segunda-feira, 19 de maio de 2014

         O silêncio ao redor

Intelectuais que sempre fizeram o contraponto progressista reagem agora entre a indiferença e a prostração. Jorge Furtado, pergunta: quando o Brasil foi melhor?

por: Saul Leblon



Arquivo

A impressão de que o governo fala sozinho, cercado por um jogral ensurdecedor, ora raivoso, ora repetitivo, mas de qualquer forma  onipresente,  não é  fortuita.
É isso mesmo,  se a percepção se basear  apenas na emissão veiculada pelos jornais, tevês e emissoras de rádio que  ecoam o monólogo  do ‘Brasil aos cacos’.

Mas já foi diferente?  Em 1989, talvez, quando o Jornal Nacional editou o famoso debate final da campanha, às  vésperas do voto? Ou em 2002, quando  George Soros assegurava, com exclusividade para a Folha,  que era  Serra  ou o caos?

Talvez em 2006, sob o cerco do ‘mensalão’? Ou então em 2010, quando a Folha se lambuzou na ficha falsa da Dilma e Serra convocou  Malafaia como procônsul para assuntos relativos a moral e aos bons costumes?

Então o que mudou para que o ar pareça tão mais carregado, a ponto de ser necessário, às vezes, cortar com faca o noticiário para  enxergar  além da derrocada iminente que se anuncia?

Algumas coisas.

Vivemos uma transição de ciclo econômico.

Em parte pela reversão do quadro internacional, em parte pelo esgotamento de suas dinâmicas  internas, o desenvolvimento brasileiro  terá que se repensar para retomar uma trajetória de longo curso.

Trata-se de recompor  as condições de financiamento da economia. E  depurar  prioridades  em direção à maior eficiência logística e melhor qualidade de vida.

Não é café pequeno.

A expectativa provoca arrepios nas  carteiras graúdas.

Não será  mais possível, por exemplo,  prosseguir apenas com o impulso das exportações de commodities, cujos preços triplicaram  no mundo desde 2003  --os do petróleo quadruplicaram, mas  os agrícolas cresceram mais de 50%.

Tampouco a liquidez internacional promete ser tão generosa  a ponto de dissipar as contradições internas  em um jorro de  crédito apaziguador que tudo sanciona.

Os donos do dinheiro precificam as ameaças incrustradas nesse  duplo esgotamento, que escancara a natureza paralisante da hegemonia rentista sobre  o país.

Dispostos a não ceder, operam a plenos decibéis para sufocar a evidência de que seu privilégio entrou na alça de mira de uma encruzilhada histórica.

Aconteceu antes, em 32 e 53 – quase como uma revolução burguesa à revelia das elites; foi resolvido com o patrocínio do capital estrangeiro em 55; reprimido em 64; ordenado ditatorialmente  nos anos 70 e terceirizado aos livres mercados nos anos 90.

A seta do tempo ensaia  um novo estirão.

O desafio, antes  de mais  nada,  é de natureza política.

A coerência macroeconômica da  travessia será  dada por quem reunir  força e consentimento para assumir a hegemonia do processo.

Não por acaso, na abertura do 14º Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais, nesta 6ª feira, Lula  resumiu tudo isso em uma frase:

‘Sem reforma política não faremos nada neste país’.

E ela terá que ser construída pela rua.  ‘Por uma Constituinte exclusiva’, adicionou o ex-presidente da República:  ‘Porque o Congresso que está aí pode mudar uma vírgula aqui, outra ali. Mas não a fará’.

Não é um capricho ideológico.

Trata-se de dar  consequência institucional às demandas e protagonistas que iniciaram a longa viagem à procura de um outro país, a partir das greves metalúrgicas do ABC paulista, nos anos 70/80.

 E que agregaram mais 60 milhões de brasileiros pobres a esse percurso desde 2003.

Um passaporte da travessia consiste em regenerar a base industrial brasileira.

E tampouco aqui  é contabilidade.

Para a economia gerar empregos e salários de qualidade, ademais de receita fiscal compatível com as urgências sociais e logísticas, é vital recuperar o  principal polo irradiador de produtividade em um sistema econômico.

O pressuposto  para um aggiornamento  industrial é  juro baixo,  câmbio desvalorizado e controle de capitais.

Grosso modo, esse é o  tripé que afronta o outro, da  alta finança, baseado em arrocho fiscal, câmbio livre e juro alto.

Todo o círculo de interesses que orbita em torno do cassino  está  mergulhado até o pescoço na guerra preventiva contra o risco de uma reciclagem subjacente à eleição de outubro.

Essa é uma singularidade  que distingue e radicaliza a presente disputa sucessória  --feita em condições internacionais adversas--  a ponto de tornar o ar quase irrespirável.

