quarta-feira, 27 de maio de 2015

O " (des)encontro" de um psicanalista com um coxinha

Psicanalista e professor da USP Christian Dunker publicou uma resposta aos ataques do blogueiro da Veja, Rodrigo Constantino

Christian Dunker rodrigo constantino
Rodrigo Constantino (esq) e Christian Dunker | Pragmatismo Político
Christian Dunker, psicanalista e professor da Universidade de São Paulo (USP), foi convidado para debater a existência dos condomínios fechados no Brasil e o que motiva as pessoas a recorrerem a eles. O debate aconteceu no programa Café Filosófico, promovido pela TV Cultura e pela CPFL. O programa pode ser visto na íntegra aqui.
No dia seguinte ao debate, o blogueiro da revista Veja, Rodrigo Constantino, pincelou uma frase dita por Dunker e publicou um texto com o objetivo de depreciar o seu trabalho e a sua análise. Constantino chegou a tecer ataques pessoais contra o professor. “Psis’ invejoso”, “filósofo frustrado” e “escritor ressentido” foram algumas das expressões usadas pelo blogueiro para caracterizar Dunker.
A resposta de Dunker a Constantino você poderá ler a seguir:
A palavra perdida contra a bala perdida | Resposta de Dunker a Rodrigo Constantino
Lacan dizia que o equívoco é a essência da comunicação. É no deslize, na palavra que escapa, naquele tom de voz descompassado, é na incompreensão que o inconsciente trabalha gerando equívoco de sentido, posicionando os sujeitos mais além do que eles “queriam dizer” em seus devaneios e intenções mais ou menos conscientes. Recuperar a essência perdida da palavra, em meio à série dos equívocos que ela necessariamente acarreta talvez seja uma das tarefas mais importantes se quisermos constituir uma política sobre a violência que não seja ela mesma um exercício de violência, de guerra e de vandalização do outro.

Acredito que esse tipo de consequência com a palavra – seja ela uma atitude ética ou rigorosa, seja ela uma atenção implicada ou cuidadosa – poderia tratar nosso atual pressuposto de que não é possível conversar e, portanto, reconhecer os que estão fora de nosso condomínio.
Trata-se, portanto, de uma espécie de experimento de casos mais simples mas em que se encontra em jogo um princípio maior. Muitos dizem que contra os irracionais, os incultos, os bárbaros os mal-intencionados não é desejável partilhar a palavra. Eles não se conformarão a nenhuma ideia e violarão permanentemente o que “nós” entendemos por debate público, por conversa ou por argumentação. “Eles” nos posicionam em uma pequena categoria diagnóstica e, a partir disso, repetem sempre a mesma ladainha de preconceitos sobre o tal inimigo imaginário nos quais nos tornamos, como um espantalho. Deles nós devemos nos afastar.
Tenho que admitir: “deixar secar”, não se envolver em brigas com alguém que não seja de seu tamanho, manter a política da “caravana passa enquanto os cães ladram” é uma atitude salubre. Contudo, manter-se na zona de conforto seria um ideal simples e razoável, não fosse o fato de que o equívoco, sendo a essência da comunicação, torna a nossa zona de conforto uma zona de confronto. A palavra perdida, na comunicação com o outro, volta como uma bala perdida. E dela temos que nos proteger, com novos muros, objetivos e subjetivos. Quanto mais recusamos a reconhecer nossa palavra simbolicamente perdida, mais ela tende a voltar como bala no Real.
São duas tarefas: nos proteger da palavra e da bala perdida. Nisso nosso mundo vai ficando menor. Mal tratado, isso caminha até tornar-se impossível habitar o lugar onde estamos. É neste ponto que nos mudamos para Miami ou para a Austrália (o Brasil que deu certo). Por isso a conversa com os “impossíveis” é uma tentativa de explorar os limites da palavra perdida. Espero que aqui o equívoco ressoe conforme a escolha do leitor: perda de tempo, extravio da palavra, suspensão do diálogo, derrota na batalha verbal, inconsequência no uso do sentido, palavra mal-dita, palavra maledicente.
O caso que trago à consideração do leitor baseia-se em uma trivial sequencia de equívocos, semelhante à que vemos em filmes como Faça a coisa certa (1989, dir. Spike Lee), Babel (2006, dir. Alejandro Iñarritu) ou Cronicamente inviável(2000, dir. Sergio Bianchi). Neles os acontecimentos acumulam desencontros, desacertos e equívocos que terminam em bala perdida, que depois ninguém consegue entender como aconteceu.
Pois bem, na gravação do Café Filosófico da TV Cultura, que tem por tema meu livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros, afirmei que há duas linhas de afeto concorrendo para a experiência simbólica do condomínio no Brasil.
A primeira reproduz expectativas de segurança e de solução para o medo. Defendo-me do mundo perigoso lá fora, erguendo muros e criando uma lei interna para consumo próprio com meus síndicos e regulamentos. A segunda determinação afetiva da vida em forma de condomínio baseia-se na inveja. Uma vez guarnecido e protegido imagino que o meu sonho é também o dos outros. Mas só alguns conseguem realizar esta ambição de consumo. Há uma graça adicional em pensar que os outros desejam ter o que eu tenho, portanto, que os outros me invejam. Isso faz parte da mais banal lógica do consumo conspícuo. Minhas determinações de consumo não são dadas pela satisfação para minhas necessidades, ainda que sejam as mais básicas necessidades de proteção e segurança.
Uma consequência trivial da psicanálise para a teoria do consumo é pensar que este seja sobre-determinado pelo desejo do Outro. Isso torna o consumo um ato de palavra. Ao usar um tênis, pilotar um carro importado ou comprar uma casa em um condomínio não estou apenas satisfazendo necessidades, estou dizendo algo para os outros. Este ponto é crucial, pois se não levo isso em conta, se minha palavra é perdida neste ponto, posso não perceber que estou dizendo coisas agressivas, provocativas ou violentas. Posso não entender que para outras pessoas a minha opulência e ostentação possam causar desagradável inveja. E ao não reconhecer isso, a inveja, que é um dos nomes do desejo, pode virar ódio.

