou entrevistadores despreparados, ouvintes desinformados. Seguramente, pessoas de melhor nível intelectual entenderam e aprovaram os esclarecimentos do prefeito.
O que não se entende é por que um governante tão evidentemente sério, tão bem articulado, capaz de, inclusive, expor entrevistadores mal-intencionados ao ridículo só começou a falar, a travar o debate político de forma adequada, no terceiro ano de mandato.
Esse formato de entrevista favorece demais o prefeito. Ele tem que conseguir mais dessas entrevistas – e para o prefeito da maior cidade brasileira, não será difícil.
Futuramente, claro, a mídia antipetista tentará escalar adversários – não havia entrevistadores nessa entrevista da Jovem Pan, mas adversários – melhor preparados do que os sofríveis Marco Antonio Villa e Raquel Sheherazade. Mas isso talvez até facilite as coisas para um administrador que sabe do que fala e sabe como falar o que sabe.
Seja como for, Haddad ainda tem quase dois anos de mandato pela frente. Se se dispuser a enfrentar o debate democrático sobretudo nessas rádios que tanto fazem a cabeça dos paulistanos e que se dirigem a um público praticamente indefeso diante das manipulações tucano-midiáticas, fará esse público entender melhor sua excelente gestão.
Não há que nos debruçarmos muito sobre o conteúdo da entrevista, já que Haddad fala de problemas que, para a grande maioria dos leitores desta página, não dizem nada, pois essa maioria está em várias partes do Brasil. Mas há que ressaltar, além da atuação digna de aplausos do prefeito, o potencial político que alguém como ele detém.
Há poucos políticos tão preparados quanto Haddad, no país. E quando se alude a preparo não é só o administrativo, mas o comunicacional. O prefeito paulistano é um comunicador nato. Se se expuser mais, como vem fazendo, que não duvidem: ele pode chegar muito mais longe na política do que se espera. O PT já dispõe de um candidato a presidente para 2018.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Como ficará o mercado de trabalho com os ajustes fiscais?



A principal anomalia no atual programa do seguro desemprego, que o faz elevar a quantidade de beneficiários e os gastos totais justamente nos períodos de maiores taxas de emprego formal, é a rotatividade e a informalidade na ocupação

O trabalho no Brasil registra especificidades que o distingue do funcionamento do mercado laboral de outros países, sobretudo o das economias capitalistas avançadas. Como a literatura especializada adotada predominantemente nas escolas de economia do País tem como referência as economias ricas do mundo, não se apresenta fato incomum análises que destoam da real situação interna das relações capital-trabalho.

Exemplo disso pode ser identificado no debate atual que decorre da implementação da Medida Provisória 665 do penúltimo dia do ano passado, voltada à redução de parcela dos gastos públicos com a assistência aos desempregados.

Para os que deverão utilizar o seguro desemprego pela primeira vez, o novo requisito mínimo passa a ser o de 18 meses acumulados nos últimos 24 meses anteriores à rescisão do registro em carteira (ao invés de 6 em 36 meses).

Em relação ao ano de 2014, por exemplo, a aplicação da nova medida implicaria excluir 26,5% dos 8,6 milhões de requisitantes do seguro desemprego do acesso ao benefício. Na sua maior parte, os jovens seriam os mais afetados, uma vez que estariam justamente na fase inicial de ingresso no mercado de trabalho.

Destaca-se que, de acordo com o IBGE/Pnad, a taxa nacional de desemprego do ano de 2013 foi de 6,5% do conjunto da força de trabalho. Mas em relação às faixas etárias prevalece significativa diferenciação no desemprego.

No caso dos jovens, por exemplo, a taxa de desemprego apresenta-se mais expressiva, como nos casos da faixa etária de 15 a 17 anos que atingiu 23,1% (3,6 vezes maior que a geral) e de 18 a 24 anos com 13,7% (2,1 vezes que a geral) de desempregados no ano de 2013.

