terça-feira, 27 de setembro de 2016

A Justiça partidarizada e golpista


Só não lembra os comitês de segurança da Revolução Francesa de 1789 que, diga-se de passagem, decapitou seus próprios líderes por suas divergências e vaidades para dar lugar à volta da monarquia, mas não tão mais absolutista assim, porque o Brasil não vive uma Revolução e sim um golpe parlamentar e jurídico. Mas o achincalhamento da política, da República ( mais privada do que nunca ) e do Estado democrático de direito é total




Para Altamiro Borges, durante o governo Dilma Rousseff, que se jactava da sua ingênua postura “republicana”, a midiática Operação Lava-Jato serviu para desgastar a presidenta e para criminalizar seu partido. Agora, no covil de Michel Temer, ela serve para abafar as sujeiras dos golpistas e para seguir atacando o PT. Baita republicanismo! Neste domingo (25), Alexandre de Moraes – o carniceiro dos estudantes paulistas que hoje é ministro da Justiça – deixou explícito o aparelhamento da ação da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Em qualquer outro país minimamente civilizado, ele seria imediatamente exonerado e processado por abuso de poder.

Segundo revelação do insuspeito “Estadão”, o fascistoide antecipou durante um comício do PSDB em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, que a Lava-Jato deflagraria novas prisões na véspera das eleições municipais. “Teve na semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim”, afirmou o egocêntrico ministro – que não esconde seu desejo de disputar o governo estadual em 2018. Diante da repercussão negativa da declaração, que evidencia que a Lava-Jato foi transformada de vez em cabo eleitoral dos partidos golpistas, o Palácio do Planalto até tentou desmentir o episódio. 

Só que um vídeo vazado na internet, talvez devido às bicadas sangrentas no ninho tucano – o chamado “fogo amigo” –, confirmou a burrice. Temendo o total desgaste da já desacreditada Lava-Jato, o governo acionou a mídia chapa-branca para difundir que o ministro linguarudo seria “imediatamente” exonerado do cargo. Na sequência, Michel Temer recuou – o que já virou uma marca desta gestão errática. Em nota oficial, o Ministério da Justiça garantiu que a Lava-Jato é uma operação imparcial, que a Polícia Federal segue com a sua “atuação independente” e que a declaração da Alexandre de Moraes foi apenas uma “força de expressão”. Haja cinismo!

O discurso do fascistoide, porém, foi confirmado nesta segunda-feira (26), com a prisão cinematográfica do ex-ministro Antônio Palocci. A mídia golpista aproveitou o episódio para reforçar a sua cruzada contra o PT, confirmando que a Lava-Jato virou uma operação boca-de-urna – conforme denunciou certeiramente o ex-presidente Lula. O Judas Michel Temer, “ficha suja” que já foi citado em inúmeras delações premiadas, segue impávido no Palácio do Planalto. O carniceiro Alexandre de Moraes segue ministro. E a Lava-Jato, chefiada pelo “justiceiro” Sergio Moro, continua cometendo as suas atrocidades para servir aos propósitos da direita nativa.

Sobre a midiática Operação Lava-Jato vale conferir dois artigos publicados na Folha neste final de semana.

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É hora de barrar o arbítrio

Por André Singer

O juiz Sergio Moro colocou nesta quinta (22) a gota d'água no copo da escalada de arbítrio em curso no país. Curiosamente, o fez ao liberar, por razões humanitárias, o ex-ministro Guido Mantega depois de algumas horas na Polícia Federal de São Paulo, e não ao mandá-lo para a prisão por cinco dias ou dez dias, como havia decidido de início. Pois, se era possível soltá-lo, não havia necessidade de prendê-lo, e a arbitrariedade da detenção ficou evidente.

Não sou eu quem o diz, mas o insuspeito de petismo Reinaldo Azevedo. "Força-tarefa e juiz quiseram dar um recado: 'Mandamos soltar e prender quando nos der na telha'",escreveu o colunista. O recado foi entendido.

