quinta-feira, 19 de março de 2015

Casa Grande, senzala ou a crise do lulismo


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Por uma década, PT buscou construir social-democracia desenvolvimentista que superasse antagonismo “Casa Grande e Senzala”. Esta conjuntura acabou: a “Casa Grande” foi às ruas

Por Felipe Amin Filomeno | Imagem: Ana Menendez, dos Jornalistas Livres

As manifestações ocorridas neste março confirmam que o Brasil se encontra numa grande crise social, com implicações econômicas, políticas e culturais. Há um consenso emergente entre os intelectuais de esquerda de que a crise está associada ao esgotamento do Lulismo. Defino como Lulismo o modelo de desenvolvimento sócio-econômico implementado pelo PT no governo federal, baseado no tripé presidencialismo de coalizão, prosperidade econômica mundial e desenvolvimentismo social-democrata. Em palavras simples, com o agravamento da crise econômica, o cobertor ficou curto demais para atender às demandas crescentes da parcela da sociedade que ascendeu socialmente na última década e aos custos de cooptação de partidos políticos que costumavam formar a base aliada do PT no Congresso Nacional.

Diante deste quadro, o PT não inovou em políticas públicas e em estratégia política. Pior, após vencer a eleição presidencial com uma agenda de propostas à esquerda, curvou-se aos seus adversários, adotando uma política de austeridade e o discurso moralista de combate à corrupção. Isto não tem sido suficiente para acalmar os ânimos do “mercado”, para diminuir a oposição das grandes empresas de comunicação, para conter a raiva dos setores conservadores da classe média ou para reaglutinar a “base aliada”. O PT não quis assumir os riscos de uma radicalização e, agora, paga o preço da aposta na agenda conservadora.

As forças conservadoras de oposição, por outro lado, galvanizaram-se em um movimento de contra-reforma. Neste movimento, confluem diversas correntes. Primeiramente, há o conservadorismo de classe — daqueles que sempre odiaram a esquerda e o PT, daqueles que não conseguem mais arcar com o salário da empregada doméstica, daqueles que viram seu lucro encolher por causa do aumento dos salários dos empregados, daqueles que passaram a dividir o aeroporto, o shopping e a universidade com pessoas da “periferia”. Em segundo lugar, há o conservadorismo moralista — daqueles que veem na Igreja e no Exército instituições capazes de solucionar, pela via autoritária e fundamentalista, os problemas de uma democracia disfuncional. Um dos principais — talvez o principal — ator neste movimento de contra-reforma conservadora é a mídia capitalista. Seu massacre ideológico contra o PT tem gerado, há anos, um clima de niilismo político e instabilidade que fomenta o radicalismo de direita.

Por mais de uma década, o PT buscou construir consensualmente uma social-democracia desenvolvimentista que fosse capaz de superar o antagonismo da “Casa Grande e Senzala”. Esta conjuntura acabou. A “Casa Grande” foi às ruas no dia 15 de Março. E que a maior parte dos manifestantes contra o governo seja de classe média não faz desta manifestação menos da “Casa Grande”. Em países centrais, com baixa desigualdade social, uma grande classe média serve como sustentáculo da democracia. No Brasil, não. A classe média brasileira age como “Casa Grande” e, cada vez mais, “ousa dizer seu nome”, admitindo-se fascista, classista, racista e machista. Basta ver o conteúdo dos cartazes das manifestações de direita ocorridas neste dia 15.

Há, claro, indivíduos de classe média que não são conservadores e autoritários, mas que são muito vulneráveis à manipulação ideológica que reduz todos os problemas do país à corrupção associada à Dilma e ao PT (que, na prática, controlam apenas um fragmento do sistema político brasileiro). A classe média brasileira avalia o mundo da perspectiva de sua varanda gourmet, mas não percebe isso. Não são indivíduos que, durante os governos do PT, passaram a ter uma pessoa com nível superior na família pela primeira vez, que passaram a ter carteira assinada pela primeira vez, que viajaram de avião pela primeira vez. Então é lógico que vão bater panela na varanda depois de ficarem enfurecidos com o país ao lerem a capa da Veja enquanto estão na fila do caixa do Pão de Açúcar. E a taxa de câmbio é uma variável importantíssima nesta dinâmica política de classe. O dólar alto distancia a classe média brasileira do padrão de consumo dos países avançados e gera frustração política quase imediatamente
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À medida que a crise do Lulismo se agrava, não só as políticas desenvolvimentistas e redistributivas estão a ser desmanteladas, mas a própria democracia brasileira está ameaçada. O PT está refém das forças conservadoras e de seu próprio governismo. A contra-ofensiva conservadora está forte e bem organizada, contando com seu poder econômico, seu aparato mídiático-ideológico e suas bancadas parlamentares. Será preciso muita mobilização e inteligência política da parte dos movimentos sociais, dos partidos de esquerda e dos setores esclarecidos da sociedade civil para evitar que o Brasil, ao invés de superar a crise do Lulismo iniciando um novo ciclo de desenvolvimento, faça uma curva de retorno ao neoliberalismo e ao autoritarismo. Há muita coisa no Brasil para se consertar, incluindo erros cometidos pelo PT apesar dos avanços promovidos pelo Lulismo, mas um impeachment motivado por ódio de classe, por fundamentalismo religioso e por ideologia fascista só agravaria os nossos problemas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Como se trava a guerra da Comunicação


