segunda-feira, 20 de julho de 2015

O mito do brasileiro cordial ruiu

Por quem rosna o Brasil

Diante da ruína da autoimagem no espelho, o país parece preferir máscaras autoritárias a enfrentar a brutalidade da sua nudez




O que é o Brasil, agora que não pode contar nem com os clichês? Como uma pessoa, que no território de turbulências que é uma vida vai construindo sentidos e ilusões sobre si mesma, um país também se sustenta a partir de imaginários sobre uma identidade nacional. Por aqui acreditamos por gerações que éramos o país do futebol e do samba, e que os brasileiros eram um povo cordial. Clichês, assim como imaginários, não são verdades, mas construções. Impõem-se como resultado de conflitos, hegemonias e apagamentos. E parece que estes, que por tanto tempo alimentaram essa ideia dos brasileiros sobre si mesmos e sobre o Brasil, desmancharam-se. O Brasil hoje é uma criatura que não se reconhece no espelho de sua imagem simbólica.
Essa pode ser uma das explicações possíveis para compreender o esgarçamento das relações, a expressão sem pudor dos tantos ódios e, em especial, o atalho preferido tanto dos fracos quanto dos oportunistas: o autoritarismo. Esvaziado de ilusões e de formas, aquele que precisa construir um rosto tem medo. Em vez de disputar democraticamente, o que dá trabalho e envolve perdas, prefere o caminho preguiçoso da adesão. E adere àquele que grita, saliva, vocifera, confundindo oportunismo com força, berro com verdade.
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), relacionado na delação premiada da Operação Lava Jato aorecebimento de 5 milhões de dólares em propina, brada: “Vou explodir o governo”. Tanto ele quanto o apresentador de programa de TV que brada que tem de botar “menor” na cadeia, quando não no paredão, assim como o pastor que brada que homossexualidade é doença são partes do mesmo fenômeno. São muitos brados, mas nenhum deles retumba a não ser como flatulência.Num momento de esfacelamento da imagem, o que vendem os falsos líderes, estes que, sem autoridade, só podem contar com o autoritarismo? Como os camelôs que aparecem com os guarda-chuvas tão logo cai o primeiro pingo de chuva, eles oferecem, aos gritos, máscaras ordinárias para encobrir o rosto perturbador. Máscaras que não servem a um projeto coletivo, mas ao projeto pessoal, de poder e de enriquecimento, de cada um dos vendilhões. Para quem tem medo, porém, qualquer máscara é melhor do que uma face nua. E hoje, no Brasil, somos todos reis bastante nus, dispostos a linchar o primeiro que nos revelar 
notícia.
Os linchamentos dos corpos nas ruas e o strip-tease das almas na internet desmancharam as últimas ilusões sobre o brasileiro cordial
Ainda demoraremos a saber o quanto nos custou a perda tanto dos clichês quanto dos imaginários, mas não a lamento. Se os clichês nos sustentaram, também nos assombraram com suas simplificações ou mesmo falsificações. A ideia do brasileiro como um povo cordial nunca resistiu à realidade histórica de uma nação fundada na eliminação do outro, os indígenas e depois os negros, lógica que persiste até hoje. Me refiro não ao “homem cordial”, no sentido dado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em seu seminal Raízes do Brasil, mas no sentido que adquiriu no senso comum, o do povo afetuoso, informal e hospitaleiro que encantava os visitantes estrangeiros que por aqui aportavam. O Brasil que, diante da desigualdade brutal, supostamente respondia com uma alegria irredutível, ainda que bastasse prestar atenção na letra dos sambas para perceber que a nossa era uma alegria triste. Ou uma tristeza que ria de si mesma.
O futebol continua a falar de nós em profundezas, basta escutar a largura do silêncio das bolas dos alemães estourando na nossa rede nos 7X1 da Copa das Copas, assim como o discurso sem lastro, a não ser na corrupção, dos dirigentes da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mas, se já não somos o país do futebol, de que futebol somos o país?
Tampouco lamento o fato de que “mulata” finalmente começa a ser reconhecido como um termo racista e não mais como um “produto de exportação”. E lamento menos ainda que a suposta existência de uma “democracia racial” no Brasil só seja defendida ainda por gente sem nenhum senso. Os linchamentos dos corpos nas ruas do país e o strip-tease das almas nas redes sociais desmancharam a derradeira ilusão da imagem que importávamos para nosso espelho. Quanto tudo o mais faltava, ainda restavam os clichês para grudar em nosso rosto. Acabou. Com tanto silicone nos peitos, nem o país da bunda somos mais.
Quando os clichês, depois de tanto girar em falso, tornam-se obsoletos, ainda se pode contar com o consumo de todas as outras mercadorias. Mas, quando o esfacelamento dos imaginários se soma ao esfacelamento das condições materiais da vida, o discurso autoritário e a adesão a ele tornam-se um atalho sedutor. É nisso que muitos apostam neste momento de esquina do Brasil.
É também isso que explica tanto um Eduardo Cunha na Câmara quanto pastores evangélicos que pregam o ódio para milhões de fiéis e apresentadores de TV que estimulam a violência enquanto fingem denunciá-la. Estes personagens paradigmáticos do Brasil atual formam as três faces de uma mesma mediocridade barulhenta e perigosa, que se expressa por bravatas diante das câmeras. Numa crise que é também de identidade, forjam realidades que possam servir ao seu projeto de poder e de enriquecimento para abastecer a manada. Esta, por sua vez, prefere qualquer falsificação ao vazio.
A invenção de inimigos para a população culpar virou um negócio lucrativo num país com a autoimagem fraturada
Para estes personagens tão em evidência, quanto mais medo, melhor. Inventar inimigos para a população culpar tem se mostrado um grande negócio nesse momento do país. Se as pessoas sentem-se acuadas por uma violência de causas complexas, por que não dar a elas um culpado fácil de odiar, como “menores” violentos, os pretos e pobres de sempre, e, assim, abrir espaço para a construção de presídios ou unidades de internação? Se os “empreendimentos” comprovadamente não representam redução de criminalidade, certamente rendem muito dinheiro para aqueles que vão construí-los e também para aqueles que vão fazer a engrenagem se mover para lugar nenhum. Depois, o passo seguinte pode ser aumentar a pressão sobre o debate da privatização do sistema prisional, que para ser lucrativo precisa do crescimento do número já apavorante de encarcerados.
Se há tantos que se sentem humilhados e diminuídos por uma vida de gado, porque não convencê-los de que são melhores que os outros pelo menos em algum quesito? Que tal dizer a eles que são superiores porque têm a família “certa”, aquela “formada por um homem e por uma mulher”? E então dar a esses fiéis seguidores pelo menos um motivo para pagar o dízimo alegremente, distraídos por um instante da degradação do seu cotidiano? Fabricar “cidadãos de bem” numa tábua de discriminações e preconceitos tem se mostrado uma fórmula de sucesso no mercado da fé.
A invenção de inimigos dá lucro e mantém tudo como está, porque, para os profetas do ódio, o Brasil está ótimo e rendendo dinheiro como nunca. Ou que emprego teriam estes apresentadores, se não tiverem mais corpos mortos para ofertar no altar da TV? Ou que lucro teria um certo tipo de “religioso” que criou seu próprio mandamento – “odeie o próximo para enriquecer o pastor”? Ou que voto teria um deputado da estirpe de Eduardo Cunha se os eleitores exigissem um projeto de fato, para o país e não para os seus pares? Para estes, que estimulam o ódio e comercializam o medo, o Brasil nunca esteve tão bem. E é preciso que continue exatamente assim.