Desta maneira, ao perder a dimensão a palavra, envolvida em meus gestos, inclusive os gestos de consumo, particularmente os que têm expressão pública, posso reforçar a mensagem de perigo e violência da qual tento fugir. Pois bem, o leitor pode verificar a pertinência deste resumo do que eu disse na gravação do Programa por si mesmo, afinal a tese é de que a palavra vem com o equívoco.
Mas qual não foi minha surpresa quando vejo a coluna de meu interlocutor Rodrigo Constantinocomentando minha apresentação, redescrita por Francisco Razzo, da seguinte maneira:
“Nem me dei ao trabalho de quem é a pérola. Há fortes indícios de ser mais uma análise de um desses ‘psicólogos sakamotianos’ tomados pelo espírito de justiça social tentando realizar uma anatomia da alma dos opressores.”
Ou seja, basta saber quem você é para que imediatamente possamos julgar a pertinência ou veracidade do que está sendo dito. A palavra está perdida para a pessoa. E assim, por ouvir dizer de outro, auto-declaradamente preguiçoso, Rodrigo Constantino comenta, não a tese, mas a pessoa que a enuncia:
“Esses psicanalistas parecem filósofos frustrados ou escritores ressentidos, e no fundo fazem de tudo para atacar os mais bem-sucedidos. […] Vivendo numa redoma, essas pessoas se blindam contra o ‘real’ e não querem se deparar com o Outro.”
Atualmente vivendo em Miami, ele defende-se da crítica de que teria fugido do Brasil por covardia, dizendo que essa é uma atitude racional (para os que podem). “Eles” psicanalistas frustrados, ressentidos atacam a “nós” pessoas “mais bem sucedidas”. Ou seja, se Constantino está certo eu (junto com toda minha classe) o invejo. Mas era exatamente isso que eu estava dizendo sobre a inveja e, portanto, ele me dá razão ao dizer que eu a perdi. Também quando diz que estou em uma “redoma blindada contra o real” reencontro meu argumento sobre a vida em forma de condomínio sendo empregado, desta vez contra mim. Ou seja, minhas palavras estão certas, minha pessoa é que está errada.
Este ponto é decisivo para entendermos como este discurso gera violência. O que vemos aqui é a transformação das diferenças sociais, da existência de pobres e ricos, da distribuição não equitativa de bens materiais e simbólicos, em um ressentimento de classe. Por isso os que estão na esquerda caviar são traidores, hipócritas e impostores. Eles não jogam no time dos ricos contra o time dos pobres. Pela regra do jogo os que perderam direito à palavra só podem se vingar por meio da bala. Por isso a coisa mais “lógica” a fazer é retirar-se para o condomínio, de preferência em Miami, e viver uma vida de refugiado sobrevivente.
Aqui encontramos o tradicional argumento da ameaça. Se você critica a vida em condomínio, e diz que ela envolve um tanto de inveja que pode causar nos que estão fora, você está apoiando o crime, o tráfico, os bandidos… enfim, os pobres que não podem ter condomínio. Mais uma vez os intelectuais (ou “pseudo-intelectuais”) são traidores. Se eles defendem os pobres eles deveriam… ser pobres. Quem come caviar não pode querer que os de outros condomínios comam também. Isso é um contra senso, uma ameaça ao mais geral princípio da identidade.
(Aliás, por esta lógica de equívocos é bom lembrar que o melhor caviar é feito de ovas do esturjão, peixe que abunda o mar Cáspio, que circunda a Rússia, que por sua vez é parte da antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas… tá vendo? Caviar é da esquerda, você é que só sabe comer “x-burguêis”!)
Mas em outro sentido Constantino tem razão e suas palavras se ligam com sua pessoa. Somos traidores porque não aceitamos que a regra do jogo seja a da guerra de ricos contra pobres. Somos traidores porque acreditamos que as palavras recuperadas podem ser o meio para a suspensão das balas perdidas. Somos traidores porque acreditamos na regra da palavra, como meio de reconhecimento, entre ricos e pobres. E temos tanto medo quanto todos nós, pobres e ricos. Portanto estamos de acordo na medida em que:
“Não querem[os] encontrar o ‘outro’ mascarado e prestes a estuprar sua filha. Não querem[os], enfim, encontrar uma bala ‘real’.
Mas estamos em desacordo que este medo:
“É só fuga.”
(Rodrigo Constantino, “O gozo da inveja e o rancor dos pseudointelectuais“, Blog da Veja)
O que o colunista da revista Veja, que acredita que estou parasitando sua audiência ao discutir com ele, não consegue perceber é que o condomínio é uma estrutura. Semelhante à prisão, ao Shopping Center ou à favela. Por não ter assistido ao programa, nem lido o livro, nem qualquer de suas resenhas e críticas (o que torna bastante prática esta lógica do ‘basta saber quem você é’), Constantino simplesmente não entendeu o conceito de vida em forma de condomínio e acha que estou recriminando as pessoas que optam por este tipo de moradia, por bons e maus motivos.
Ele não entendeu que esta lógica toca a todos nós no Brasil de hoje. Não entendeu que ela concorre para a produção da violência da qual ele e todos nós nos queixamos. Um equívoco, gerado por outro equívoco, o do Sr. Razzo (e isso não é uma piada lacaniana!), que por sua vez engendra outros equívocos, que são soberbamente reproduzidos pelos leitores de Constantino. Esses sim são objeto de minha extrema preocupação (e ‘inveja’, dirá meu interlocutor). Como já havia verificado em outras ocasiões, nestes comentários encontramos uma mutação de tom, um aumento de virulência, uma acréscimo de gozo, que culminará na violência. Como se para agradar o mestre fosse preciso exagerar e amplificar seus métodos.