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Em um momento em que governos petistas de todo o país, em todos os níveis (federal, estadual e municipal), mergulham na impopularidade por razões justificáveis (campanha de oposição da mídia e crise econômica) e injustificáveis (por inação e medo do enfrentamento político), o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, deu uma aula de comunicação eficiente.
Ao fim deste texto o leitor poderá ouvir na íntegra, em três partes uma entrevista de Haddad que mostra luz no fim do túnel para o PT. Mas, antes, algumas considerações necessárias.
Na quarta-feira da semana passada (12/02), o alcaide paulista esteve no programa “Jornal da Manhã”, da rádio Jovem Pan. Para entrevistá-lo foram convocados dois antipetistas de carteirinha, o historiador tucano Marco Antonio Villa e a apresentadora de telejornal do SBT Raquel Sheherazade.
Foi um massacre. A disparidade de preparo intelectual entre os entrevistadores e o entrevistado ficou escandalosamente evidente. Villa foi quem mais apanhou, apesar de que, em nenhum momento, Haddad o desrespeitou. Apenas mostrou quão desinformado é o historiador tucano sobre os assuntos que pretendeu debater com um administrador que demonstrou dominar, de forma impressionante, cada aspecto da administração que comanda.
Sheherazade ficou aparentemente intimidada e pegou mais leve. Villa, porém, apesar de muito mais agressivo, ficou tão perdido que começou a apelar à ironia como forma de suprir sua falta de informações e de argumentos.
Nos primeiros minutos da ENORME entrevista que Haddad concedeu – de quase uma hora e meia –, o prefeito já deu um “chega-pra-lá” em Villa para ele perceber que não iria ter moleza. Confira, abaixo, o primeiro ataque do historiador tucano e a forma como Haddad repeliu a ofensiva.
Marco Antonio Villa – O senhor já percorreu mais da metade do mandato. A última avaliação Datafolha do senhor não foi positiva. Quando é uma avaliação no primeiro mês, no primeiro semestre, no primeiro ano, sempre há uma justificativa do mandato anterior; historicamente é no Brasil assim. Mas o senhor já cumpriu mais da metade do mandato e a avaliação ruim e péssimo é extremamente alta para os padrões inclusive de São Paulo, onde os prefeitos inclusive também foram mal avaliados; é de 44%. Como é que o senhor avalia? Quem é que está errado, a gestão do senhor ou os eleitores. 
Fernando Haddad – Acho que você…
Marco Antonio Villa – É? Os dados estão errados?!
Fernando Haddad – Não, você. Vila, você é historiador…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – …Então você tem que fazer análise de série histórica…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – …Se fosse pegar o primeiro semestre do terceiro ano da gestão da Marta e do Kassab, vai ter, exatamente, a mesma avaliação…
Marco Antonio Villa – Sei, sei… Eu precisava consultor esses dados… Então o senhor acha normal ter 44% de ruim e péssimo depois de dois anos de gestão?
Fernando Haddad – Dependendo da conjuntura, sim.
Marco Antonio Villa – E que conjuntura que o senhor tem que o senhor pode explicar que a gestão… Que os eleitores estão errados, que eu estou errado, que o senhor está certo?
Fernando Haddad – Não, eu não estou dizendo que os eleitores estão errados…
Marco Antonio Villa – Sei…
Fernando Haddad – Estou dizendo que a sua análise está errada. Você falou que é a primeira vez que isso acontece e eu estou dizendo que não…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – Estou dizendo que na gestão da Marta aconteceu, na gestão do Kassab, antes da reeleição, aconteceu e, portanto, não é uma novidade em São Paulo…
Marco Antonio Villa – E por que que isso acontece?
Fernando Haddad – Olha, tem várias razões. Por exemplo, tarifa de ônibus. É uma coisa que afeta muito a popularidade no Brasil, mas, em São Paulo, em particular…
Marco Antonio Villa – Sim…
Fernando Haddad – Se você pegar os quatro anos de mandato da gestão da Marta e os quatro anos de mandato da gestão Kassab – o segundo mandato, porque o primeiro não houve reajuste e, no segundo, um reajuste muito acima da inflação – você vai ver que as pesquisas que foram feitas na sequência dos reajustes de tarifa, deram indicadores [negativos] superiores a esse que você acabou de se referir…
Raquel Sheherazade – Prefeito Haddad…
Fernando Haddad – … Em março de 2003, a Marta estava no terceiro ano de mandato, como eu. Teve 45% de ruim e péssimo. Imediatamente depois do reajuste da tarifa. Se você pegar os dois reajustes do Kassab no segundo mandato, chegou a 46% de ruim e péssimo. Basta você  [Villa] pegar a série história – você é historiador, sabe fazer leitura de números – e vai ver que a coisa é bem diferente […]
