As imagens mais fortes da
violência da Ditadura contra os povos indígenas são aquelas que existem
como são contadas, e não em fotos ou filmes – ainda que haja fotografias
e filmes chocantes. Mas não há registros das dezenas de pessoas mortas
espalhadas pela mata, mulheres, velhos, crianças, homens, membros da
etnia Arara, após serem contaminados por gripe nas margens da
Transamazônica. Ou dos mais de mil, talvez até dois mil, indígenas
Waimiri-Atroari, mortos por tiros de metralhadora, talvez até mesmo
bombas do Exército, e também por epidemias. Essas atrocidades, por
enquanto, estão gravadas nas memórias, e possivelmente em documentos
escondidos.
Com a força das palavras é possível reviver
momentos terríveis. E é justamente esse sentimento, de reviver o
passado, um dos grandes desafios para reconstruir e investigar a
brutalidade da Ditadura contra os povos indígenas: de tão fortes as
memórias, muitos indígenas preferem não falar. Contar é reviver.
Acontece que não são as vítimas que devem sofrer novamente a desgraça
que lhes foi imposta, e sim aqueles que perpetuaram os crimes, ou
beneficiaram-se desses crimes, que devem ser punidos. Até hoje, nenhum
documento fundamental apareceu. Muitos crimes continuam abafados. Nenhum
responsável foi punido.
Quando se fala na violência contra os
povos indígenas, a primeira cena é na Amazônia. Esse é um dos erros
fundamentais na reconstrução da memória da Ditadura. A Amazônia teve um
papel estratégico na geopolítica militar e na ideologia do
desenvolvimento, mas os violentos processos de expropriação contra os
povos indígenas ocorreram por todo o País. Dos Kaingang e Guarani no
Sul, aos Yanomami no extremo Norte, os Krenak em Minas.
O
projeto racial da Ditadura pregava a violência étnica como meio de
expansão do estado-nação, e a violência contra os índios expõe de forma
crua como funcionou a associação entre militares e elite civil. O
resultado dessa aliança foi o extermínio sistemático, genocídio,
etnocídio, e despossessão para a acumulação de riqueza e controle de
territórios e recursos. A impunidade desses crimes permanece a regra da
anistia, proteção que se estende àqueles que se beneficiaram
economicamente desse processo.
Um estudo recente aponta que
1.196 camponeses foram mortos.
Não há números relativo aos indígenas mortos, a não ser estimativas que
podem variar de forma expressiva. A Comissão Nacional da Verdade já
mencionou oito mil indígenas mortos. É possível que tenha sido ainda
maior o número de mortos, ou que sejam menos as vítimas. Esse é, em si,
um dos grandes erros da revisão: quantificar as vidas perecidas, por
maior que seja o número, é sempre uma redução do impacto da violência. O
fundamental é que a violência no campo foi brutal, e é a que menos é
discutida e revista, onde a ferida permanece exposta.
Em alguns
casos, povos inteiros foram exterminados. Isso significa um genocídio
total. Hoje se conhece essa possibilidade em função de povos que foram
tão violentamente massacrados que não é mais possível que se reproduzam
fisicamente. Sobreviveram. É o caso dos Kanoê (restam três pessoas) e
Akuntsu (hoje cinco), em Rondônia, dos Piripkura (três), no Mato Grosso,
e os misteriosos sobreviventes, um conhecido como "índio do Buraco" (um
só), em Rondônia, e outro chamado de Aurê (um só, depois que morreu
Aurá), no Maranhão. Nestes dois últimos casos, não se sabe a que povo
pertenciam, nem sequer que língua falam. Genocídio completo, total
extermínio de duas civilizações. Impunes.
Apenas por um acaso, e
pelo fato de serem pessoas extremamente fortes, conseguiram sobreviver.
Ainda assim, carregam chumbo no braço, nas costas – como Pupak Akuntsu.
Quantos outros povos nessa situação podem não ter sobrevivido? Quantos
tiveram seus corpos decompostos em lagoas de fazendas em Rondônia ou no
Mato Grosso, como era prática após as ações de extermínios? No caso dos
Akuntsu, sertanistas da FUNAI que investigaram o caso em 1986 suspeitam
que os corpos dos mortos em um ataque na aldeia tenham sido carregados
em caçambas e despejados em uma lagoa na região de Corumbiara. O
massacre talvez tenha ocorrido em 1985 ou 1984, no limiar da Ditadura.
As fazendas que ocuparam as terras dos Akuntsu haviam sido formadas por
grilagem de terras públicas e corrupção no INCRA, em projetos
fraudulentos de apropriação de terras públicas.