Reproduzo as pérolas:
“Nosso suado dinheiro que banca as micaretas acadêmicas dessa corja.”
“São simplesmente idiotas, imbuídos de má-vontade, tentando parecer importantes.”
“O que um psicopata quer mesmo, principalmente se ele for de esquerda, não é ajudar os que ainda querem se arrumar na vida. Ele quer mesmo é atacar os que lutaram e conseguiram através do trabalho uma vida razoavelmente boa.”
“Gozo através da inveja têm esses merdinhas que podem olhar debochadamente da nossa cara.”
“Se Dunker mora em um prédio assim, é um hipócrita, como é a maioria dos intelectuais da Unicamp, USP., UERJ, UFF, PUC…”
“Na verdade, o que sustenta a suposta postura magnânima desta ‘psicanalhada’, é um profundo desrespeito pelo tal desejo do Outro, desejo de escolha, Liberdade para cada um decidir o seu próprio caminho, aspectos que ficam esquecidos no meio desta maldita Patrulha do Pensamento, que se instalou no campo da psicologia e da psicanálise neste país.”
“Psicanalistas, psicólogos e semelhantes, na esmagadora maioria, sempre tiveram graves distúrbios mentais que os inclinaram a essas atividades em busca de aliviar seus próprios males!”
Ora, depoimentos como estes já são em si a prática da violência da qual se gostaria de fugir. Preconceitos contra professores, intelectuais, psicanalistas, psicólogos, uso de expressões ofensivas, declarações de ódio, como se o problema do país fossem seus… professores! O leitor deve ter percebido uma espécie de escalada discursiva, primeiro um comentário levemente depreciativo e desinformado do Sr. Razzo, depois uma incitação generalizada do Sr. Constantino, e ao final a força covarde de um grupo cantando o jogral do ódio contra outros grupos. Qual seria o próximo passo?
Acredito que uma parte substancial da violência não decorre das diferenças reais com as quais temos que lidar, mas como desprezo por seu reconhecimento enquanto diferenças de palavra. Uma série como a que apresentei acima é o retrato banal de como diferenças evoluem rapidamente numa somatória de equívocos para convergirem em uma violência, inicialmente verbal mas cujo passo seguinte todos sabemos bem qual é. Uma vez que as palavras do outro não importam, pois já sabemos o que ele vai dizer, basta classificar pessoas. Depois da classificação vem a segregação e finalmente a violência. A palavra perdida cria a bala perdida. É assim que funciona a lógica do condomínio, Sr. Constantino. Menos do que em sua moradia norte-americana, ela está em suas próprias palavras.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Que esquerda? Para onde quer ir a direita? Estamos sem rumo