Ufa! Haddad correu o risco de ser acusado de espancamento com requintes de crueldade. Ele mostrou que o “historiador” que tentou fustigá-lo não conhece nem a história recentíssima de sua cidade. Não teve nem o cuidado de ir ao site do Datafolha analisar como estava a popularidade dos antecessores de Haddad quando chegaram a terceiro ano de mandato nos primeiros meses do ano – quando a tarifa do transporte público aumenta em todo o país.
Ao longo da entrevista, Haddad mostrou um outro dado: é extremamente fácil rebater as críticas da mídia tucana. Só é necessário alguém com boa oratória e informado sobre dados políticos e técnicos da administração, dados que o prefeito paulistano mostrou que domina. Esse conhecimento, aliado a uma oratória extremamente fluente e precisa, triturou apresentadores despreparados.
Mais adiante, aliás, acuado por um entrevistado que já dominava completamente o debate, o “Jornal da Manhã” pôs no ar um ouvinte mal-educado que fez uma crítica boba ao prefeito, que já abordará a questão que esse ouvinte levantou. Vale a pena conferir, abaixo.
Ouvinte – Bom dia pessoal da Jovem Pan. Meu nome é [inaudível], eu sou de Carapicuíba. Em resposta a esse “prefeito Haddad”, o que define o mandato dele como péssimo são as ruas esburacadas, é esse preço do ônibus, a tarifa do ônibus, essa a saúde de São Paulo, é isso que define esse governo dele como péssimo. Esses números…
Fernando Haddad – É, você vê que a tarifa de ônibus fica na cabeça das pessoas. O que as pessoas não entendem é que o salário do motorista e do cobrador aumenta. Nos últimos quatro anos a tarifa ficou congelada […]. O último reajuste foi quatro anos atrás. O salário de motorista e cobrador aumentou 35%, nos últimos quatro anos; o reajuste da tarifa foi 17%. E ele [o ouvinte], você vê que ele não menciona o metrô. Ele poderia estar se referindo, também, ao metrô e ao trem. Ele não menciona. Provavelmente porque ele desconhece que é atribuição de outra esfera de governo… São dois governos de dois partidos diferentes que tomaram a mesma medida, não contra a população, mas porque tem custos aumentando […]
A entrevista foi longa – cerca de oitenta minutos, que o leitor poderá ouvir ao fim do texto –, mas os trechos que você leu acima sintetizam o que nela ocorreu. Haddad arrasou entrevistadores despreparados, ouvintes desinformados. Seguramente, pessoas de melhor nível intelectual entenderam e aprovaram os esclarecimentos do prefeito.
O que não se entende é por que um governante tão evidentemente sério, tão bem articulado, capaz de, inclusive, expor entrevistadores mal-intencionados ao ridículo só começou a falar, a travar o debate político de forma adequada, no terceiro ano de mandato.
Esse formato de entrevista favorece demais o prefeito. Ele tem que conseguir mais dessas entrevistas – e para o prefeito da maior cidade brasileira, não será difícil.
Futuramente, claro, a mídia antipetista tentará escalar adversários – não havia entrevistadores nessa entrevista da Jovem Pan, mas adversários – melhor preparados do que os sofríveis Marco Antonio Villa e Raquel Sheherazade. Mas isso talvez até facilite as coisas para um administrador que sabe do que fala e sabe como falar o que sabe.
Seja como for, Haddad ainda tem quase dois anos de mandato pela frente. Se se dispuser a enfrentar o debate democrático sobretudo nessas rádios que tanto fazem a cabeça dos paulistanos e que se dirigem a um público praticamente indefeso diante das manipulações tucano-midiáticas, fará esse público entender melhor sua excelente gestão.
Não há que nos debruçarmos muito sobre o conteúdo da entrevista, já que Haddad fala de problemas que, para a grande maioria dos leitores desta página, não dizem nada, pois essa maioria está em várias partes do Brasil. Mas há que ressaltar, além da atuação digna de aplausos do prefeito, o potencial político que alguém como ele detém.
Há poucos políticos tão preparados quanto Haddad, no país. E quando se alude a preparo não é só o administrativo, mas o comunicacional. O prefeito paulistano é um comunicador nato. Se se expuser mais, como vem fazendo, que não duvidem: ele pode chegar muito mais longe na política do que se espera. O PT já dispõe de um candidato a presidente para 2018.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Como ficará o mercado de trabalho com os ajustes fiscais?