A ilusão mais sedutora do governo Lula era a de criar um Brasil igualitário sem mexer nos privilégios dos mais ricos
Se o governo Lula, na história recente do país, fundou-se sobre um pacto de conciliações, para compreendê-lo é necessário também decodificá-lo como um conciliador de imaginários. Lula, o líder carismático, foi muito eficiente ao ser ao mesmo tempo o novo – “o operário que chegou ao poder” num país historicamente governado pelas elites – e o velho –, o governante “que cuida do povo como um pai”. A centralização na imagem do líder esvazia de força e de significados o coletivo. Do mesmo modo, a relação entre pais e filhos alçada à política atrasa a formação do cidadão autônomo, que fiscaliza o governo e concede ao governante, pelo voto, um poder temporário.
Mas a ideia mais sedutora do governo Lula, em especial no segundo mandato, era a possibilidade de incluir no mundo do consumo milhões de brasileiros e reduzir a miséria de outros milhões sem tocar no privilégio dos mais ricos. Este era um encantamento poderoso, que funcionou enquanto o Brasil cresceu, mas que, qualquer que fosse o desempenho da economia, só poderia funcionar por um tempo limitado num país com acertos históricos para fazer e uma desigualdade abissal. Enquanto o encanto não se quebrou, muitos acreditaram que o eterno país do futuro finalmente tinha chegado ao futuro. O Brasil, que valoriza tanto o olhar estrangeiro (do estrangeiro dos países ricos, bem entendido), leu-se como notícia boa lá fora. A Copa do Mundo aqui foi sonhada para ser a apoteose-síntese deste Brasil: enfim, o encontro entre identidade e destino.
Não foi. E não foi muito antes dos 7X1. Essa frágil construção simbólica, que desempenhou um papel muito maior do que pode parecer na autoimagem do Brasil e nas relações cotidianas da população na história recente, exibiu vários sinais de que se quebrava aqui e ali, vazando por muitos lados. Sua ruína se tornou explícita nas manifestações de junho de 2013, protestos identificados com a rebelião e com a esquerda, apesar da multiplicidade contraditória das bandeiras. Quem acha que 2013 foi apenas um soluço, não entendeu o impacto profundo sobre o país. A partir dali todos os imaginários sobre o Brasil perderam a validade. Assim como os clichês. E a imagem no espelho se revelou demasiado nua. E bastante crua.
O Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado
O Brasil do futuro não chegará ao presente sem fazer seu acerto com o passado. Entre tantas realidades simultâneas, este é o país que lincha pessoas; que maltrata imigrantes africanos, haitianos e bolivianos; que assassina parte da juventude negra sem que a maioria se importe; que massacra povos indígenas para liberar suas terras, preferindo mantê-los como gravuras num livro de história a conviver com eles; em que as pessoas rosnam umas para as outras nas ruas, nos balcões das padarias, nas repartições públicas; em que os discursos de ódio se impõem nas redes sociais sobre todos os outros; em que proclamar a própria ignorância é motivo de orgulho na internet; em que a ausência de “catástrofes naturais”, sempre vista como uma espécie de “bênção divina” para um povo eleito, já deixou de ser um fato há muito; em que as paisagens “paradisíacas” são borradas pelo inferno da contaminação ambiental e a Amazônia, “pulmão do mundo”, vai virando soja, gado e favela – quando não hidrelétricas como Belo Monte, Jirau e Santo Antônio.
Este é também o país em que aqueles que bradam contra a corrupção dos escalões mais altos cometem cotidianamente seus pequenos atos de corrupção sempre que têm oportunidade. A ideia de que o Congresso democraticamente eleito, formado por um número considerável de oportunistas e corruptos, não corresponde ao conjunto da população brasileira é talvez a maior de todas as ilusões. É duro admitir, mas Eduardo Cunha é nosso.
Neste Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT), acuada por ameaças de impeachment mesmo quando (ainda) não há elementos para isso, é um personagem trágico. Vendida por Lula e pelos marqueteiros na primeira eleição, a de 2010, como “mãe dos pobres”, ela nunca foi capaz de vestir com desenvoltura esse figurino populista, até por sinceridade. Quando tenta invocar simbologias em seus discursos, torna-se motivo de piada. O slogan de seu segundo mandato –“Brasil, Pátria Educadora” – não encontra nenhum lastro na realidade, virando mais uma denúncia do colapso da educação pública do que o movimento para recuperá-la. Parece que os marqueteiros tampouco entendem o Brasil deste momento e seguem acreditando que basta criar imagens para que elas se tornem imaginários. O próprio Lula parece ter perdido sua famosa intuição sobre o Brasil e sobre os brasileiros. Em suas manifestações, Lula soa perdido, intérprete confuso de um Brasil que já não existe.
Os protagonistas das manifestações de 2015 gritam também para manter seus privilégios
Agora que já não contamos com os velhos clichês e imaginários, a crueza de nossa imagem no espelho nos assusta. Diante dela e de uma presidente com a autoridade corroída, cresce a sedução dos autoritarismos. Nada mais fácil do que culpar o outro quando não gostamos do que vemos em nós. Em vez de encarar o próprio rosto, cobre-se a imagem perturbadora com alvos a serem destruídos. Aqueles que encontram nesta adesão aos discursos autoritários uma possibilidade de ascensão, esquecem-se da lição mais básica, a de que não há controle quando se aposta no pior. Só há chance se enfrentarmos conflitos e contradições com a cara que temos. É com esses Brasis que precisamos nos haver. É essa imagem múltipla que temos de encarar no espelho se quisermos construir uma outra, menos brutal.
O que o governo Lula adiou, ao escolher a conciliação em vez da ruptura com os setores conservadores, está na mesa. Há várias forças se movendo para encontrar uma nova acomodação, que evite o enfrentamento das contradições e das desigualdades. É pelas bandeiras da reacomodação que as ruas foram ocupadas em 2015 pelo que alguns têm chamado de “nova direita”. Esta, se adere à novidade da organização pelas redes sociais e aparentemente se coloca fora dos esquemas tradicionais da política e dos partidos, talvez seja menos “nova” do que possa parecer nas questões de fundo.
A próxima manifestação, marcada para 16 de agosto, é acompanhada com atenção pelos políticos e partidos tradicionais que conspiram pelo impeachment da presidente eleita. Os manifestantes de 2015 gritam contra a corrupção, mas basta escutá-los com atenção para compreender que gritam para deixar tudo como está. E, se possível, voltar inclusive atrás, já que uma parte significativa parece ter se sentido lesada por políticas como a das cotas raciais e outros tímidos avanços na direção da reparação e da equidade. A redução da maioridade penal, assim como outros projetos conservadores em curso, são também exemplos de uma resposta autoritária – e inócua – para o esgarçamento crescente das relações sociais e para a violência.
Há muito barulho sendo produzido hoje, como o próprio discurso de Eduardo Cunha em cadeia nacional (17/7), para desviar o foco do grande nó a ser desatado: não haverá justiça social e igualdade no Brasil sem tocar nos privilégios. Muita gente bacana ainda segue acreditando no conto de fadas de que é possível alcançar a paz sem perder nada. Não é. Quem quiser de fato reduzir a violência e a corrupção que atravessa o Brasil e os brasileiros, vai ter de pensar sobre o quanto está disposto a perder para estar com o outro. É este o ponto de interrogação no espelho. É por isso que o som ameaçador dos dentes sendo afiados cresce. E cresce também onde menos se espera.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum
Fontes: El País