A falência do PT, a ascensão da direita e a esquerda órfã

por Rosana Pinheiro-Machado  publicado 20/05/2015 09h53, última modificação 20/05/2015 22h36
Fonte: Carta Capital
A inclusão pelo consumo incentivou o alinhamento aos valores neoliberais em uma sociedade de valores aristocráticos e uma democracia frágil

Dilma Rousseff
'Após apoiar Dilma para garantir as conquistas sociais, é preciso voltar para a crítica de um governo que se tornou indefensável'
Eu sou de Porto Alegre, uma cidade em que a utopia petista viveu seu auge no final do milênio. Até os dias de hoje, o orçamento participativo é referência no mundo. Isso não ocorre porque a sua concepção era idealmente revolucionária, mas principalmente porque as coisas aconteciam na prática cotidiana.
Com o microfone na mão, sujeitos pobres, destituídos de agência, eram empoderados por meio da palavra e da participação. Tendo as suas origens nos movimentos sociais, o PT investiu em uma ampla estrutura de formação de atores políticos.
A política capilar de base objetivava romper com uma longa história de clientelismo, de vínculos fracos de capital social, que destituíam os mais pobres de autonomia e de aspiração social. O empoderamento dava-se por meio da qualificação do capital social, da descentralização do poder e, consequentemente, da ampliação dacapabilidade política.
Os anos lulistas mudaram o rumo das coisas. Houve um deslocamento de ênfase na base: optou-se pelo empoderamento econômico em vez do político. Ao mesmo tempo em que os projetos de inclusão sociais resultaram em algumas das maiores conquistas de nossa história – como a redução da pobreza – o projeto de mobilidade social esvaziou a agenda política e ideológica.
O lulismo marca o “direito ao prazer”: políticas de inclusão financeira e inserção no mundo do consumo dos grupos de baixa renda. Eu considero o Programa Bolsa Família uma das maiores conquistas do Brasil, da mesma forma que penso que o prazer do consumo é um direito.
Meu argumento, portanto, exalta as conquistas históricas trazidas pelos programas sociais, mas ressente de que essa inclusão tem sido mais quantitativa do que qualitativa. Trata-se de um projeto que tem efeitos extraordinários a curto e médio prazo para resolver questões críticas, mas que no longo prazo se esgota diante da falta de uma agenda de política emancipadora.
A escolha pelo empoderamento econômico e não político tem consequências diretas no tipo de cidadão que se forma no Brasil. E não é por acaso que esse mesmo sujeito que ascendeu possa hoje levantar a bandeira irracional de ódio ao PT. A inclusão pelo consumo incentiva o alinhamento aos valores neoliberais. Isso tudo em meio a capitalismo cru, uma sociedade de valores aristocráticos e uma democracia frágil.
Hoje se pode comprar mais, de comida a refrigerador, mas quais são os valores desses grupos ascendentes? Os preconceitos de classe, cor e orientação sexual nunca estiveram tão assumidos. E essa violência de tendências fascistas parece se espalhar das elites às camadas mais populares. Há, portanto, carência de um projeto que valoriza os direitos humanos e fundamentais, estimula o pensamento crítico e fortalece os capitais políticos na base.
O esvaziamento ideológico do PT não por acaso coincide com uma profunda crise ética. Figuras históricas aparecem nas listas de "mensalão" à Petrobras. Foi assim que o partido encontrou meios para sustentar a governabilidade. Sabemos que a farra tucana foi da mesma grandeza. Ainda que alguns petistas tenham dificuldade de entender, o foco da discussão não é quem roubou mais. O imperdoável é que o PT se elegeu com a bandeira ética.