A principal anomalia no atual programa do seguro desemprego, que o faz elevar a quantidade de beneficiários e os gastos totais justamente nos períodos de maiores taxas de emprego formal, é a rotatividade e a informalidade na ocupação

O trabalho no Brasil registra especificidades que o distingue do funcionamento do mercado laboral de outros países, sobretudo o das economias capitalistas avançadas. Como a literatura especializada adotada predominantemente nas escolas de economia do País tem como referência as economias ricas do mundo, não se apresenta fato incomum análises que destoam da real situação interna das relações capital-trabalho.

Exemplo disso pode ser identificado no debate atual que decorre da implementação da Medida Provisória 665 do penúltimo dia do ano passado, voltada à redução de parcela dos gastos públicos com a assistência aos desempregados.

Para os que deverão utilizar o seguro desemprego pela primeira vez, o novo requisito mínimo passa a ser o de 18 meses acumulados nos últimos 24 meses anteriores à rescisão do registro em carteira (ao invés de 6 em 36 meses).

Em relação ao ano de 2014, por exemplo, a aplicação da nova medida implicaria excluir 26,5% dos 8,6 milhões de requisitantes do seguro desemprego do acesso ao benefício. Na sua maior parte, os jovens seriam os mais afetados, uma vez que estariam justamente na fase inicial de ingresso no mercado de trabalho.

Destaca-se que, de acordo com o IBGE/Pnad, a taxa nacional de desemprego do ano de 2013 foi de 6,5% do conjunto da força de trabalho. Mas em relação às faixas etárias prevalece significativa diferenciação no desemprego.

No caso dos jovens, por exemplo, a taxa de desemprego apresenta-se mais expressiva, como nos casos da faixa etária de 15 a 17 anos que atingiu 23,1% (3,6 vezes maior que a geral) e de 18 a 24 anos com 13,7% (2,1 vezes que a geral) de desempregados no ano de 2013.

Para a população adulta, a taxa de desemprego no mesmo ano se mostra menos intensa, como no segmento etário de 25 a 49 anos que representou 5,4% (17% menor que a geral) e, ainda, para os detentores de 50 anos e mais de idade com desemprego de 2,4% (63% menor que a geral).

Por outro lado, deve-se considerar que a principal anomalia no atual programa do seguro desemprego, que o faz elevar a quantidade de beneficiários e, em consequência, os gastos totais justamente nos períodos de elevação no nível de emprego formal e não o contrário, como na maior parte dos países, é a rotatividade e a informalidade na ocupação. Isso porque o País ainda possui uma parcela de sua mão de obra na situação de informalidade que se encontra excluída do acesso ao seguro desemprego.

Assim, à medida que o nível de emprego assalariado formal aumenta, os trabalhadores passam a ter condições de cumprir os requisitos de acesso ao seguro desemprego. Isoladamente, isso pouco alteraria a trajetória dos segurados do seguro desemprego, salvo pela rotatividade.

Observa-se que, desde o ano de 2008, quando se iniciou a crise econômica de dimensão global, o Brasil se tornou um dos poucos países do mundo cujo desemprego decresceu ao ritmo médio anual de 6,9%, ao passo que subiu 4,8% no México, 7,1% na França, 9,5% na França e 11,9% na Itália.
Não obstante a queda na taxa de desemprego dos brasileiros, o nível da ocupação assalariada cresceu 9,4% ao ano, em média, enquanto a quantidade de beneficiados do seguro desemprego aumentou 21,5% como média anual.

Nos países ricos, os segurados e valor total dos gastos aumentam justamente na fase em que o desemprego se eleva e não o contrário, como ocorre no Brasil. Isso porque, aqui, a flexibilidade contratual estabelecida pela facilidade no uso da rotatividade no emprego termina por ampliar a quantidade de trabalhadores que passam a cumprir os requisitos do programa de garantia de renda aos desocupados.

Com a redução da rotatividade, o Brasil poderia presenciar situação equivalente ao que ocorre na dinâmica do seguro desemprego nas economias avançadas, ou seja, a redução sensível na quantidade de usuários do seguro desemprego e, por consequência, no volume de gastos públicos.
Percebe-se, portanto, que a sociedade encontra-se diante de excelente oportunidade para enfrentar em definitivo e em novas bases a problemática da rotatividade no Brasil, avançando para relações modernas de trabalho.