segunda-feira, 6 de julho de 2015

99 máximas de Nietzsche


99 DOSES DE NIETZSCHE

Publicado no Brasil pela editora Sextante, “Nietzsche para Estressados” é um pequeno manual que reúne 99 máximas do gênio alemão e sua aplicação a várias situações do dia a dia. No livro, cada capítulo é iniciado por um aforismo de Nietzsche, seguido de uma interpretação atual feita por Allan Percy, autor da compilação.
Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, na cidade alemã de Röcken. Escreveu centenas textos críticos sobre religião, moral, cultura contemporânea, filosofia e ciência, exibindo uma predileção por metáfora, ironia e aforismo. Seu legado filosófico até hoje não perdeu o poder de inspirar.
“Aos 25 anos Nietzsche já era professor de filologia clássica. No entanto, sua atividade docente foi interrompida em 1870, quanto estourou a Guerra Franco-Prussiana. Nietzsche participou do conflito como enfermeiro, mas foi obrigado a abandonar Guerra por causa de uma disenteria, da qual nunca se recuperou totalmente. Obrigado a se aposentar prematuramente por conta de sequelas da doença, Nietzsche viveu na Riviera francesa e no norte da Itália, lugares que considerava ideais para pensar e escrever. Sozinho e frustrado por suas obras não alcançarem o sucesso desejado, foi vítima de seus primeiros acessos de loucura em 1889, quando morava em Turim e estava praticamente cego. Morreu em 1900, depois de longas temporadas em clínicas psiquiátricas.”
Neste post, reunimos os 99 aforismos compilados por Allan Percy.