Grilagem de terras: associação entre militares e empresáriosEm
um artigo publicado na revista de Estudos Avançados em 2005, a
professora da UFPA Violeta Loureiro, junto do pesquisador Jax Pinto,
explicam a construção da violência nas disputas de terra na Amazônia
durante a Ditadura, e que permanece até hoje na mesma estrutura de
concentração fundiária. Quando os militares planejaram a invasão da
Amazônia, apenas 1,8% das terras eram desmatadas e ocupadas por pasto e
lavoura, e só metade delas tinha título. Hoje, 18% foi transformado em
pasto (80% dessa área), soja, lavouras, ou apenas degradado.
O
governo organizou mecanismos legais de exceção para atrair empresários,
oferecendo incentivos fiscais e terras públicas que eram ocupada por
populações inúteis aos olhos dos militares. Essas terras ainda foram
demarcadas em extensão muito maior do que a dos lotes que originalmente
haviam adquirido.
Um dos exemplos é a Terra Indígena
Marãiwatséde, que após a articulação da grilagem organizada por Ariosto
da Riva em parceria com o grupo Ometto, a terra transformada no
latifúndio Suiá Missu com 695.843 hectares. Apenas no ano passado a
terra, demarcada em 1998, foi devolvida aos Xavantes. Sendo que parte
das aldeias ficaram de fora da demarcação. No Pará, segundo Loureiro,
apenas oito grupos econômicos possuíam quase seis milhões de hectares.
Era
preciso expulsar os moradores e criar mecanismos para "regulariza-las".
Regularização da grilagem foi uma das medidas da Ditadura. Em 1976, o
governo ditatorial, por medidas provisórias (005 e 006), regularizou as
terras griladas, oferecendo mecanismos para a Justiça proceder à
expulsão. Os índios não foram os únicos prejudicados nesse jogo desigual
de força, mas foram os mais brutalmente afetados. Essa permanente
política de exclusão.
Uma primeira reconciliação deve ter início
com a demarcação das terras – até hoje, a única forma efetiva de
garantir a sobrevivência e o cumprimento mínimo de direitos. Desfazer as
medidas de exceção que ainda estão em vigor e cumprir a Constituição
surgida como uma grande reconciliação, ou seja, completar a transição.
Em paralelo, a discussão sobre a anistia é imprescindível, com a punição
daqueles que cometeram os crimes, sejam os militares, policiais,
agentes do Estado, sejam os privados que se aliaram nos crimes, como
pistolagem, torturas, massacres e genocídios.
"Na Amazônia, os
direitos humanos, durante décadas, estiveram subordinados aos direitos
do capital", escrevem Loureiro e Pinto. Durante a Ditadura foi
desenvolvido uma "conivência entre grileiros-empresários-aventureiros e
órgãos públicos, especialmente os federais com ação na região". É uma
aliança entre "setores/órgãos/funcionários do Estado com empresários/
aventureiros/ grileiros sobreviveu à Ditadura."
Essa conivência
e repartição de funções entre o Estado e certos grupos que se
beneficiaram é também a origem das milícias privadas e da pistolagem na
Amazônia. É uma contradição da Ditadura, onde o violento Estado de
Exceção compartilhou o monopólio da violência, da forma caracterizada
pelo sociólogo Max Weber. "O Estado repartiu este poder com empresários,
políticos e aventureiros os mais diversos, perdendo o controle sobre o
exercício da força e da violência física, que passou a ser usada por
agentes não legitimados socialmente nem legalmente instituídos." O
genocídio dos Akuntsu, Kanoê, Aurê e Aurá, Piripkura, Juma, índio do
Buraco, são crimes que se encaixam nessa aliança público-privada de
extermínio.
Darcy Ribeiro, no ato contra a emancipação, em 1978,
classificou que não há uma "questão indígena": "Não há, propriamente,
uma questão indígena. Há uma questão não-indígena. Nós não índios é que
somos o problema". E é justamente essa "questão não -indígena" que expõe
a brutalidade e a violência da Ditadura e sua aliança com a elite
civil. As grandes empresas que se beneficiaram, os grandes empresários,
os grileiros de terras, perderão eles, hoje, a terra roubada? Em 2008,
Lula assinou a "MP da grilagem" (MP 458), uma segunda anistia política e
econômica para aqueles que se beneficiaram das expropriações violentas a
mano-militar, dando continuidade as medidas provisórias de 1976. É
possível reverter esse território com as demarcações. Muitas foram
feitas, após 1988, compondo quase 13% do território nacional. Nas
situações onde as demarcações ainda estão pendentes é onde os crimes
seguem cotidianos, como o caso dos Guarani e Kaiowá, no Mato Grosso do
Sul, ou os Tupinambá, na Bahia.