E ao cumprir esta etapa fundamental de modernização no mercado de trabalho, encontraria as melhores condições de redução dos gastos desnecessários que por ventura são gerados pelo uso do seguro desemprego em função da rotatividade abusiva.

Publicado originalmente em Brasildebate.com.br

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

TV será uma extensão da Web?

O fim da televisão como a conhecemos

O blog Carta Maior traduziu do Le Monde Diplomatique e publicou que a TV virará apenas uma tela de conforto, simples extensão das grandes empresas americanas da web, que detêm cada vez mais informações sobre seus usuários.  Nasce o mundo dos consumidores/produtores de conteúdo.


Ignacio Ramonet*
 
lollopins / Flickr
A televisão continua mudando rapidamente. Essencialmente, pelas novas práticas de acesso aos conteúdos audiovisuais que observamos sobretudo entre as gerações jovens. Todos os estudos realizados sobre as novas práticas de uso da televisão nos EUA e na Europa indicam uma mudança acelerada. Os jovens telespectadores passam do consumo “linear” da TV para um consumo de programas gravados e “à la carte” em uma “segunda tela” (computador, tablet, smartphone). De receptores passivos, os cidadãos estão passando a ser, mediante o uso massivo das redes sociais, “produtores-difusores”, ou produtores-consumidores (prosumers).

Nos primeiros anos da televisão, o comportamento tradicional do telespectador era olhar os programas diretamente na tela de seu televisor da sala, mantendo-se frequentemente fiel a um mesmo (e quase único) canal. Com o tempo, tudo isso mudou. E chegou a era digital. Na televisão analógica, já não cabiam mais canais e não existia a possibilidade física para acrescentar novos, pois um bloco de frequência de seis mega-hertz equivale a um só sinal, um só canal. Mas, com a digitalização, o espectro radioelétrico se fraciona e se otimiza. A cada frequência de 6 MHz, em vez de um só canal, podem-se transmitir até seis ou oito canais, e dessa forma se multiplica a quantidade de canais. Onde antes havia sete, oito ou dez canais agora existem cinquenta, sessenta, setenta ou centenas de canais digitais...

Essa explosão do número de canais disponíveis, particularmente por cabo e satélite, tornou obsoleta a fidelidade do telespectador a um canal de preferência e suprimiu a linearidade. Como consequência, abandonou-se a fórmula do menu único para consumir pratos à la carte, simplesmente zapeando com o controle remoto entre a multiplicidade de canais.

A invenção da web – há 25 anos – favoreceu o desenvolvimento da internet e o surgimento do que chamamos de “sociedade conectada” mediante todo tipo de links, desde o correio eletrônico até as diferentes redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) e mensagens de texto e imagem (WhatsApp, Instagram etc.). A multiplicação das novas telas, agora nômades (computadores portáteis, tablets, smartphones) mudou totalmente as regras do jogo.

A televisão está deixando de ser progressivamente uma ferramenta de massas para se transformar em um meio de comunicação consumido individualmente através de diversas plataformas, de forma posterior e personalizada.

Essa forma de ver programas gravados se alimenta em particular dos sites de replay dos próprios canais de televisão, que permitem, via internet, um acesso não linear aos programas. Estamos presenciando o surgimento de um público que conhece os programas e as emissões, mas não conhece obrigatoriamente a grade de programação e nem sequer o canal de difusão ao qual esses programas originalmente pertencem.

A essa oferta, já muito abundante, se somam agora os canais online da Galáxia da Internet. Por exemplo, as dezenas de canais difundidos pelo YouTube, ou os sites de vídeos alugados sob demanda. Até o ponto de já não sabermos sequer  o que significa a palavra “televisão”. Reed Hastings, diretor da Netflix, o gigante norte-americano de vídeos online (com mais de 50 milhões de assinantes), declarou recentemente que “a televisão linear terá desaparecido em vinte anos porque todos os programas estarão disponíveis na internet”. É possível, mas não é certo.

Os próprios televisores também estão desaparecendo. Nos aviões da companhia aérea American Airlines, por exemplo, os passageiros da classe executiva já não dispõem de telas de televisão, nem individuais nem coletivas. Agora, cada passageiro recebe um tablet para que ele mesmo faça seu próprio programa e se instale com o dispositivo da forma como achar melhor (encostado, por exemplo). Na Norvegian Air Shuttle, se vai ainda mais longe. Não existem telas de televisão no avião, nem tampouco entregam tablets, mas o avião tem internet wifi e a empresa parte do princípio que cada passageiro leva uma tela (um computador portátil, ou tablet, ou smartphone) e que basta com que se conecte ao site da Norvegian para ver filmes, séries, programas de TV ou ler jornais (que já não são mais partilhados...).