1 — Quem tem uma razão de viver é capaz de suportar qualquer coisa.
2 — O destino dos seres humano é feito de momentos felizes e não de épocas felizes.
3 — Nós nos sentimos bem em meio à natureza porque ela não nos julga.
4 — Precisamos pagar pela imortalidade e morrer várias vezes enquanto estamos vivos.
5 — O valor que damos ao infortúnio é tão grande que, se dizemos a alguém “Como você é feliz!”, em geral somos contestados.
6 — Nossos tesouro está na colmeia de nosso conhecimento. Estamos sempre voltados a essa direção, pois somos insetos alados da natureza, coletores do mel da mente.
7 — A palavra mais ofensiva e a carta mais grosseira são melhores e mais educadas que o silêncio.
8 — Nossa honra não é construída por nossa origem, mas por nosso fim.
9 — O homem que imagina ser completamente bom é um idiota.
10 — As pessoas que nos fazem confidências se acham automaticamente no direito de ouvir as nossas
11 — Precisamos amar a nós mesmos para sermos capazes de nos tolerar e não levar uma vida errante.
12 — Só quem constrói o futuro tem o direito de julgar o passado.
13 — Alegrando-se por nossa alegria, sofrendo por nosso sofrimento — assim se faz um amigo.
14 — Não devemos ter mais inimigos que as pessoas dignas de ódio, mas tampouco devemos ter inimigos dignos de desprezo. É importante nos orgulharmos de nossos inimigos.
15 — O sucesso sempre foi um grande mentiroso.
16 — O homem é algo a ser superado. Ele é uma ponte, não um objetivo final.
17 — Falar muito de si mesmo pode ser uma forma de se ocultar.
18 — As pessoas nos castigam por nossas virtudes. Só perdoam sinceramente nossos erros.
19 — O reino dos céus é uma condição do coração e não algo que cai na terra ou que surge depois da morte.
20 — O homem é, antes de tudo, um animal que julga.
21 — A melhor arma contra o inimigo é outro inimigo.
22 — Os maiores êxitos não são os que fazem mais ruído e sim nossas horas mais silenciosas.
23 — O indivíduo sempre lutou para não ser absorvido por sua tribo. Se fizer isso, você se verá sozinho com frequência e, às vezes, assustado. Mas o privilégio de ser você mesmo não tem preço.
24 — Quem é ativo aprende sozinho.
25 — Nossas opiniões são a pele na qual queremos ser vistos.
26 — Não há razão para buscar o sofrimento, mas, se ele surgir em sua vida, não tenha medo: encare-o de frente e com a cabeça erguida.
27 — A razão começa na cozinha.
28 — O futuro influi no presente da mesma maneira que o passado.
29 — Não deveríamos tentar deter a pedra que já começou a rolar morro abaixo; o melhor é dar-lhe impulso.
30 — A maneira mais eficaz de corromper o jovem é ensiná-lo a admirar aqueles que pensam como ele e não os que pensam de forma diferente.
31 — Toda queixa contém em si uma agressão.
32 — No amor sempre existe algo de loucura e na loucura sempre existe algo de razão.
33 — Quem deseja aprender a voar deve primeiro aprender a caminhar, a correr, a escalar e a dançar. Não se aprende a voar voando.
34 — Quem luta contra monstros deve ter cuidado para não se transformar em um deles.
35 — São muitas as verdades e, por esse motivo, não existe verdade alguma.
36 — A mentira mais comum é a que o homem usa para enganar a si mesmo.
37 — Deveríamos considerar perdido o dia em que não dançamos nenhuma vez.
38 — Há mais sabedoria no seu corpo do que na sua filosofia mais profunda.
39 — Se ficar olhando muito tempo para o abismo olhará para você.
40 — As posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias.
41 — Preciso de companheiros, mas de companheiros vivos, não de cadáveres que eu tenha que levar nas costas por toda parte.
42 — Eis a tarefa mais difícil: fechar a mão aberta do amor e ser modesto como doador.
43 — A arrogância por parte de quem tem mérito nos parece mais ofensiva que a arrogância de quem não o tem: o próprio mérito é ofensivo
44 — Todos os grandes pensamentos são concebidos ao se caminhar
45 — Quem não sabe guardar suas opiniões no gelo não deveria entrar em debates acalorados.
46 — Dois grandes espetáculos são muitas vezes suficientes para curar uma pessoa apaixonada.
47 — Quem declara que o outro é idiota fica chateado quando, no final, descobre que isso não é verdade.
48 — Amigos deveriam ser mestres em adivinhar e calar: não se deve querer saber tudo.
49 — Usar as mesmas palavras não é garantia de entendimento. É preciso ter experiências em comum com alguém.
50 — Estava só e não fazia outra coisa além de encontrar-se consigo mesmo. Então, aproveitou sua solidão e pensou em coisas muito boas por várias horas.
51 — A potência intelectual de um homem se mede pelo humor que ele é capaz de manifestar.
52 — Gosto dos valentes, mas não basta ser um espadachim: também é preciso saber a quem ferir. E, muitas vezes, abster-se demonstra mais bravura, reservando-se para um inimigo mais digno.
53 — De que vale o ronronar de alguém que não sabe amar, como um gato?
54 — Para chegar a ser sábio, é preciso querer experimentar certas vivências. Mas isso é muito perigoso. Mais de um sábio foi devorado nessa tentativa.
55 — O cérebro verdadeiramente original não é o que enxerga algo novo antes de todo mundo, mas o que olha para coisas velhas e conhecidas, já vistas e revistas por todos, como se fossem novas. Quem descobre algo é normalmente este ser sem originalidade e sem cérebro chamado sorte.
56 — Quem não dispõe de dois terços do dia é um escravo.
57 — O melhor meio de ajudar pessoas muito confusas e deixá-las mais tranquilas é elogiá-las de forma veemente.
58 — O homem amadurece quando reencontra a seriedade que demonstrava em suas brincadeiras de criança.
59 — Ninguém é tão louco que não possa encontrar outro louco que o entenda.
60 — Na maior parte das vezes que não aceitamos uma opinião, isso acontece por causa do tom em que ela foi manifestada.
61 — Acredito que os animais veem o homem como um ser igual a eles que perdeu, de forma extraordinariamente perigosa, a sanidade intelectual animal. Ou seja: veem o homem como um animal irracional, um animal que sorri, que chora, um animal infeliz.
62 — Antes de se casar, pergunte a si mesmo: serei capaz de manter uma boa conversa com essa pessoa até a velhice? Todo o resto é passageiro num matrimônio.
63 — É muito difícil os homens entenderem sua ignorância no que diz respeito a eles mesmos.
64 — Pobre do pensador que não é o jardineiro, mas apenas o canteiro de suas plantas.
65 — Um poeta escreveu em sua porta: “Quem entrar aqui me honrará. Quem não entrar me proporcionará um prazer”.
66 — A verdade é que amamos a vida não porque estamos acostumados a ela, mas porque estamos acostumados com o amor.
67 — O homem é a causa criativa de tudo o que acontece.
68 — Seus maiores bens são seus sonhos.
69 — Quem não sabe dar nada não sabe sentir nada.
70 — As ilusões são certamente prazeres dispendiosos, mas a destruição delas é mais dispendiosa ainda.
71 — A essência de toda arte bela, de arte grandiosa, é a gratidão.
72 — Não é raro encontrar cópias de grandes homens. E, como acontece com os quadros, a maior parte das pessoas parece mais interessada nas cópias do que nos originais.
73 — Quem não teve um bom pai deve procurar um.
74 — Os poços mais profundos vivem suas experiências lentamente: esperam um bom tempo até saberem o que caiu em suas profundezas.
75 — Quando temos muitas coisas para guardar nele, o dia tem 100 bolsos.
76 — Uma alma delicada se sente mal quando sabe que receberá agradecimentos. Uma alma grosseira se sente mal quando sabe que precisa agradecer a alguém.
77 — Não se pode odiar enquanto se menospreza. Não se pode odiar mais intensamente um indivíduo desprezado do que um igual ou superior.
78 — Quantos homens sabem observar? E, desses poucos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada pessoa é o ser mais distante de si mesmo.”
79 — A guerra emburrece o vencedor e deixa o vencido rancoroso.
80 — Cada mestre não tem mais que um aluno e esse aluno lhe será infiel, pois está predestinado a ser mestre também.
81 — O mundo real é muito menor que o mundo da imaginação.
82 — Se você for magoado por um amigo, diga a ele: “Eu o perdoo pelo que me fez, mas como poderia perdoá-lo pelo que fez a si mesmo?”
83 — A esperança é muito mais estimulante que a sorte.
84 — O que não nos mata nos fortalece.
85 — Quem vê mal sempre vê pouco. Quem escuta mal sempre escuta demais.
86 — Toda vez que me elevo, sou perseguido por um cachorro chamado Ego.
87 — Todo idealismo perante a necessidade é um engano.
88 — Você tem o seu caminho. Eu tenho o meu. O caminho correto e único não existe.
89 — Toda convicção é uma prisão.
90 — Nossa vida nos parece muito mais bonita quando deixamos de compará-la com as dos outros.
91 — As pessoas esquecem de seus erros depois de confessá-los ao outro, mas o outro normalmente não se esquece.
92 — Eis a fórmula da felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta.
93 — A melhor maneira de começar o dia é se comprometer a fazer feliz ao menos uma pessoa antes de o sol se pôr.
94 — A simplicidade e a naturalidade são o objetivo supremo e último da cultura.
95 — A vida não é muito curta para que fiquemos entediados?
96 — Não atacamos apenas para machucar o outro, para vencê-lo, mas, algumas vezes, pelo simples desejo de adquirir consciência de nossa força.
97 — Nossas carências são os melhores professores, mas nunca mostramos gratidão diante dos bons mestres.
98 — Quem fica remoendo alguma coisa se comporta de maneira tão tola quanto o cachorro que morde a pedra.
99 — O amor não é consolo — é luz.