A justificativa de Moro revelou-se tão frágil que, desta vez, ninguém engoliu. "Considerando o fato de que as buscas nos endereços dos investigados já se iniciaram (...) reputo, no momento, esvaziados os riscos de interferência da colheita de provas", escreveu no despacho de soltura. Em outras palavras, bastava determinar a busca e apreensão, não precisava prender o investigado.

Cabe lembrar que, pela terceira vez, Moro apresenta explicações mal ajambradas para decisões gravíssimas. Depois da também desnecessária condução coercitiva de Lula, em 4 de março passado, emitiu nota na qual "lamentava" que as diligências tivessem levado a confrontos, "exatamente o que se pretendia evitar". Determinou a coerção para evitar conflitos? Quem acredita?

Cinco dias mais tarde, Moro divulgou as famosas escutas telefônicas entre o ex-presidente Lula e a então presidente Dilma Rousseff. Instado pela AGU a se manifestar a respeito do assunto, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Teori Zavascki afirmou que a divulgação das fitas "comprometeu o direito fundamental à garantia de sigilo" e que era "descabida a invocação de interesse público da divulgação" feita por Moro. Em resposta, o juiz curitibano solicitou "escusas" ao STF e explicou que não tivera intenção de causar "polêmicas". Dá para acreditar?

Mas nesses episódios houve mobilização nas ruas para apoiar as atitudes de Moro. O objetivo era sustentar o impeachment, cuja aceitação foi aprovada pela Câmara um mês depois com base nas manifestações provocadas pelas "inocentes" derrapadas do juiz. Os atropelos constitucionais foram varridos para baixo do tapete.

Agora parece que Moro ultrapassou o limite do aceitável, mesmo para corações liberais e conservadores. Por isso, espero que o episódio Mantega represente um corte. A opinião pública viu a face do arbítrio. Se ficar conivente com ele, prestará contas à história. Quando um processo autoritário se explicita, todo mundo sabe como começa, mas ninguém sabe como termina.

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'Soluções inéditas' da Lava Jato têm um nome: Tribunal de Exceção

Por Janio de Freitas

A realidade não precisa de batismo nem definição, mas ambos tornam mais difundidas a sua percepção e compreensão. Esse é o auxílio que o país recebe de um tribunal do Sul, quando os fatos fora do comum se multiplicam e parecem não ter fim: a cada dia, o seu espetáculo de transgressão.

Foi mesmo um ato tido como transgressor que levou o tribunal, ao julgá-lo, a retirar a parede enganadora que separava a realidade de certos fatos e, de outra parte, a sua conceituação clareadora. Isso se deu porque o Tribunal Regional Federal da 4a Região (Sul) precisou decidir se aceitava o pedido, feito por 19 advogados, de "processo administrativo disciplinar" contra o juiz Sergio Moro. O pedido invocou "ilegalidades [de Moro] ao deixar de preservar o sigilo das gravações e divulgar comunicações telefônicas de autoridades com privilégio de foro [Dilma]". Parte das gravações, insistiu o pedido, foram interceptações "sem autorização judicial".

Se, entre os 19, alguém teve esperança de êxito, ainda que incompleto, não notara que recursos contra Moro e a Lava Jato naquele tribunal têm todos destino idêntico. Mas os 19 merecem o crédito de haver criado as condições em que o Judiciário reconheceu uma situação nova nas suas características, tanto formais como doutrinárias. Nada se modifica na prática, no colar de espetáculos diários. O que se ganha é clareza sobre o que se passa a pretexto da causa nobre de combate à corrupção negocial e política.

De início era apenas um desembargador, Rômulo Pizzolatti, como relator dos requerimentos. Palavras suas, entre aquelas com que apoiou a recusa do juiz-corregedor à pretensão dos advogados: a ação do que se chama Lava Jato "constitui um caso inédito no direito brasileiro, com situações que escapam ao regramento genérico destinado aos casos comuns". E o complemento coerente: a Lava Jato "traz problemas inéditos e exige soluções inéditas".