O desgaste do PT se agrava no Governo Dilma. O projeto desenvolvimentista começa com o massacre dos povos indígenas, passa por Kátia Abreu e termina com austeridade fiscal. Nós lembramos bem que a presidenta prometeu que não haveria arrocho.
Em meio à crise econômica, algumas das conquistas histórias dos projetos sociais demostram fragilidade. O impasse do Fies, por exemplo, tem causado humilhação e desalento aos estudantes de baixa renda. A terceirização marca o desgoverno do Partido dos (Semi-)Trabalhadores. Os petistas alegam que sua bancada votou contra. Mas ser refém da condição da governabilidade não é tão vexaminoso quanto? Um governo rendido ao PMDB. 
Quais são as chances de uma volta às raízes? Muito poucas se olharmos para o fato de que não há novas lideranças no partido e a tentativa de resgatar Lula soa desesperada.
A crise petista se arma diante de piores cenários pós-democratização. Ou seja, em pleno aumento do conservadorismo da extrema direita, que emerge das brechas da saturação. O sentimento irracional de ódio ao PT preenche vazios estruturais de descontentamento da população e conquista espaço para muito além das varandas gourmet.
O fascismo tropical traz soluções simplistas que dão repostas àqueles que sentem que não têm mais para onde correr. O aumento do conservadorismo, portanto, encontra espaço justamente diante de um vácuo moral, ético e político deixado pelo PT.
Qual é o papel da esquerda neste cenário? Ela está entre a cruz e a espada, no meio de uma polarização burra entre uma direita ensandecida e um PT desesperado. Uma parte da esquerda está presa a uma chantagem emocional que acusa a crítica ao partido como “um prato cheio para a direita”. Este argumento é manipulador, emburrecedor e reducionista, esvaziando a autocrítica – princípio que outrora norteava o PT.
Após apoiar a candidatura de Dilma Rousseff no segundo turno, como tentativa de, ao menos, garantir as conquistas históricas dos programas sociais, é preciso voltar para a crítica de um governo que se tornou indefensável.
Ao mesmo tempo em que assistimos a falência do PT e o aumento da extrema direita, não há um projeto abrangente de esquerda. A esquerda órfã necessita catar seus cacos quebrados, lamber as feridas, fazer autocrítica e pensar coletivamente. Em momentos de normalidade democrática, a diversidade do pensamento de esquerda enriquece, mas em momentos de crise ética e vácuo político, é preciso priorizar a unidade.
Partidos de esquerda, coletivos, intelectuais, ativistas e grupos independentes precisam concretizar uma frente ampla de esquerda que, como disse o professor Marcos Nobre recentemente em um evento na Unicamp, seja capaz de receber sem restrições todas as forças políticas interessadas em pensar coletivamente alternativas à esquerda para o Brasil – inclusive os petistas.
É preciso voltar à utopia e lista de tarefas urgentes a fazer é longa: reconquistar e reconstruir a base, politizar a pobreza (e não celebrar o consumo), descentralizar o poder e, por fim, empoderar atores políticos que possam conter a alavancada conservadora e lutar pela garantia dos direitos democráticos.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Troca-se panelas amassadas por livros de história. Troca-se ódio por racionalidade

Guga Noblat descobriu o óbvio: os paneleiros são doentes. 