domingo, 5 de julho de 2015

Preconceito e racismo no Brasil?

Como todos sabemos, não há racismo no Brasil.
Ou exploração sexual de crianças e adolescentes.
O machismo? Uma mentira.
E a homofobia, uma invenção.
Não há genocídio de jovens pobres e negros das periferias.
Ao me relacionar com as outras pessoas, não faço isso só, mas me acompanham séculos de acomodação cultural, de preconceitos e medos dos que vieram antes de mim. Não só a genealogia pesa sobre os ombros, mas também a história e as condições sociais do país. De certa forma, na fala do “agora” está presente toda a história humana.
Se uma criança nasce com a pele mais escura que sua família sofre preconceito da sociedade mesmo que seus pais não tenham sofrido. Se for pobre, pior ainda. Tomando como referência a média salarial, os valores pagos para uma mesma função na sociedade coloca, em ordem decrescente: homem branco rico de um lado e mulher negra pobre do outro.
Para muita gente, basta saber que a outra é negra.
A Justiça que se pretende ao tentar reconstruir a sociedade por um novo viés não é apenas a de saldar a dívida de uma escravidão mal abolida, mas sim a tentativa de mudar o pensamento e a ação de uma sociedade que trata as pessoas de forma desigual por conta da cor de pele.
Ir contra a programação que tivemos a vida inteira, através da família, de amigos, da escola, da mídia e até de algumas igrejas em que pastores pregam que “africanos são amaldiçoados por Deus'' é um processo longo pelo qual todos nós temos que passar. Mas necessário.
Todos nós, nascidos neste caldo social somos potencialmente idiotas a menos que tenhamos sido devidamente educados para o contrário. Pois os que ofendem uma jornalista de forma tão aberta, como foi o caso da apresentadora Maria Júlia Coutinho, da TV Globo, só fazem isso por estarem à vontade com o anonimato (Hanna Arendt explica) e se sentirem respaldados por parte da sociedade.
Toda a vez que trato da questão da desigualdade social e do preconceito que os negros e negras sofrem no Brasil (herança cotidianamente reafirmada de um 13 de maio de 1888 que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho, pois não garantiu as bases para a autonomia real dos ex-escravos e seus descendentes), sou linchado.
Pois, como todos sabemos, não há racismo no Brasil. “Isso é coisa de negro recalcado.''
Ou exploração sexual de crianças e adolescentes. “As meninas é que pedem e depois a culpa é dos homens?''
O machismo? Uma mentira “criada por feminazis para roubar nossos direitos''.
E a homofobia, uma invenção “daquela bicha do Jean Wyllys''.
Não há genocídio de jovens pobres e negros das periferias. “Eles é que estão no lugar errado e na hora errada, pois os 'homens de bem' seguem a lei e nada acontece com eles.''
Fonte: Blog do Sakamoto

terça-feira, 23 de junho de 2015

Para onde caminha nosso parque industrial? Vamos ser só exportadores de commodities?