O "regramento genérico" é o que está nas leis e nos códigos, debatidos e fixados pelo Congresso, e nos regimentos e na jurisprudência criados pelos tribunais. O que "escapa ao regramento" e, em seu lugar, aplica "soluções inéditas" e apenas suas, tem nome no direito e na história: Tribunal de Exceção.

A tese do relator Rômulo Pizzolatti impôs-se por 13 votos contra um único desembargador. Não poderia ser tida como uma concepção individual do relator. Foi a caracterização –correta, justa, embora mínima– que um Tribunal Federal fez do que são a 13a vara federal de Curitiba, do juiz Sergio Moro, e "a força-tarefa" da Procuradoria da República no sistema judicial brasileiro, com o assentimento do Conselho Nacional de Justiça, do Supremo Tribunal Federal, do Superior Tribunal de Justiça, do Conselho Nacional do Ministério Público e dos mal denominados meios de comunicação.

Fazem-se entendidos os abusos de poder, a arrogância, os desmandos, o desprezo por provas, o uso acusatório de depoentes acanalhados, a mão única das prisões, acusações e processos: Tribunal de Exceção.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

domingo, 1 de novembro de 2015

A classe média é um problema?

Se a classe média acordasse

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A partir de 2016, 1% da população mundial, que soma hoje 7 bilhões e 200 milhões de pessoas, terá uma fortuna superior à renda de 99% da mesma população.
A riqueza mundial atingiu, em 2013, US$ 241 trilhões. Isso significa que 72 milhões de pessoas terão, em mãos, 46% dessa fortuna, avaliada em US$ 110 trilhões. E a grande maioria da população mundial, 7 bilhões e 128 milhões de terráqueos, terá que sobreviver com os US$ 131 trilhões restantes.
Veja como esse mundo é injusto: se toda a riqueza da humanidade fosse dividida igualmente entre as 7,2 bilhões de pessoas, cada um de nós teria um patrimônio de US$ 33,472 (ou quase R$ 80 mil). Todos possuiriam o suficiente para viver com dignidade e, portanto, não haveria fome, criminalidade, migrações, mendigos, favelas, mortalidade infantil e, possivelmente, nem guerras. Viveríamos em um mundo de paz e prosperidade.
Como a divisão dos 54% da riqueza mundial por 99% da humanidade tampouco é equânime, a desigualdade se reproduz. Aqueles que têm o suficiente para viver não querem saber de questionar os que integram o seleto grupo do 1% mais rico. Preferem achar que fazem parte desse contingente microscópico.
No Brasil, a renda familiar triplicou entre 2000 e 2014. Graças ao governo do PT, passou de US$ 7.900 para US$ 23.400 ao ano. Apesar disso, a desigualdade cresceu. No topo do 1% mais rico do mundo, há 296 mil brasileiros.
É comum ver a classe média, que sobrevive com dignidade, ficar contra a distribuição de renda. Acha que traz perda de seus recursos. Não percebe que, com esta postura, em vez de ajudar a si própria, contribui com aquele 1% que se apropria da riqueza mundial.
A grande luta política e ideológica que a humanidade deve travar, hoje em dia, é convencer os setores que conseguem sobreviver com dignidade a se unir aos que não conseguem, para combater esse 1% que detém uma quantidade de recursos que, se fosse melhor distribuído, faria do mundo um lugar muito melhor.
Como convencer os setores de renda média que seus inimigos não são os mais pobres, mas, sim, o contingente microscópico que concentra aqueles US$ 110 trilhões? Não é fácil. O 1% em questão controla os governos, as comunicações, as igrejas e até o ensino escolar, de forma que faz a cabeça dos 99% desde a infância.
A miséria é humilhante. Causa revolta, estimula a criminalidade, provoca migrações, favorece o trabalho escravo, desagrega famílias, e leva algumas pessoas a optarem pela violência para conseguir o que não pode ser obtido com o trabalho, pois as condições de disputar bons cargos no mercado são absurdamente desiguais.
Por Frei Betto, escritor, autor de “Paraíso Perdido – Viagens aos Países Socialistas” (Rocco), entre outros livros.
http://www.freibetto.org

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cada país tem a direita que merece


A crescente ascensão da direita e da extrema-direita não são um fenômeno exclusivamente brasileiro. Mas a direita em cada pais tem seu próprio estilo.