Jeffrey Cole, professor norte-americano da UCLA, especialista em internet e redes sociais, confirma que a televisão será vista cada vez mais pela Rede. “Na sociedade conectada, a televisão sobreviverá, mas diminuirá seu protagonismo social, ao passo que as indústrias cinematográfica e musical poderiam se desvanecer”, diz.

No entanto, Jeffrey Cole é muito mais otimista do que o diretor da Netflix pois afirma que, nos próximos anos, a média de tempo dedicada à televisão passará de entre 16 a 18 horas semanais atualmente para até 60 horas, dado que a televisão, segundo Cole, “vai saindo das casas” e poderá ser vista “a todo momento” graças a qualquer dispositivo com tela, apenas se conectando à internet ou mediante a nova telefonia 5G.

Também é preciso contar com a competência das redes sociais. Segundo o último relatório do Facebook, quase 30% dos adultos norte-americanos se informam por meio do Facebook e 20% do tráfego das notícias provêm dessa rede social. Mark Zuckerberg afirmou há alguns dias que o futuro do Facebook será em vídeo: “Há cinco anos, a maior parte do conteúdo do Facebook era texto. Agora, evolui para o vídeo porque é cada vez mais fácil gravar e compartilhar”.

Por sua vez, o Twitter também está mudando de estratégia: está passando do texto ao vídeo. Em um recente encontro com os analistas de Wall Street, Dick Costolo, conselheiro do Twitter, revelou os planos do futuro próximo dessa rede social: “2015 será o ano do vídeo no Twitter”. Para os usuários mais antigos, isso tem o sabor de traição. Mas, segundo Costolo, o texto, sua essência, os célebres 140 caracteres iniciais, está perdendo importância. E o Twitter quer ser o ganhador na guerra do vídeo dos telefones portáteis.

Segundo os planos da direção do Twitter, podem-se subir vídeos do smartphone para a rede social a partir de agora, início de 2015. Passará dos escassos seis segundos atuais (possibilitados pelo aplicativo Vine) até acrescentar um vídeo tão logo quanto possível diretamente na mensagem.

O Google também quer agora difundir conteúdos visuais destinados a sua gigantesca clientela de mais de 1,3 bilhões de usuários que consomem cerca de seis bilhões de horas de vídeo por mês... Por isso, comprou o YouTube. Com mais de 130 milhões de visitantes únicos por mês nos Estados Unidos, o YouTube tem uma audiência superior à do Yahoo!. Nos EUA, os 25 principais canais online do YouTube têm mais de um milhão de visitantes únicos por semana. O YouTube capta mais jovens entre 18 e 34 anos do que qualquer outro canal norte-americano de televisão a cabo.

A aposta do Google é que o vídeo na internet vai pouco a pouco acabar com a televisão. John Farrell, diretor do YouTube na América do Sul, prevê que 75% dos conteúdos audiovisuais serão consumidos via internet em 2020.

No Canadá, por exemplo, o vídeo na internet já está a ponto de substituir a televisão como meio de consumo massivo. Segundo um estudo do instituto de pesquisa Ipsos Reid and M Consulting, “80% dos canadenses reconhecem que, cada vez mais, veem mais vídeos online na rede”, o que significa que, com tal massa crítica (80%!), aproxima-se o momento em que os canadenses verão mais vídeos e programas online do que na televisão.

Todas essas mudanças são percebidas claramente não apenas nos países ricos e desenvolvidos. Também são vistas na América Latina. Por exemplo, os resultados de um estudo realizado pela pesquisadora mexicana Ana Cristina Covarrubias (diretora da empresa Pulso Mercadológico) confirmam que a rede e o ciberespaço estão mudando aceleradamente os modelos de uso dos meios de comunicação no México – em particular, da televisão. A pesquisa trata exclusivamente dos habitantes do Distrito Federal do México e abrange grupos precisos da população: 1) jovens de 15 a 19 anos; 2) a geração anterior, pais de família entre 35 e 55 anos de idade com filhos de 15 a 19 anos. Os resultados revelam as seguintes tendências: 1) tanto no grupo dos jovens como na geração anterior, as novas tecnologias penetraram em grandes proporções: 77% possuem telefone móvel, 74% possuem computador e 21%, tablet, e 80% têm acesso à internet. 2) O uso da televisão aberta e gratuita está caindo e se situa apenas em 69%, ao passo que o da televisão paga está subindo e já alcança os 50%. 3) Por outro lado, aproximadamente a metade dos jovens que assistem televisão (29%) usam o televisor como tela para ver filmes que não estão na programação de TV: assistem DVD/Blu-ray ou Internet/Netflix. 4) O tempo de uso diário do telefone móvel é o mais alto de todos os aparelhos digitais de comunicação. O celular registra 3 horas e 45 minutos. O computador tem um tempo de uso diário de 2 horas e 16 minutos, e o tablet de 1 hora e 25 minutos; e a televisão de apenas 2 horas e 17 minutos. 5) O tempo de visita a redes sociais é de 138 minutos diários para Facebook e 137 para WhatsApp; para a televisão, é de apenas 133 minutos. Se somarmos todos os tempos de visitas a redes sociais, o tempo de exposição diária à internet é de 480 minutos, o equivalente a 8 horas diárias, ao passo que o da televisão é de apenas 133 minutos, equivalentes a 2 horas e 13 minutos. A tendência indica claramente que o tempo dedicado à televisão foi rebaixado amplamente pelo tempo dedicado às redes sociais.