A lenta agonia da indústria brasileira

150623-Indústria5
Como a produção nacional, pujante até os anos 1980, declina, desnacionaliza-se e concentra-se em bens de baixa tecnologia. Quais as consequências econômicas e sociais? Como reverter espiral descendente?
Por Téia Magalhães, no Retrato do Brasilparceiro editorial de Outras Palavras
No mês em que, ano passado, iniciou-se a campanha eleitoral gratuita em rádio e TV para o cargo de presidente da República, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga Andrade, afirmou em palestra na Associação Comercial do Rio de Janeiro que o desempenho da indústria brasileira no segundo trimestre foi “um fracasso” e que o ano estava perdido para o setor, o qual atravessa “talvez um dos piores momentos da história”.
A situação não é muito diferente da vivida nos últimos três anos. Em 2011, o setor teve crescimento da produção de 0,4%; em 2012, queda de 2,5%; e, em 2013 passado, alta de 1,2%. Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas (Abimaq), o segmento por ela representado está ainda pior: nos primeiros cinco meses do ano passado, as vendas foram 14% menores do que no mesmo período de 2013. Números como esses reforçam a ideia de que o País passa por uma fase de desindustrialização.
O setor industrial é considerado o motor do desenvolvimento econômico pelos efeitos que exerce para a frente e para trás na cadeia produtiva, pelo potencial de elevação da produtividade, pela maior ocorrência de mudança tecnológica e sua possibilidade de difundir esse progresso a outros setores da economia. Quando a indústria de um país atinge elevado padrão de sofisticação, com a produção não só de bens de consumo, mas também de bens intermediários e bens de produção, ocorre a elevação da renda percapita, a pauta de exportações é dominada por produtos industriais de grande valor agregado e a própria estrutura produtiva passa a exigir serviços mais modernos e diversificados, aumentando seu peso relativo no PIB. Alcançado esse patamar, ocorre, então, um processo de desindustrialização da economia, que é positivo e natural.
De acordo com a definição mais amplamente aceita, a desindustrialização acontece quando tanto o emprego industrial perde importância no conjunto do mercado de trabalho quanto a produção industrial perde participação no PIB. A desindustrialização pode ocorrer, portanto, quando o emprego e o PIB estão em expansão, mas a indústria contribui em menor proporção para isso.
A desindustrialização adquire caráter negativo quando ocorre de forma precoce, sem que tenha havido o pleno desenvolvimento industrial de um país. Há, então, uma reversão da pauta exportadora em direção às commodities, produtos primários ou manufaturas com baixo valor adicionado e baixo conteúdo tecnológico, algo que, segundo alguns economistas, pode ser sintoma da “doença holandesa”, numa referência ao processo de perda de competitividade da indústria da Holanda quando a subida dos preços do gás nos anos 1960 aumentou expressivamente as receitas de exportação do país, valorizando a moeda local.
Alguns economistas consideram que a desindustrialização de maneira geral não é um fator relevante para o crescimento de longo prazo, que seria resultado do processo de acumulação e do progresso tecnológico, independentemente da composição setorial da produção. Outros acreditam que, no caso brasileiro, as mudanças da economia nos últimos 20 anos, ao contrário de trazer prejuízos, favoreceram a indústria ao permitir a importação de máquinas e equipamentos tecnologicamente mais avançados, modernizando o parque industrial brasileiro e, consequentemente, a própria expansão da produção industrial.
Independentemente das opiniões quanto aos efeitos da desindustrialização para o futuro da economia brasileira, é inegável que a indústria vem perdendo espaço no PIB. Esse processo teve início nos anos 1980. No texto “A desindustrialização no Brasil”, escrito em 2012, Wilson Cano, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), lembra que a participação da indústria de transformação no PIB em 1980 era de 33% e caiu para 18% em 2010 – em 2012, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), desceu para 13,3%. Cano mostra que entre as taxas médias anuais de crescimento dos setores que formam o PIB, a da indústria de transformação é a que apresenta pior resultado: entre 1989 e 2001 ficou em 1,4%, entre 2001 e 2006, em 2,8% e entre 2006 e 2010,
em 2,3%.
Ele analisa ainda a evolução da relação entre o valor da transformação industrial (VTI) e o valor bruto da produção industrial (VBPI) – que mede o quanto o processo de transformação industrial representa no valor total dos produtos –, a qual caiu de 47 em 1996 para 41,1 em 2004, crescendo um pouco a partir de 2006, fato que atribui aos incentivos a determinados setores da indústria, em função de políticas anticíclicas do governo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis e linha branca. Tais estímulos foram eliminados no início de 2015, quando Joaquim Levy assumiu o ministério da Fazenda.
Fernando Maccari Lara, professor da Unisinos, do Rio Grande do Sul, fez um estudo do processo de desindustrialização para o período de 1994 a 2010, separando os indicadores nos governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. O trabalho mostra que, no conjunto desses dezesseis anos, a taxa média de crescimento da indústria foi de 1,93% ao ano. Considerando apenas a indústria de transformação, que tem maior poder de repercussão sobre o desenvolvimento, a taxa foi ainda menor, de 1,51% ao ano, enquanto o crescimento médio do PIB foi de 2,58%.
Lara utiliza como indicadores a diferença, expressa em pontos percentuais (pp), entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento da indústria e entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento da indústria de transformação. Quando a diferença é negativa, isso indica desindustrialização. No conjunto dos dezesseis anos, a taxa diferencial para a indústria de transformação foi de -1,07 pp – ou seja, a economia como um todo cresceu mais do que esse ramo da indústria. Para o conjunto da indústria, a diferença foi de -0,65 pp. A desindustrialização foi maior no período Lula: -0,77 pp para o conjunto da indústria e -1,34 pp para a indústria de transformação (no período FHC, os índices foram, respectivamente, -0,52 e -0,79).
O estudo utiliza também dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) para analisar o comportamento do emprego, o outro indicador da desindustrialização. Para o conjunto do período há redução na participação do emprego industrial, que em 1994 representava 21,37% do total e caiu para 17,89% em 2010. Nos primeiros oito anos (período FHC) a taxa média de crescimento do emprego na indústria de transformação foi de 0,37% ao ano e a do emprego total foi de 2,43%, o que gerou o índice equivalente a -2,06 pp. No período Lula, quando a taxa de crescimento do emprego em geral foi maior, de 5,51% ao ano, a da indústria de transformação atingiu 5,32%, o que resultou em -0,19 pp, evidenciando que, também por esse ângulo de análise houve desindustrialização nos dezesseis anos analisados. No caso do emprego industrial, o problema também vem de antes: a participação da indústria de transformação no conjunto do pessoal ocupado caiu de 15,5% em 1980 para 12,4% em 1995.
Uma das principais causas apontadas para a desindustrialização precoce é a valorização da taxa de câmbio. Lara mostra que no período de câmbio desvalorizado, que vai do quarto trimestre de 1998 ao quarto trimestre de 2004, as diferenças entre o crescimento do PIB e do emprego no conjunto da economia e os respectivos crescimentos na indústria e na indústria de transformação são sempre positivas, indicando maior crescimento da indústria do que no conjunto da economia. Nos dois períodos de câmbio valorizado, entre o quarto trimestre de 1994 e o quarto trimestre de 1998 e entre o quarto trimestre de 2004 e o quarto trimestre de 2010, no entanto, as diferenças entre todas as taxas são negativas.