Agência Brasil
A crescente ascensão e a desfaçatez da direita e da extrema-direita não são um fenômeno exclusivamente brasileiro. Estão largamente presentes na Europa inteira, também na Alemanha.
 
Mas a direita em cada pais tem seu próprio estilo.
 
Numa certa passagem de Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Hollanda comparava o nazismo e o fascismo europeus com o integralismo brasileiro, lembrando que a tragicidade daqueles virava a agitação neurastênica dos adeptos deste, ou algo parecido com isto, pois estou citando de memória.
 
Hoje novas diferenças aparecem, entre as semelhanças da potenciação das atividades das direitas aqui e aí pela internet.
 
No caso brasileiro transparece a boçalidade da parte de nossas elites endinheiradas e da classe média alta que sente seus privilégios (que confunde com direitos adquiridos, vitalícios e hereditários, como as capitanias coloniais), expressa nas camadas de insultos e de assédio físico aos que vê como seus inimigos ou até traidores de classe.
 
Aqui a boçalidade vira uma arrogância disfarçada de altivez de dia, e uma violência covarde que se ativa à noite. De dia o que transparece é um desprezo cultural e ético pelos “inferiores” (já que ficou feio falar em raça); à noite, transparece o ataque covarde aos abrigos de refugiados, estejam eles ocupados ou não, sob a forma de incêndios criminosos. Há praticamente um ataque destes por noite, no mínimo. Às vezes são dois ou três.
 
Ninguém vai insultar a chanceler Angela Merkel, chamando-a de “vaca” ou outros xingamentos piores. Mas em manifestações da extrema-direita têm aparecido forcas que lhe são reservadas e ao vice-chanceler Sigmar Gabriel.
 
No sábado passado a candidata à prefeitura da cidade de Colônia, Henriette Reker, independente mas considerada próxima à chanceler, foi atacada a golpes de faca no pescoço por alguém que a policia local identificou como “um desempregado”. Este (a lei alemã impede a identificação de autores ou suspeitos deste tipo de crime antes de seu indiciamento formal, o que, aliás, deveria servir de exemplo para nós e nossa velha mídia) alegou como motivo seu protesto perante o “privilégio” que o país vem concedendo aos estrangeiros, refugiados ou imigrantes. Reker que, embora hospitalizada, foi eleita no domingo, com 52,7% dos votos, era a encarregada de organizar a recepção aos refugiados e imigrantes em Colônia.
 
O caso lembra perigosamente a prática e as acusações dos nazistas em relação aos judeus na década de 30, quando chegaram ao poder. Só que agora estas práticas e acusações se voltam predominantemente contra os muçulmanos. Mas assim como os nazistas se erguiam também contra outros “inferiores”, como ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, negros, etc., o desprezo desta direita emproada e sombria também se ergue contra os “povos do sul”, acusados de serem culturalmente vulneráveis à corrupção, de se recusarem ao trabalho, de propensos ao desperdício, etc.
 
Esta irrupção de violência vem preocupando as autoridades alemãs de todas as inclinações ideológicas, embora mesmo dentro das hostes da União Democrata Cristã, partido da chanceler, e da sua co-irmã bávara, a União Social Cristã, surjam vozes que condenem esta “fácil abertura” que Merkel e o país vêm concedendo às vagas de 'invasores' que procuram abrigo no continente, na Alemanha em particular.
 
A vaga de direita não impede manifestações de solidariedade igualmente vigorosas. No fim de semana, à noite, milhares de pessoas saíram às ruas na capital portando velas acesas, em apoio aos imigrantes e refugiados. Em Colônia, no domingo, todos os outros candidatos rivais de Reker fizeram uma vigília, também com velas acesas, em solidariedade a ela.
 