Por Paulo Nogueira

 
Postado em 18 mai 201
Os doentes não respeitam nem crianças
Os doentes não respeitam nem crianças
O apresentador Guga Noblat descobriu a pólvora: os paneleiros são doentes.
Ele escreveu, no Facebook, que não imaginava que, carregando uma criança no colo, pessoas que protestavam contra Dilma pudessem hostilizá-lo.
Mas hostilizaram.
Quando nem um bebê é respeitado, é porque a doença é, definitivamente, grave.
E essa doença se chama ódio. É um tipo de ódio irracional, ilógico – e perigoso.
Sua origem é facilmente rastreável. Ele deriva do enxame de colunistas que, nos últimos anos, se dedicaram a fazer uma incessante e furiosa pregação contra o PT.
As grandes empresas de jornalismo se abarrotaram de pessoas com esse perfil: gente sem limites na agressividade antipetista.
Se você olhar para trás, verá que o primeiro deles foi Diogo Mainardi, na Veja.
Logo depois, também na Veja, mas no site, apareceu Reinaldo Azevedo.
Tolstoi não se gabava de ter escrito Guerra e Paz, mas Azevedo não perde uma chance de dizer que criou a palavra “petralha”, segundo ele dicionarizada.
Aos dois se juntaria, com a mesma selvageria, Arnaldo Jabor, que começou a enxergar bolcheviques sob a própria cama e a denunciá-los com estridência em jornais, rádio e tevê.
Com o correr dos dias, o grupo foi se ampliando rapidamente. Rachel Sheherazade surgiu dentro desse quadro.
Não quisesse Silvio Santos dar sua contribuição sorridente para o ódio anti-PT, Sheherazade ainda estaria no anonimato em que sua carreira se arrastou.
Esta é uma característica comum à brigada da raiva.
Em circunstâncias normais, não seriam nada, ou quase nada. Mas deixaram claro aos donos da mídia que topariam agredir incondicionalmente Lula, Dilma e o PT. E isso lhes trouxe emprego e dinheiro fácil.
A grande ironia de tudo, e já falei disso algumas vezes, é que quem financia tudo isso é o próprio governo, pelo dinheiro bilionário que ano após ano coloca nas corporações de jornalismo dedicadas a destruí-lo.
Sobra dinheiro aos Marinhos, Frias e Civitas para sustentar e ampliar a bancada do golpe.
Uma das grandes interrogações futuras sobre os governos petistas é por que continuaram a prestigiar, com copiosos anúncios, empresas jornalísticas que são hoje, para usar a palavra de Guga Noblat, fábricas de “doentes”.
O mistério é ainda maior porque as audiências das mídias tradicionais despencaram nos últimos anos, com a ascensão da mídia digital.
Um tipo de público foi especialmente afetado pela mídia: pessoas de classe média, ou classe média alta, com pouquíssima leitura.
São os chamados analfabetos políticos.
Um caso exemplar é o do executivo fracassado Danilo Amaral, que hostilizou Padilha num restaurante em São Paulo.
Você tem que estar doente da cabeça para fazer o que ele fez. A vida de Amaral foi vasculhada pelos que se apoiaram Padilha, e hoje todo o Brasil sabe que o ponto supremo de sua carreira foi enterrar uma companhia aérea.
Agoto todos sabem que Danilo Amaral enterrou a Bra
Agora todos sabem que Danilo Amaral enterrou a Bra
O que fez a fábrica de doentes com Amaral?
Aplaudiu.
Algumas pessoas notaram uma ironia nos apuros de Guga. Ele é filho do jornalista Ricardo Noblat, que em seu blog no Globo é parte do grupo semeador de ódio.
Talvez seja uma oportunidade para Noblat refletir sobre o triste papel que vem desempenhando como blogueiro.
Há um limite para agradar patrões – e este limite foi há muito tempo ultrapassado por Noblat e seus congêneres.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

sábado, 16 de maio de 2015

De George Lucas a Woody Allen, a força do pensamento

A filosofia no cinema

'Star Wars' é todo um dilema filosófico

O escritor Román Gubern explica como Platão penetra no cinema

Darth Vader em plena filmagem, em 1976.