A observação em detalhe sobre como se deu essa queda de participação da indústria na economia brasileira revela que o setor não só perdeu importância na economia como regrediu em seu desenvolvimento interno, concentrando-se mais e mais na produção de bens menos sofisticados tecnologicamente. Cano mostra em seu trabalho que o VTI do setor de bens de capital representava 15,6% do VTI correspondente ao conjunto da indústria de transformação em 1970 e alcançou 19,9% em 1980. Mas, em 1996 já havia caído para 14,4% e chegou a 10% em 2003 (em 2009, era de 11%).
Em seu estudo, Lara apresenta dados levantados por Ricardo Carneiro, professor da Unicamp, correspondentes ao período entre 1996 e 2008, os quais detalham os saldos comerciais brasileiros relativos a produtos industriais e não industriais a cada três anos. Os saldos dos produtos não industriais crescem a partir de 1996 de forma contínua e expressiva (de 510 milhões de dólares em 1996 para 26 bilhões de dólares em 2008). Já os dos industriais são negativos no período de valorização cambial ocorrido entre 1996 e 1999 (-5 bilhões de dólares e -4,5 bilhões de dólares, respectivamente), tornam-se positivos em 2002 (8 bilhões de dólares) e em 2005 (33,2 bilhões de dólares), quando o câmbio se desvaloriza, e voltam a ser negativos em 2008 (-1,3 bilhão de dólares), novo período de valorização. Enquanto os saldos comerciais dos produtos de média-baixa tecnologia e baixa tecnologia são sempre positivos, com maior crescimento no saldo dos produtos de baixa tecnologia, os dos produtos de alta e média-alta tecnologia são sempre negativos, de tal forma que em 2008 esse déficit chega a 51 bilhões de dólares, mais do que a entrada de capital estrangeiro na forma de investimento direto no Brasil naquele ano (45 bilhões de dólares). (tabela)
A desvalorização cambial ao longo dos oito anos de governo Lula promoveu mudanças nos coeficientes de exportação e importação da indústria. O coeficiente de importação da indústria em geral passou de 14,6 % em 2005 para 21,8% em 2010 – no caso das máquinas e equipamentos para fins industriais e comerciais, saltou de 33% para 47,2%. O coeficiente de exportação da indústria em geral foi de 21,1% em 2005 para 18,9% em 2010, mas o de automóveis, caminhões e ônibus caiu mais, de 28,7% para 13,4%, enquanto o da indústria extrativa subiu de 54,5% para 75,3%, segundo dados da Fiesp apresentados por Fernando Maccari. E Carneiro observa ainda que dois conjuntos de setores aumentaram o coeficiente de exportação: o da empresas industriais ligadas à base de matérias-primas e o das produtoras de bens de capital, devido, neste caso, a uma tendência de crescimento de coeficiente de importação no setor, indicando atividades de montagem.
Mesmo o capital estrangeiro, que aumenta cada vez mais seu domínio sobre a indústria brasileira, está diminuindo seus investimentos no setor. Estudo da CNI, divulgado no início do mês passado, mostra que o investimento estrangeiro direto (IED) na indústria caiu de 46,5% em 2007 para 33% em 2013, enquanto o IED no setor agrícola e mineral cresceu de 13,9% para 26,2% e em serviços aumentou de 38,1% para 44% no mesmo período.
E com a perda do vigor da economia, que cresceu em ritmo lentíssimo nos últimos três anos, a situação da indústria ficou ainda mais agravada. Até no agronegócio se pode perceber o retrocesso. Nos últimos dez anos, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), a produção de soja cresceu 73%, mas a capacidade de moagem da indústria aumentou apenas 35%, enquanto o volume de matéria-prima efetivamente processada cresceu menos ainda: 28%. E se em 2004 o Brasil processava 57% da soja produzida, a Abiove espera para este ano apenas 42%, devido, principalmente, a mudanças na China, que hoje prefere comprar soja para processar no próprio país. E mesmo a área automobilística, o setor mais dinâmico da indústria no País – o qual reduziu a produção de 2,8 milhões de veículos em 2010 para 2,7 milhões em 2014, período em que as vendas ao exterior passaram, respectivamente, de 610 mil para 397 mil unidades – estima forte retração este ano.
Diante da evidência da perda relativa do papel da indústria na economia, os empresários cobram medidas do governo. Em meados do ano passado, a CNI promoveu um debate com presidenciáveis, quando apresentou um conjunto de 42 proposições para o aumento da produtividade e da competitividade. A proposta da entidade estabelece para 2018 o cumprimento de cinco metas: sistema tributário livre de ineficiências que o caracterizam hoje, mudanças nas relações de trabalho no sentido de liberdade de negociação, crescente participação da iniciativa privada e maior alocação de recursos públicos em infraestrutura, juros em padrões próximos dos internacionais e taxa de câmbio competitiva, melhoria expressiva na educação básica. Nada muito diferente do rumo das reformas liberais dos anos 1990, cujo resultado foi exatamente a desindustrialização.
Carlos Pastoriza, presidente da Abimaq, eleito recentemente, disse ao diário Valor Econômico que, em conversas com empresários de diversos segmentos da indústria de máquinas, observou que muitos estão fechando fábricas e transformando suas empresas em importadoras. E as empresas que ainda estão resistindo constituem um parque fabril envelhecido, com equipamentos com dezessete anos de uso em média, segundo avaliação do ex-ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, exposta em evento sobre o comércio exterior brasileiro em 2014. Por essa razão, inclusive, um dos pleitos da Abimaq aos candidatos à Presidência da República foi a implantação de um programa de modernização, que vem sendo chamado de Modermaq, que envolveria crédito fiscal de 15% para empresas que comprovarem o descarte de máquinas antigas substituídas por novas.
Reverter o processo de desindustrialização não é fácil. Uma mudança na política de valorização cambial, como muitos reclamam, poderia, em tese, favorecer um processo de reindustrialização, como já ocorreu entre 1999 e 2004. Embora o câmbio tenha efetivamente um papel nesse processo, ele evidentemente não explica tudo. Basta ver que mesmo nos períodos de valorização cambial as áreas industriais menos avançadas tecnologicamente conseguem manter superávits, especialmente as de baixa tecnologia. Mas o problema está nos produtos de maior conteúdo tecnológico, nos setores de ponta, nos quais nossa indústria não é competitiva.
Em seu estudo, Cano aponta algumas das principais causas do processo que conduziu o setor a essa situação. Ele destaca a eliminação indiscriminada da proteção que o País tinha sobre as importações como um dos fatores que agravaram nossa desindustrialização. E, principalmente, o fato de ter assumido compromissos internacionais, como a entrada na Organização Mundial do Comercio (OMC), que o impede de enfrentar seus problemas com políticas adequadas. Cano atribui à abertura da conta de capital a questão central: China, Rússia e Índia, mesmo sendo economias de mercado, mantêm controle sobre entrada e saída de capitais internacionais e nacionais, sobre remessas de lucros e dividendos e sobre fluxos de investimentos.
Ele avalia que o que está ocorrendo com a indústria brasileira não é apenas uma crise passageira, mas a continuidade de uma longa crise iniciada no final da década de 1970, a qual destruiu instituições de desenvolvimento, debilitou o Estado e desvirtuou o caminho do empresariado produtivo e progressista. Ele lembra que nenhum país se tornou uma potência industrial sem forte apoio e proteção do Estado, cujos maiores exemplos são, antes da China, a Alemanha, o Japão e a Coreia do Sul. E no caso brasileiro, nenhuma política industrial será eficiente se não houver mudanças importantes na política macroeconômica, especialmente nos juros e câmbio e conta de capitais, além da subordinação à OMC.