A era digital e a sociedade conectada já são, portanto, realidades para vários grupos sociais na Cidade do México. E uma de suas principais consequências é o declínio da atração pela televisão, especialmente a de sinal aberto, como resultados do acesso aos novos formatos de comunicação e aos conteúdos oferecidos pelos meios digitais. O grande monopólio do entretenimento que era a televisão aberta está deixando de sê-lo para ceder espaço aos meios digitais. Quando antes um cantor popular poderia ser visto por vários milhões de telespectadores (cerca de 20 milhões na Espanha) em um programa de sábado à noite, por exemplo, agora esse mesmo cantor precisa passar por 20 canais diferentes para ser visto por cerca de 1 milhão de telespectadores.

De agora em diante, o televisor estará cada vez mais conectado à internet (é o caso da França, para 47% dos jovens entre 15 e 24 anos). O televisor se reduz a uma mera tela grande de conforto, simples extensão da web que procura os programas no ciberespaço e na Cloud (“Nuvem”). Os únicos momentos massivos de audiência ao vivo, de “sincronização social” que continuam reunindo milhões de telespectadores, serão então os noticiários em caso de atualidade nacional ou internacional de caráter espetacular (eleições, catástrofes, atentados etc.), os grandes eventos esportivos ou as finais de jogos do tipo reality show.

Tudo isso não é apenas uma mudança tecnológica. Não é só uma técnica, a digital, que substitui a outra, a analógica, ou a internet que substitui a televisão. Isso tem implicações de muitas ordens. Algumas positivas: as redes sociais, por exemplo, favorecem o intercâmbio rápido de informação, ajudam a organização dos movimentos sociais, permitem a verificação da informação, como é o caso do WikiLeaks... não restam dúvidas de que os aspectos positivos são numerosos e importantes.

Mas também é preciso considerar que o fato de a internet estar tomando o poder nas comunicações de massas significa que as grandes empresas da Galáxia da Internet – ou seja, Google, Facebook, Facebook, YouTube, Twitter, Yahoo!, Apple, Amazon etc.–, todas elas norte-americanas (o que já constitui um problema em si mesmo...), estão dominando a informação planetária. Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, e a questão que se coloca agora é: qual é o meio? Quando vejo um programa de TV na web, qual é o meio? A televisão ou a internet? E, em função disso, qual é a mensagem?

Sobretudo, conforme revelou Edward Snowden e como afirma Julian Assange em seu novo livro “Quando Google encontrou o WikiLeaks”, todas essas megaempresas acumulam informações sobre cada um de nós a cada vez que utilizamos a rede. Informações que são comercializadas, vendidas a outras empresas. Ou também cedidas às agências de inteligência dos EUA, em particular a Agência Nacional de Segurança, a temida NSA. Não nos esqueçamos de que uma sociedade conectada é uma sociedade vigiada, e uma sociedade vigiada é uma sociedade controlada.

*jornalista espanhol. Presidente do Conselho de Administração e diretor de redação do “Le Monde Diplomatique” em espanhol. Editorial Nº: 231. Janeiro de 2015.
 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A vida, entre o passado e o futuro

Além de querer mudar o passado, ou ficarem lamentando-o, por vezes procuramos reproduzi-lo, buscando repetir as coisas boas de antigamente. Essas tentativas tendem a originar frustrações. Lamentavelmente, os bons momentos não voltam nem, felizmente, os maus acontecimentos. Quando o passado porventura retorna, vem como caricatura, sem o mesmo paladar. O maravilhoso sabor do doce que comemos na infância é irreproduzível. E os pequenos perigos que ameaçam uma criança quase nunca geram risco para um adulto, afirma o psiquiatra Luiz Py.
Muitos sofrimentos emocionais pelos quais passamos estão ligados a duas coisas sem o menor sentido. Por um lado, uma busca inútil de prazeres antigos, ou velhas alegrias, impossíveis de serem reproduzidos. Ou então, um medo absurdo e desnecessário de acontecimentos negativos que não se repetirão. Em ambos os casos, estamos lidando – geralmente sem perceber conscientemente – com acontecimentos passados que são sentidos como ameaças ao nosso futuro ou como realizações desejáveis para o porvir. É importante nos darmos conta de que em geral não existe relação alguma entre o que foi vivenciado por nós no passado com o que poderemos usufruir no futuro.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Como andar para trás na telecomunicações