Para a população adulta, a taxa de desemprego no mesmo ano se mostra menos intensa, como no segmento etário de 25 a 49 anos que representou 5,4% (17% menor que a geral) e, ainda, para os detentores de 50 anos e mais de idade com desemprego de 2,4% (63% menor que a geral).

Por outro lado, deve-se considerar que a principal anomalia no atual programa do seguro desemprego, que o faz elevar a quantidade de beneficiários e, em consequência, os gastos totais justamente nos períodos de elevação no nível de emprego formal e não o contrário, como na maior parte dos países, é a rotatividade e a informalidade na ocupação. Isso porque o País ainda possui uma parcela de sua mão de obra na situação de informalidade que se encontra excluída do acesso ao seguro desemprego.

Assim, à medida que o nível de emprego assalariado formal aumenta, os trabalhadores passam a ter condições de cumprir os requisitos de acesso ao seguro desemprego. Isoladamente, isso pouco alteraria a trajetória dos segurados do seguro desemprego, salvo pela rotatividade.

Observa-se que, desde o ano de 2008, quando se iniciou a crise econômica de dimensão global, o Brasil se tornou um dos poucos países do mundo cujo desemprego decresceu ao ritmo médio anual de 6,9%, ao passo que subiu 4,8% no México, 7,1% na França, 9,5% na França e 11,9% na Itália.
Não obstante a queda na taxa de desemprego dos brasileiros, o nível da ocupação assalariada cresceu 9,4% ao ano, em média, enquanto a quantidade de beneficiados do seguro desemprego aumentou 21,5% como média anual.

Nos países ricos, os segurados e valor total dos gastos aumentam justamente na fase em que o desemprego se eleva e não o contrário, como ocorre no Brasil. Isso porque, aqui, a flexibilidade contratual estabelecida pela facilidade no uso da rotatividade no emprego termina por ampliar a quantidade de trabalhadores que passam a cumprir os requisitos do programa de garantia de renda aos desocupados.

Com a redução da rotatividade, o Brasil poderia presenciar situação equivalente ao que ocorre na dinâmica do seguro desemprego nas economias avançadas, ou seja, a redução sensível na quantidade de usuários do seguro desemprego e, por consequência, no volume de gastos públicos.
Percebe-se, portanto, que a sociedade encontra-se diante de excelente oportunidade para enfrentar em definitivo e em novas bases a problemática da rotatividade no Brasil, avançando para relações modernas de trabalho.

E ao cumprir esta etapa fundamental de modernização no mercado de trabalho, encontraria as melhores condições de redução dos gastos desnecessários que por ventura são gerados pelo uso do seguro desemprego em função da rotatividade abusiva.

Publicado originalmente em Brasildebate.com.br

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TV será uma extensão da Web?

O fim da televisão como a conhecemos

O blog Carta Maior traduziu do Le Monde Diplomatique e publicou que a TV virará apenas uma tela de conforto, simples extensão das grandes empresas americanas da web, que detêm cada vez mais informações sobre seus usuários.  Nasce o mundo dos consumidores/produtores de conteúdo.


Ignacio Ramonet*
 
lollopins / Flickr
A televisão continua mudando rapidamente. Essencialmente, pelas novas práticas de acesso aos conteúdos audiovisuais que observamos sobretudo entre as gerações jovens. Todos os estudos realizados sobre as novas práticas de uso da televisão nos EUA e na Europa indicam uma mudança acelerada. Os jovens telespectadores passam do consumo “linear” da TV para um consumo de programas gravados e “à la carte” em uma “segunda tela” (computador, tablet, smartphone). De receptores passivos, os cidadãos estão passando a ser, mediante o uso massivo das redes sociais, “produtores-difusores”, ou produtores-consumidores (prosumers).