domingo, 21 de junho de 2015

O que esse ódio disperso e disseminado contem de retrocesso?

Leonardo Boff diz que mídia é golpista e contra o povo

Fonte: redação da Rede Brasil Atual
Teólogo afirma que veículos de comunicação são golpistas e contra o povo, mas com os movimentos sociais emergiu uma nova consciência política, e o outro lado ficou sem condições de dar o golpe
 
 
ARQUIVO/RBA
boff
'Vão ter que aceitar que Brasil mudou, que o povo está participando e tem consciência', diz Boff
São Paulo – A crise econômica e política pela qual o país atravessa neste momento é "em grande parte forjada, mentirosa, induzida, ela não corresponde aos fatos", afirma o teólogo Leonardo Boff. Segundo ele, a crise é amplificada por uma dramatização da mídia. "Essa dramatização que se faz aqui é feita pela mídia conservadora, golpista, que nunca respeitou um governo popular. Devemos dizer os nomes: é o jornal O Globo, a TV Globo, a Folha de S. Paulo, o Estadão, a perversa e mentirosa revista Veja."
Em entrevista à Rádio Brasil Atual na segunda-feira (9), o teólogo disse que, no entanto, o atual nível de acirramento no cenário político não preocupa porque, para ele, comparado a outros contextos históricos, a "democracia amadureceu". Ele diz acreditar, ainda, na emergência de uma "nova consciência política".
Boff também considera que o cenário brasileiro é bastante diferente da Grécia, Espanha e Portugal, onde são registradas centenas de suicídios, por conta do fechamento de pequenas empresas e do desemprego, e até mesmo de países centrais, como os Estados Unidos, que veem a desigualdade social avançar.
"A situação não é igual a 64, nem igual a 54", compara. "Agora, nós temos uma rede imensa de movimentos sociais organizados. A democracia ainda não é totalmente plena porque há muita injustiça e falta de representatividade, mas o outro lado não tem condições de dar um golpe."
Para Boff, não interessa aos militares uma nova empreitada golpista. Restaria ao campo conservador a "judicialização da política": "Tem que passar pelo parlamento e os movimentos sociais, seguramente, vão encher as ruas e vão querer manter esse governo que foi legitimamente eleito. Eles têm força de dobrar o Parlamento, dissuadir os golpistas e botá-los para correr".
Sobre o 'panelaço' ocorrido no domingo (8), durante o discurso da presidenta Dilma Rousseff para o Dia Internacional da Mulher, Boff afirma que o protesto é "totalmente desmoralizado", pois "é feito por aqueles que têm as panelas cheias e são contra um governo que faz políticas para encher as panelas vazias do povo pobre".
O teólogo afirma que a manifestação expressa "indignação e ódio contra os pobres" e são símbolo da "falta de solidariedade": "O panelaço veio exatamente dos mais ricos, daqueles que são mais beneficiados pelo sistema e que não toleram que haja uma diminuição da desigualdade e que gostariam que o povo ficasse lá embaixo".
Sobre o ato programado pela CUT e movimentos sociais para sexta-feira (13), Leonardo Boff diz que a importância é reafirmar os valores democráticos e a defesa da soberania do país: "Aqueles que perderam, as minorias que foram vencidas, cujo projeto neoliberal foi rejeitado pelo povo, até hoje, não aceitam a derrota. Eles que tenham a elegância e o respeito de aceitar o jogo democrático".
O teólogo frisa, mais uma vez, não temer o golpe. "É o golpe virtual, que eles fazem pelas redes sociais e pela mídia, inventando e fantasiando, projetando cenários dramáticos, que são projeções daqueles que estão frustrados e não aceitam a derrota do projeto que era antipovo."