A realidade é que, como na época da ascensão do nazismo, a Alemanha se mostra um pais dividido. Sinal desta divisão foi, na noite da segunda-feira, a realização de duas manifestações simultâneas na cidade de Dresden, berço dos novos movimentos de extrema-direita que se abrigam sob o nome de Pegida. De um lado, os “Pegidas” comemoravam um ano do nascimento formal deste movimento. De outro, outros manifestantes protestavam contra o Pegida. A policia calculou o mesmo número de manifestantes de um lado e outro: 26 mil para cada um. Apesar da presença dos policiais, o confronto foi inevitável, com feridos e detidos de parte a parte. 
 
Pelo menos há uma diferença: na década de 30 a polícia, com frequência, fazia vista grossa para a violência dos nazistas, e contribuía para atacar comunistas e social-democratas. Hoje isto não acontece mais, embora durante mais de uma década os órgãos de inteligência da Alemanha tenham se descurado das atividades da extrema-direita, chegando a fechar o departamento específico que se encarregava desta área de investigação, misturando seus membros com os de outros departamentos.
 
Mas o problema da emergência renovada destas tendências de extrema-direita persiste, e é grave.
 

Fonte: Flavio Aguiar - Blogue do Velho Mundo, Rede Brasil Atual

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Dez técnicas mais usadas de manipulação da opinião pública





Realidade mitificada: Conheça (e faça bom uso) as dez técnicas mais usadas pelos grandes meios de comunicação para manipular a sociedade
Os que não são idiótes (no sentido grego: os que se voltam para a vida privada menosprezando completamente a vida pública) jamais podem ignorar como a grande mídia mistifica a realidade e manipula a opinião pública.
manipulação mídia noam chomskyTodos os grandes meios de comunicação têm, naturalmente, suas preferências – partidárias, eleitorais, ideológicas e, sobretudo, pecuniárias. Já sabemos que nas democracias venais contemporâneas o dinheiro deslavadamente gera poder e que o poder desavergonhadamente gera dinheiro. A mídia, na medida em que filtra e manipula conteúdos, apresenta-se como uma das pontes privilegiadas de ligação dessa política institucionalmente argentária.
O linguista e sociólogo Noam Chomsky, professor emérito do Massachusetts Institute of Technology (em Boston) e tido pelo New York Times como “o maior intelectual vivo”, catalogou as dez técnicas de mistificação e manipulação promovidas pela grande mídia [1]. Trata-se de um decálogo extremamente útil, especialmente para aqueles que bravamente desafiam a inexpugnável ignorância diária. Vejamos:
1. A estratégia da distração. É fundamental, para o grande lobby dos poderes, manter a atenção do público concentrada em temas de pouca relevância (programas banais de TV, por exemplo), fazendo com que o cidadão comum se interesse apenas por fatos insignificantes. A exagerada concentração em fatos da crônica policial, dramatizada e manipulada, faz parte desse jogo.
2. Princípio do “problema-solução do problema”. A partir de dados incompletos, incorretos ou manipulados, inventa-se um grande problema para causar certa reação no público, com o propósito de que seja este o mandante – ou solicitante – das medidas que se quer adotar (é preciso dar voz ao povo). Um exemplo: deixa-se a população totalmente ansiosa com a notícia da existência de uma epidemia mortal (febre aviária, por exemplo), criando um injustificado alarmismo com o objetivo de vender remédios que de outra forma seriam inutilizados.