Nos primeiros anos da televisão, o comportamento tradicional do telespectador era olhar os programas diretamente na tela de seu televisor da sala, mantendo-se frequentemente fiel a um mesmo (e quase único) canal. Com o tempo, tudo isso mudou. E chegou a era digital. Na televisão analógica, já não cabiam mais canais e não existia a possibilidade física para acrescentar novos, pois um bloco de frequência de seis mega-hertz equivale a um só sinal, um só canal. Mas, com a digitalização, o espectro radioelétrico se fraciona e se otimiza. A cada frequência de 6 MHz, em vez de um só canal, podem-se transmitir até seis ou oito canais, e dessa forma se multiplica a quantidade de canais. Onde antes havia sete, oito ou dez canais agora existem cinquenta, sessenta, setenta ou centenas de canais digitais...

Essa explosão do número de canais disponíveis, particularmente por cabo e satélite, tornou obsoleta a fidelidade do telespectador a um canal de preferência e suprimiu a linearidade. Como consequência, abandonou-se a fórmula do menu único para consumir pratos à la carte, simplesmente zapeando com o controle remoto entre a multiplicidade de canais.

A invenção da web – há 25 anos – favoreceu o desenvolvimento da internet e o surgimento do que chamamos de “sociedade conectada” mediante todo tipo de links, desde o correio eletrônico até as diferentes redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) e mensagens de texto e imagem (WhatsApp, Instagram etc.). A multiplicação das novas telas, agora nômades (computadores portáteis, tablets, smartphones) mudou totalmente as regras do jogo.

A televisão está deixando de ser progressivamente uma ferramenta de massas para se transformar em um meio de comunicação consumido individualmente através de diversas plataformas, de forma posterior e personalizada.

Essa forma de ver programas gravados se alimenta em particular dos sites de replay dos próprios canais de televisão, que permitem, via internet, um acesso não linear aos programas. Estamos presenciando o surgimento de um público que conhece os programas e as emissões, mas não conhece obrigatoriamente a grade de programação e nem sequer o canal de difusão ao qual esses programas originalmente pertencem.

A essa oferta, já muito abundante, se somam agora os canais online da Galáxia da Internet. Por exemplo, as dezenas de canais difundidos pelo YouTube, ou os sites de vídeos alugados sob demanda. Até o ponto de já não sabermos sequer  o que significa a palavra “televisão”. Reed Hastings, diretor da Netflix, o gigante norte-americano de vídeos online (com mais de 50 milhões de assinantes), declarou recentemente que “a televisão linear terá desaparecido em vinte anos porque todos os programas estarão disponíveis na internet”. É possível, mas não é certo.

Os próprios televisores também estão desaparecendo. Nos aviões da companhia aérea American Airlines, por exemplo, os passageiros da classe executiva já não dispõem de telas de televisão, nem individuais nem coletivas. Agora, cada passageiro recebe um tablet para que ele mesmo faça seu próprio programa e se instale com o dispositivo da forma como achar melhor (encostado, por exemplo). Na Norvegian Air Shuttle, se vai ainda mais longe. Não existem telas de televisão no avião, nem tampouco entregam tablets, mas o avião tem internet wifi e a empresa parte do princípio que cada passageiro leva uma tela (um computador portátil, ou tablet, ou smartphone) e que basta com que se conecte ao site da Norvegian para ver filmes, séries, programas de TV ou ler jornais (que já não são mais partilhados...).

Jeffrey Cole, professor norte-americano da UCLA, especialista em internet e redes sociais, confirma que a televisão será vista cada vez mais pela Rede. “Na sociedade conectada, a televisão sobreviverá, mas diminuirá seu protagonismo social, ao passo que as indústrias cinematográfica e musical poderiam se desvanecer”, diz.

No entanto, Jeffrey Cole é muito mais otimista do que o diretor da Netflix pois afirma que, nos próximos anos, a média de tempo dedicada à televisão passará de entre 16 a 18 horas semanais atualmente para até 60 horas, dado que a televisão, segundo Cole, “vai saindo das casas” e poderá ser vista “a todo momento” graças a qualquer dispositivo com tela, apenas se conectando à internet ou mediante a nova telefonia 5G.