Na sociedade informacional um dos indicativos que permitem avaliar quanto um país está se preparando para não perder o pé de mudanças estruturais, tanto do ponto de vista produtivo e científico, quanto cultural e educativo, é a porcentagem da população que está conectada à internet. Há muitos outros, mas este permite entender o quanto a sociedade está envolvida com as novas formas de relacionamento, negócios, processos etc.
A Coréia do Sul costuma ser utilizada como exemplo nesta área. Em 2007, 99% da população já tinha acesso à banda larga. No Brasil, segundo a mais recente pesquisa do Comitê Gestor da Internet, em 2013, apenas 51% da população tinha acesso à rede mundial. E desses só 66% à banda larga.
Comparado com a Coréia, os dados brasileiros são pífios. Mas sua tragédia não é fruto do acaso, mas de uma política desastrada que teve seu ápice no quadriênio que está se encerrando e que teve à frente do ministério das Comunicações, o petista paranaense Paulo Bernardo.
Em 2010, o Brasil tinha um Plano Nacional de Banda Larga que iria ser implementado com o fortalecimento da Telebras. O plano previa levar acesso de qualidade a uma boa parte do país que era ignorada pelas teles e ainda tinha por objetivo incentivar a indústria nacional do setor. Com a chegada de Dilma à presidência e Bernardo às Comunicações, o plano foi jogado no lixo e se transformou num arremedo onde conexões de 1 mega seriam vendidas a 35 reais. Nem isso nunca funcionou.
O resultado pode ser observado agora nos resultados da última pesquisa do CGI. Em 2010, o Brasil ocupava o quarto lugar em proporção de conectados na América do Sul e estava praticamente empatado com os primeiros, Chile Argentina e Uruguai. De 2010 para cá, o Brasil despencou. Hoje é o sexto em proporção de conectados no continente e foi ultrapassado por Venezuela e Colômbia. E está numa posição distante, por exemplo, do Chile que tinha 45% de conectados em 2010 (o Brasil tinha 41%) e que hoje chegou em 67%.
banda larga
Ao mesmo tempo que retardou a conexão o desastre das políticas aplicadas por Paulo Bernardo permitiram às teles cobrar um dos preços mais altos do mundo por megabite no Brasil. Segundo pesquisa do professor Samy Dana, da FGV, o valor cobrado aqui é praticamente 100 vezes maior do que o do Japão, 50 vezes mais caro do que na Coréia do Sul e 8 vezes maior do que na Holanda.
E a pesquisa do CGI também aponta isso, que a maior parte dos brasileiros que não estão conectados tem o preço do serviço como maior impedimento.
O resultado é que na Classe A, 97% da população tem acesso a Internet e na classe B, 78%. Ja na Classe C o índice cai para 49%. E nas classes D e E despenca para 17%. Ou seja, na Classe A temos índices sul-coreanos de conexão. Nas classes D e E, estamos próximos ao Quênia e outros países africanos.
A opção pelo mercado e com pouca participação do Estado vigente no Brasil está sendo responsável pelo aprofundamento das desigualdades sociais. E vai ter impactos futuros bastante relevantes. Não se faz um Brasil mais justo olhando-se apenas para trás. É preciso olhar pra frente. E o que está à frente é a sociedade do conhecimento que poderia melhorar nossa educação, produção científica, negócios e mesmo a saúde. Há experiências excepcionais de atendimentos clínicos à distância para algumas especialidades tendo a banda larga como instrumento de aproximação entre paciente e médico.
Num momento em que Dilma discute quem deve ser o novo ministro das Comunicações, seria muito interessante que essa pesquisa do CGI fosse levada em consideração. O ministério das Comunicações numa sociedade informacional não é para amadores. E nem para entreguistas.
Fonte: Portal Forum

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Esquerda caviar ou direita mal resolvida?

O termo “esquerda caviar”, ao tentar associar a esquerda ao voto de pobreza, não é apenas intelectualmente falho, como também é moralmente desonesto. A expressão procura vender a ideia de que a esquerda deveria ser paupérrima, uma vez que defende um regime igualmente paupérrimo. Dupla mentira.

Leia mais no artigo de Rosana Pinheiro Machado http://bit.ly/13qyCS9
Quando alguém te chama assim, esta pessoa está amedrontada, mas também revoltada pelo sentimento de uma suposta traição de classe
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