3. A estratégia da gradualidade. Para fazer o povo aceitar uma medida inaceitável, basta aplicá-la e noticiá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos – ou meses, ou dias – seguidos. É dessa maneira que se introduzem novas e duras condições socioeconômicas, em prejuízo da população. Tudo é feito e contado gradualmente, porque muitas mudanças juntas podem provocar uma revolução.
4. A estratégia do diferimento (adiamento). Um outro modo de fazer aceitar uma decisão impopular consiste em apresentá-la como “dolorosa e necessária”, alcançando-se momentaneamente sua aceitação, para uma aplicação futura (“piano piano si va lontano”, o equivale mais ou menos ao nosso “devagar se vai ao longe”).
5. Comunicar-se com o público como se falasse a uma criança. Quanto mais se pretende enganar o público, mais se tende a usar um tom infantil. Diversos programas ou conteúdos possuem essa conotação infantilizada. Por quê? Se nos comunicarmos com as pessoas como se elas tivessem 11 anos de idade, elas tendem a responder provavelmente sem nenhum senso crítico, como se tivessem mesmo 11 anos de idade (as crianças não conseguem fazer juízos abstratos).
6. Explorar a emotividade muito mais que estimular a reflexão. A emoção, com efeito, coloca de escanteio a parte racional do indivíduo, tornando-o facilmente influenciável, sugestionável. Essa é a grande técnica empregada pelo populismo demagogo punitivo.
7. Manter o público na ignorância e na mediocridade. Poucos conhecem, ainda que superficialmente, os resultados já validados das ciências (criminais, médicas, tecnológicas etc.). A manipulação fica facilitada quando o povo é mantido na ignorância; isso significa dizer não à escola de qualidade para todos.
8. Impor modelos de comportamento. Controlar indivíduos enquadrados e medíocres é muito mais fácil que gerir indivíduos pensantes. Os modelos impostos pela publicidade são funcionais para esse projeto.
9. A autoculpabilização. Todo discurso (midiática e religiosamente) é feito para fazer o indivíduo acreditar que ele mesmo é a única causa do seu próprio insucesso e da própria desgraça. Que o problema é individual e não tem nada a ver com o social. Dessa forma, ao contrário de se suscitar uma rebelião contra o sistema socioeconômico que marginaliza a maioria, o indivíduo se subestima, se desvaloriza, se torna depressivo e até se autoflagela (assim é a vida no “vale das lágrimas”). A culpa pelo desemprego, pelo não encontro de novo emprego, pelo baixo salário (neoescravizador), pelas condições deploráveis de trabalho, pelo insucesso escolar, pela precarização das relações trabalhistas, pela diminuição do salário-desemprego, pela redução das aposentadorias, pela mediocridade cultural, pela ausência de competitividade no mercado etc. é dele, exclusivamente dele, não do sistema.
10. Os meios de comunicação sabem mais de você que você mesmo. Eles conhecem nossas preferências, fazem sondagens e pesquisas, diagramam nossas inclinações políticas e ideológicas e, mais que isso, sabem como ninguém explorar nossas emoções (sobretudo as mais primitivas). Não se estimula quase nunca a reflexão. O sistema manipula e exerce um grande poder sobre o público, muito maior que aquele que o cidadão exerce sobre ele mesmo.
Faça bom uso deste decálogo.
[1] CHOMSKY, Noam. “Ecco 10 modi per capire tutte le bugie che ci raccontano”, emLatinoamerica e tutti i sud del mondo, números 128/130. Roma: GME Produzioni, 2014/2015, páginas 146-147.
Luiz Flávio Gomes, Congresso em Foco
Fonte: Pragmatismo Político 