Também é preciso contar com a competência das redes sociais. Segundo o último relatório do Facebook, quase 30% dos adultos norte-americanos se informam por meio do Facebook e 20% do tráfego das notícias provêm dessa rede social. Mark Zuckerberg afirmou há alguns dias que o futuro do Facebook será em vídeo: “Há cinco anos, a maior parte do conteúdo do Facebook era texto. Agora, evolui para o vídeo porque é cada vez mais fácil gravar e compartilhar”.

Por sua vez, o Twitter também está mudando de estratégia: está passando do texto ao vídeo. Em um recente encontro com os analistas de Wall Street, Dick Costolo, conselheiro do Twitter, revelou os planos do futuro próximo dessa rede social: “2015 será o ano do vídeo no Twitter”. Para os usuários mais antigos, isso tem o sabor de traição. Mas, segundo Costolo, o texto, sua essência, os célebres 140 caracteres iniciais, está perdendo importância. E o Twitter quer ser o ganhador na guerra do vídeo dos telefones portáteis.

Segundo os planos da direção do Twitter, podem-se subir vídeos do smartphone para a rede social a partir de agora, início de 2015. Passará dos escassos seis segundos atuais (possibilitados pelo aplicativo Vine) até acrescentar um vídeo tão logo quanto possível diretamente na mensagem.

O Google também quer agora difundir conteúdos visuais destinados a sua gigantesca clientela de mais de 1,3 bilhões de usuários que consomem cerca de seis bilhões de horas de vídeo por mês... Por isso, comprou o YouTube. Com mais de 130 milhões de visitantes únicos por mês nos Estados Unidos, o YouTube tem uma audiência superior à do Yahoo!. Nos EUA, os 25 principais canais online do YouTube têm mais de um milhão de visitantes únicos por semana. O YouTube capta mais jovens entre 18 e 34 anos do que qualquer outro canal norte-americano de televisão a cabo.

A aposta do Google é que o vídeo na internet vai pouco a pouco acabar com a televisão. John Farrell, diretor do YouTube na América do Sul, prevê que 75% dos conteúdos audiovisuais serão consumidos via internet em 2020.

No Canadá, por exemplo, o vídeo na internet já está a ponto de substituir a televisão como meio de consumo massivo. Segundo um estudo do instituto de pesquisa Ipsos Reid and M Consulting, “80% dos canadenses reconhecem que, cada vez mais, veem mais vídeos online na rede”, o que significa que, com tal massa crítica (80%!), aproxima-se o momento em que os canadenses verão mais vídeos e programas online do que na televisão.

Todas essas mudanças são percebidas claramente não apenas nos países ricos e desenvolvidos. Também são vistas na América Latina. Por exemplo, os resultados de um estudo realizado pela pesquisadora mexicana Ana Cristina Covarrubias (diretora da empresa Pulso Mercadológico) confirmam que a rede e o ciberespaço estão mudando aceleradamente os modelos de uso dos meios de comunicação no México – em particular, da televisão. A pesquisa trata exclusivamente dos habitantes do Distrito Federal do México e abrange grupos precisos da população: 1) jovens de 15 a 19 anos; 2) a geração anterior, pais de família entre 35 e 55 anos de idade com filhos de 15 a 19 anos. Os resultados revelam as seguintes tendências: 1) tanto no grupo dos jovens como na geração anterior, as novas tecnologias penetraram em grandes proporções: 77% possuem telefone móvel, 74% possuem computador e 21%, tablet, e 80% têm acesso à internet. 2) O uso da televisão aberta e gratuita está caindo e se situa apenas em 69%, ao passo que o da televisão paga está subindo e já alcança os 50%. 3) Por outro lado, aproximadamente a metade dos jovens que assistem televisão (29%) usam o televisor como tela para ver filmes que não estão na programação de TV: assistem DVD/Blu-ray ou Internet/Netflix. 4) O tempo de uso diário do telefone móvel é o mais alto de todos os aparelhos digitais de comunicação. O celular registra 3 horas e 45 minutos. O computador tem um tempo de uso diário de 2 horas e 16 minutos, e o tablet de 1 hora e 25 minutos; e a televisão de apenas 2 horas e 17 minutos. 5) O tempo de visita a redes sociais é de 138 minutos diários para Facebook e 137 para WhatsApp; para a televisão, é de apenas 133 minutos. Se somarmos todos os tempos de visitas a redes sociais, o tempo de exposição diária à internet é de 480 minutos, o equivalente a 8 horas diárias, ao passo que o da televisão é de apenas 133 minutos, equivalentes a 2 horas e 13 minutos. A tendência indica claramente que o tempo dedicado à televisão foi rebaixado amplamente pelo tempo dedicado às redes sociais.