Crimes militares e as "grandes transas"Crimes
praticados por ordens de militares, que incluem torturas e
assassinatos, permanecem sem investigação. O Relatório Figueiredo,
recentemente exposto, é uma peça fundamental na investigação. Mas nele
constam apenas os primeiros quatro anos da Ditadura. A Comissão Nacional
da Verdade não escutou nenhum até o momento, ou ao menos não divulgou a
informação, nenhum militar envolvido nas denuncias feitas pelos
indígenas e organizações – exemplo os possíveis ataques contra os
Waimiri–Atroari. Limita-se ao ouvir o drama dos índios, que devem
reviver os períodos de violência.
Conscientes da impunidade dos
criminosos, alguns povos, como os Waimiri–Atroari, segundo o
indigenista José Porfírio de Carvalho, "não querem falar". Outros, como
os Parakanã, que foram dizimados por doenças e a transferência forçada
em razão da construção da Transamazônica, possuem dificuldade em
relacionar as mortes com o contexto político que, na época, não
conheciam. "Alguns não tem noção de onde exatamente ocorreu, o que
aconteceu, como as mortes estão relacionadas", diz Carvalho. A certeza
da impunidade, até que seja revogada a anistia, faz com que alguns povos
estejam reticentes com os trabalhos da CNV.
Os números
fascinam, chocam, atraem manchetes. A CNV fala em 8 mil indígenas
mortos, frente aos 500 oposicionistas ao governo. Números servem para
atrair atenção cínica da imprensa, mas representam pouco no universo
indígena. Durante a Ditadura, hoje sabe-se que alguns números eram
superdimensionados para causar choque e atrair atenção. É possível que
os Waimiri Atroari não fossem 3 mil, mas 1.500 pessoas, assim como os
Suruí podem ter sido menos do que haviam sido contados. Ou então ainda
mais, segundo hoje fala o líder Almir Suruí, que chega a dizer que três
mil Suruí pereceram. Calcular o número de mortos e estabelecer
fundamentos de punibilidade é um exercício muito mais complexo do que
uma breve visita em uma aldeia pode alcançar.
Importantes
trabalhos realizados por antropólogos comprometidos com a causa indígena
nas últimas décadas mostram o tamanho da complexidade. Refazer a
genealogia de mortos exige uma longa pesquisa em parceria com os
indígenas. E isso deveria ser feito entre os Awá, os Guajajara, os
Kaapor, no Maranhão, em praticamente todos os povos indígenas do Brasil
que denunciam terem sido vítimas de crimes. Há crimes fundamentais para
serem esclarecidos e que estão impunes, como a morte de Ângelo Cretã
kaingang, suspeito de ter sido vítima de um atentado. Hoje, após os
trabalhos da Comissão da Verdade, sabe-se que os militares forjaram
acidentes, tais como a morte de Zuzu Angel e Juscelino Kubitschek. Por
que então Cretã não haveria ter sido vítima de igual estratégia?
A
construção da Transamazônica provocou diversos tipos de impactos e
violências. Alguns povos, como os Arara, foram dizimados e ainda
transferidos de seu território. Os Parakanã foram dizimados e
transferidos. Os Tenharim sofreram uma violência tão brutal que as cenas
mais recente desse processo surgiram em dezembro passado, com uma
revolta racista e genocida da população do entorno tentando massacrar a
população, queimando aldeias e o patrimônio público da FUNAI. Cinco
indígenas estão presos em um processo em que vários direitos foram
suprimidos – como o de serem acompanhados de um advogado para os
depoimentos.
A transição foi um período intenso de luta
política. A partir de 1978, como Ato contra a Emancipação, a
participação indígena no debate sobre as políticas indigenistas cresceu
exponencialmente. Novas estratégias, alianças. Cretã foi o primeiro
indígena a ocupar um cargo público, em 1978, e hoje há diversos
vereadores. Mário Juruna foi o primeiro líder indígena a chegar ao
Congresso, onde ocupou um espaço político extraordinário. Ridicularizado
pela imprensa não-indígena, Juruna foi fundamental na articulação do
movimento indígena nos anos 1980. Após ele, nunca os povos indígenas
tiveram novamente algum representante no Congresso Nacional, e apenas
pisaram lá para acompanhar, pressionar e tentar impedir o retrocesso de
direitos.
Usinas como Foz do Iguaçu, Balbina, Tucuruí, alagaram
territórios indígenas. O crescimento econômico aplaudido no editorial
da Folha de S. Paulo foi feito com o uso de violência, também, sobre
indígenas. Se durante a Ditadura não havia sido possível compensar, de
alguma forma, o estrago, agora isso pode ser ao menos minimamente
reparado. Fora Balbina, com os Waimiri Atroari, e Tucuruí, com o
programa Parakanã, não há outro projeto de compensação decorrente das
ações da Ditadura em curso. Os Panará ganharam ação contra o Estado em
razão do impacto da abertura da BR 163, e conseguiram retomar suas
terras. Essa jurisprudência deveria ser estendida para os Arara,
Parakanã, Gavião, Tenharim e tantos outros impactados por essas obras de
infraestrutura que beneficiaram poucos bolsos extraindo os recursos do
território brasileiro.