O cinema concretizou, na era moderna, o postulado de Platão segundo o qual os indivíduos vivem em uma caverna e confundem suas sombras com a realidade; assim, os espectadores primitivos de Lumière pensavam que o trem sairia da tela e irromperia pela sala. E até Woody Allen, quando esse mal-entendido metafísico já estava esclarecido, brincou com essa confusão ontológica em A rosa púrpura do Cairo (1985), fazendo seu protagonista literalmente sair da tela. Outros cineastas brincaram com o mistério metafísico do invisível fora de campo, como ocorre com os burgueses que não conseguem sair de uma sala elegante em O anjo exterminador (1962, de Buñuel, enquanto os corredores intermináveis que não vão a lugar algum em O ano passado em Marienbad (1961), de Alain Resnais, são uma metáfora do extravio existencial.
Assim, o cinema, inclusive em seus gêneros mais populares e comerciais, vem flertando com os grandes sistemas filosóficos, aproveitando o legado de Spinoza, Kant, Hegel e Sartre. As referências a Nietzsche são muito frequentes em alguns filmes de super-heróis, como na saga protagonizada por Conan e sua espada invencível. E sem o existencialismo de Jean-Paul Sartre não teríamos as obras-primas sobre a angústia e a incomunicabilidade humana criadas por Michelango Antonioni em A noite (1961) e O eclipse (1962). Sem os tormentos de Sören Kierkegaard não teríamos a angústia do ser humano diante dos enigmas da natureza e do além que Ingmar Bergman apresentou nos inquietantes claro-escuros de O sétimo selo (1956), O silêncio (1963) e Persona (1966).
Mas um dos gêneros que mais joga com os enigmas filosóficos é, evidentemente, a ficção científica. Dirigido por Stanley Kubrick e inspirado na obra do físico Arthur C. Clarke, 2001, uma odisseia no espaço (1968) é um avassalador tratado especulativo sobre a origem e o destino da espécie humana no cosmos, seus limites e seu zênite. Na era dos onipotentes truques digitais, seu eco em Interestelar (2014), de Christopher Nolan, não consegue lhe fazer sombra. E a metafísica do combate entre o Bem e o Mal produziu uma saga copiosa iniciada com Star Wars (1977), de George Lucas, pródiga em sequências e prequelas que teriam confundido o próprio Henri Bergson, o filósofo do tempo.
O cinema moderno de fantasia e ficção científica tornou-se veículo de parábolas que transcendem suas narrativas. Assim, a saga de Alien, iniciada por Ridley Scott em 1979, materializou os demônios que perseguem a arrogância humana em sua expansão pelo cosmos. E o mesmo diretor, em Blade Runner (1982), propôs uma reflexão sobre a identidade humana, passível de ser usurpada por replicantes produzidos em laboratório, a ponto de nos fazer duvidar de nossa própria identidade.
Mais ou menos na mesma época o canadense David Cronenberg conseguiu dar forma física visível e perturbadora a nossos fantasmas interiores, em filmes como Scanners (1981) e Crash – Estranhos Prazeres (1996). Esse filão metafísico teve como marco a saga de Matrix (1999-2003), dos irmãos Wachowski, ponta de lança da moda cyberpunk que propôs a confusão entre a realidade empírica e a realidade virtual.
Esta confusão poderia se produzir também fora do universo cyberpunk, graças às encenações da indústria do espetáculo, como demonstrou o protagonista de O show de Truman (1998), de Peter Weir, preso, sem sabê-lo, num espetáculo da sociedade midiática, nova versão perversa da caverna platônica. O tema das essências e aparências renderia muito no cinema, a começar pelos enigmas detetivescos. Mas um discípulo de Freud tão conspícuo quanto Woody Allen rendeu homenagem a Pitágoras e sua teoria da transmigração das almas em Meia-Noite em Paris (2011). Assim as reflexões dos filósofos penetraram na indústria cinematográfica, sem que nos déssemos conta.
Fonte: El País