A era digital e a sociedade conectada já são, portanto, realidades para vários grupos sociais na Cidade do México. E uma de suas principais consequências é o declínio da atração pela televisão, especialmente a de sinal aberto, como resultados do acesso aos novos formatos de comunicação e aos conteúdos oferecidos pelos meios digitais. O grande monopólio do entretenimento que era a televisão aberta está deixando de sê-lo para ceder espaço aos meios digitais. Quando antes um cantor popular poderia ser visto por vários milhões de telespectadores (cerca de 20 milhões na Espanha) em um programa de sábado à noite, por exemplo, agora esse mesmo cantor precisa passar por 20 canais diferentes para ser visto por cerca de 1 milhão de telespectadores.

De agora em diante, o televisor estará cada vez mais conectado à internet (é o caso da França, para 47% dos jovens entre 15 e 24 anos). O televisor se reduz a uma mera tela grande de conforto, simples extensão da web que procura os programas no ciberespaço e na Cloud (“Nuvem”). Os únicos momentos massivos de audiência ao vivo, de “sincronização social” que continuam reunindo milhões de telespectadores, serão então os noticiários em caso de atualidade nacional ou internacional de caráter espetacular (eleições, catástrofes, atentados etc.), os grandes eventos esportivos ou as finais de jogos do tipo reality show.

Tudo isso não é apenas uma mudança tecnológica. Não é só uma técnica, a digital, que substitui a outra, a analógica, ou a internet que substitui a televisão. Isso tem implicações de muitas ordens. Algumas positivas: as redes sociais, por exemplo, favorecem o intercâmbio rápido de informação, ajudam a organização dos movimentos sociais, permitem a verificação da informação, como é o caso do WikiLeaks... não restam dúvidas de que os aspectos positivos são numerosos e importantes.

Mas também é preciso considerar que o fato de a internet estar tomando o poder nas comunicações de massas significa que as grandes empresas da Galáxia da Internet – ou seja, Google, Facebook, Facebook, YouTube, Twitter, Yahoo!, Apple, Amazon etc.–, todas elas norte-americanas (o que já constitui um problema em si mesmo...), estão dominando a informação planetária. Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, e a questão que se coloca agora é: qual é o meio? Quando vejo um programa de TV na web, qual é o meio? A televisão ou a internet? E, em função disso, qual é a mensagem?

Sobretudo, conforme revelou Edward Snowden e como afirma Julian Assange em seu novo livro “Quando Google encontrou o WikiLeaks”, todas essas megaempresas acumulam informações sobre cada um de nós a cada vez que utilizamos a rede. Informações que são comercializadas, vendidas a outras empresas. Ou também cedidas às agências de inteligência dos EUA, em particular a Agência Nacional de Segurança, a temida NSA. Não nos esqueçamos de que uma sociedade conectada é uma sociedade vigiada, e uma sociedade vigiada é uma sociedade controlada.

*jornalista espanhol. Presidente do Conselho de Administração e diretor de redação do “Le Monde Diplomatique” em espanhol. Editorial Nº: 231. Janeiro de 2015.