Quem ganha com o ajuste fiscal?


ajuste fiscal
O esgotamento do ciclo de crescimento impulsionado pela bolha especulativa internacional instalou definitivamente a crise econômica no Brasil. Seus efeitos devastadores sobre a vida nacional polarizam a luta de classes em torno de uma questão fundamental: como sair da crise? Com o apoio integral da grande mídia, os sacerdotes da ordem bombardeiam a opinião pública com a ideia de que a solução da crise brasileira passa por um draconiano ajuste fiscal. Equiparando a economia política do setor público à economia doméstica das famílias, a sabedoria convencional clama pelo enquadramento do Brasil no regime de austeridade fiscal, cuja essência consiste em buscar o equilíbrio fiscal pelo corte sistemático de gastos públicos, supostamente os responsáveis pela trajetória ascendente da dívida pública.
Os oito textos reunidos neste dossiê – escritos especialmente para o blog – desmistificam a farsa. Eles mostram que o desequilíbrio das contas públicas não está associado ao “excesso” de gasto público, pois, na realidade, o superávit primário – a diferença entre a receita tributária e os gastos com política social e investimentos – foi de cerca de 3% do PIB nos últimos treze anos. Em outras palavras, o Estado brasileiro não fez nenhuma gastança como se apregoa histérica e irresponsavelmente nos meios de comunicação, mas uma expressiva economia de recursos. O rombo nas contas públicas é provocado pelos efeitos perversos das operações monetárias e do setor externo do Banco Central sobre as despesas financeiras do setor público, reforçado pelo próprio movimento endógeno de expansão da dívida determinado pela lógica de capitalização de juros. A dinâmica perversa que explica a expansão da dívida pública, por sua vez, é intrínseca a uma política econômica que subordina o Estado brasileiro aos interesses do grande capital nacional e internacional – o Plano Real. Os autores evidenciam que o verdadeiro objetivo do “arrocho ortodoxo” não é equilibrar as contas públicas – o que seria impossível sem uma substancial desvalorização da dívida pública –, mas assegurar gigantescas transferências de fundos públicos para os capitalistas e, sobretudo, perpetuar a submissão da política econômica à disciplina do capital internacional em tempos de crise. A crítica da visão distorcida e fetichista da crise fiscal e da naturalização do ajuste ortodoxo como remédio inexorável para os problemas da economia brasileira constitui uma importante trincheira da batalha das ideias contra a noção de que “não há alternativa” senão reforçar a marcha insensata que coloca o Brasil na mesma rota que levou à tragédia grega.
Somos gratos a Plínio de Arruda Sampaio Jr., docente do Instituto de Economia da Unicamp e membro do Conselho Consultivo do blog, pela produção do dossiê, inclusive pela autoria deste breve texto de Apresentação.
Difundindo a produção teórica marxista no Brasil, marxismo21 busca também intervir no debate sobre temas e problemáticas relevantes da conjuntura política e social do país.
Editoria / Outubro de 2015
ps. Ao final do dossiê, novos textos serão inseridos após serem avaliados pela Editoria.
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Guilherme Delgado
Jean Peres
José Menezes Gomes
Luiz Filgueiras
Marcelo Dias Carcanholo
Maria Lúcia Fattorelli
Rodrigo D’Ávila
Rúbens Sawaya
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Leonardo de Magalhães Leite

domingo, 30 de agosto de 2015

Por que a paixão é coisa que dá e passa?

A era digital modificou o modo de nos relacionarmos. O que acontecia esporadicamente comum para um casal de namorados, hoje se abriu a porta para inclusões de meios de comunicação onde se é possível o contato virtual excessivo – o que deixa de lado o cheiro, o beijo e talvez dê entrada a uma gama de sentimentos possivelmente falsos.
A obrigação de dar um “bom dia” pelo celular, a falsa inclusão de sentimentos verdadeiros o que ocasiona uma cansativa forma de amar, talvez tenha sim os seus bons efeitos e romantismo exacerbado –pelas vias virtuais, possam dar uma melhorada na relação ou podem se tornar desgastantes. Mas o problema é que não se há limites.
As redes sociais estão repletas de modelos personificados com pseudo-belezas físicas e intelectuais – ou não, o que acaba atiçando a vontade de conhecer o novo ou se aproximar de outras pessoas. Esse talvez seja parte do processo também de desapaixonar-se. Criamos um mundo onde precisamos nos conectar. E se não houvesse conexão? Os casais apaixonados se veriam com menos frequência e talvez os poucos momentos se tornariam bem mais intensos!
O que podemos esperar dos relacionamentos daqui a 20 anos? Onde o casamento está cada vez mais escasso e pessoas procuram a poligamia e traições? Apaixonar-se pelo que é virtual está cada vez mais latente o que quando se vê por víeis reais, pode se tornar tedioso e decepcionante. A paixão é olhar, é toque e sensações. E muito mais interessantes que se iludirem nesse mundo virtual pós-moderno.
Necessariamente podemos “estar ligados” por pensamentos, o que atiça muito mais a vontade de estar perto. E pode de nada interferir na relação. Muito pelo contrário! O que retesa e se liberta é maravilhoso e intensifica muito mais a paixão.
(Autor: Daniel Velloso)
Do site: Fãs da Psicanálise