A "supremacia branca" estabelecida como
classe étnica ditatorial no Brasil também destruiu quilombos e
quilombolas. E seringueiros, castanheiros, caboclos, ribeirinhos,
populações que se colocaram como "tradicionais" frente ao avanço,
populações minorizadas que de maioria viraram as minorias nesse período,
e tornaram-se vulnerabilizadas. Assim como os garimpeiros, colonos
pobres migrantes, todos tratados como bestas de trabalho da ocupação de
terras, as "frentes de expansão" que eram deslocadas, em sentido
militar, sobre territórios alheios.
A engenharia social da
Ditadura construiu uma sociedade que não se desfez com a promulgação da
Constituição, e a resistência se expressou de diversas formas. por
exemplo, entre os índios, foi recorrente a utilização da estratégia de
"esconder a identidade", tornar-se "caboclo", como era a determinação da
política indigenista evolucionista da Ditadura. Como uma
antropologia-inversa, os povos indígenas, os quilombolas, os
"não-brancos" desenvolveram estratégias de pesquisa e conhecimento do
universo branco. Sempre tido como violento, e que deve ser evitado.
Conversas e outras formas de compartilhamento de conhecimento foram
essenciais nesse processo.
Os Xavante, conhecedores dos warazu
(como chamam os "brancos"), construíram uma estratégia particular de
relacionamento, desde as guerras até a própria pacificação dos brancos,
que eles fizeram, em 1946, com Chico Meireles. Quando as fazendas
começaram a invadir o território, a partir de 1974, com a união de
diversas aldeias, passaram a reocupar as áreas e a intimidar os
fazendeiros. Ainda assim, a Terra Indígena Pimentel Barbosa, por
exemplo, foi demarcada menor do que deveria em razão da corrupção de
funcionários do governo colocados pela Ditadura. O processo até hoje não
foi revisto.
Em alguns casos, as alianças para a resistência e
defesa dos índios inclui até mesmo militares. E é possível que militares
que tenham defendido povos indígenas tenham sido reprimidos pela
Ditadura. Segundo Sydney Possuelo, o coronel Paulo Isaías, em Altamira,
havia destacado, em 1980, um pelotão para auxiliar a FUNAI a expulsar
invasores da área ocupada pelos Arara, antes do contato. Os índios
estavam sendo atacados, e essa medida foi fundamental para evitar a
concretização do genocídio. Era uma ação local que ia de encontro com a
política de ocupação organizada pelo INCRA.
As polícias civil,
militar e federal, também aliaram-se aos anti-indígenas. Há denuncias
não investigadas de sistemáticas torturas entre os Guajajara no
Maranhão. No final dos anos 1970, o sertanista Porfírio de Carvalho
denunciou a prática, que era feita pelo Exército e pela Polícia Federal.
Ameaçado, foi transferido para o Acre. Os Guajajara seguiram sofrendo a
brutalidade do exército e das polícias. Nenhum documento sobre esses
crimes foi, até o momento, acessados.
Darcy Ribeiro debruçou-se
por anos nos arquivos do SPI e em campo para investigar a violência
contra os índios na primeira metade do século passado. O resultado virou
o livro Os Índios e a Civilização. Ribeiro identificou 87 povos que
teriam sido exterminados entre 1910 e 1957 – é possível, no entanto, que
alguns destes tenham sobrevivido e sido reencontrados, mais tarde, pela
Ditadura, como os Arara. Já a segunda metade do século é composta de
diversos trabalhos de denúncias, e muitas páginas em branco. Como
reconstruir essa história sem reproduzir a violência racista contra os
indígenas é um desafio. Incluir os próprios indígenas na Comissão da
Verdade é o fundamental.
A violência contra os povos indígenas
durante a Ditadura merece uma investigação muito mais profunda do que
vem sendo conduzida, que deve igualmente atingir àqueles que se
beneficiaram do Estado de Exceção às custas do sangue e expropriação.
Completar a demarcação das terras é sem dúvida a primeira ação a ser
feita nesse sentido – o que deveria ter sido concluído nos cinco anos
posteriores à promulgação da Constituição. Aprender com o passado também
significa incluir os povos indígenas como protagonistas nos projetos
que impactem seus territórios, um desafio ao neodesenvolvimentismo em
curso. Nesses casos, não apenas adia-se a possibilidade de uma
reconciliação nacional, como abre-se cada vez mais a ferida exposta.