Por trás dos ganidos emitidos pelo colunismo isento (ideológicos são os blogueiros)  há um cachorro grande a soprar seu bafo sobre o cangote da sociedade.

O capital rentista.

Ele lucrou,  limpo, acima da inflação, 18,5% em média, ao ano, no segundo governo FHC.

Faturou  11,5%, em média, no segundo governo Lula.

E, já impaciente, entre 3,5% e 5% agora, sob a gestão Dilma.

Estamos falando de massas de forças nada modestas.

Diferentes modalidades de  fundos  financeiros  somaram  um giro acumulado de R$ 2,4 trilhões no Brasil em 2012.

O valor equivale a mais da metade do PIB em direitos sobre a riqueza real  --sem triscar o pé no chão da fábrica.

Não é um país à parte. Mas se avoca   mordomias  equivalentes às desfrutadas pelas tropas de ocupação.

Entre elas, rendimentos sempre superiores  à variação do PIB, portanto, em detrimento de fatias alheias. E taxas de retorno inexcedíveis  -- dividendos  permanentes de dois dígitos, por exemplo--   a impor um padrão de retorno incompatível com a urgência do novo ciclo de investimento que o Brasil reclama.

Não se mantém uma tensão desse calibre sem legiões armadas.

Pelotões de estrategistas, exércitos de consultores, artilharias  acadêmicas, bancadas legislativas, cavalarias midiáticas  e aliados  internacionais  operam  a  seu serviço.

O conjunto  entrou  em prontidão máxima.

Um pedaço da hegemonia que vai ditar  o novo  arranjo macroeconômico  será decidido nas eleições de outubro.

O embate  escorre do noticiário especializado (isento como uma nota de três reais)  para os espaços onde os cifrões são traduzidos em duelos entre o bem e o mal, entre  corruptos e salvadores da pátria,  intervencionistas e liberais, desgoverno  e eficiência.

Daí  são mastigados para o varejo do martelete conservador.

Nesse ambiente de beligerância em que o governo  parece falar sozinho, a explosão de demandas  que buscam  carona na  visibilidade  da Copa do Mundo, apenas reafirma uma transição de ciclo, incapaz de ser equacionado por impulsos corporativos ou bandeiras avulsas, ainda que justas  (leia mais sobre esse tema no blog do Emir).

‘Não vai ter Copa’  figura como o arremedo de uma unidade tão frágil quanto a aritmética subjacente à ideia de que os males do país se resolvem com os  R$ 8 bilhões financiados às arenas do torneio  --que serão pagos, ressalte-se.

No evento da sexta-feira, em São Paulo, Lula lembrou aos blogueiros que desde que começaram as obras  da Copa, em 2010, o governo investiu  R$ 825 bi em saúde e educação.

E, todavia, a escola pública e o SUS persistem com as lacunas sabidas.

O buraco  é mais amplo.

O Brasil se confronta com o desafio de realizar  grandes reformas  que lhe permitam  erguer as linhas de passagem entre o inadiável  e o viável  num novo ciclo de crescimento.

Menos que isso é  dar  à edição conservadora  suprimentos  para martelar  a ideia de uma sociedade  em decomposição.

Durante muito tempo a percolação desse veneno  teve na comunicação do governo um filtro complacente.

Agora se sabe que essa inércia escavou também um corredor contagioso no ambiente cultural, a ponto de tornar adicionalmente  opressivo  o ar desta sucessão presidencial.

Um pequeno exemplo ilustra  os demais.

Em entrevista recente à televisão portuguesa, o cantor Ney Matogrosso esboçou um cenário de terra arrasada  para descrever o Brasil. https://www.youtube.com/watch?v=DqJ0kF1_oL0. De sobremesa, soltou agudos de visceral rejeição à política, aos políticos e  ao PT.

O problema não é um  cantor  deblaterar contra o governo.

O problema é a ausência de contraponto  ao redor, num momento em que interesses graúdos se empenham em vender a tese de que a melhor saída para o Brasil é andar para trás.

Em diferentes capítulos  da história do país,  o prestígio de seus  intelectuais e artistas  foi decisivo no repto ao cerco asfixiante  com o qual o conservadorismo  tentava, como  agora, legitimar, ou impor,  a receita de arrocho subjacente as suas propostas para os impasses nacionais.

Antes tarde do que nunca, o PT e suas maiores lideranças correm contra o tempo para corrigir o gigantesco erro político que foi subestimar  o papel  de uma mídia  plural na luta pela ampliação da democracia  brasileira .

Passa da hora de acordar também para a necessidade de reativar o diálogo com círculos intelectuais e artísticos, cujo protagonismo  foi  igualmente subestimado por uma concepção   mecânica e economicista de desenvolvimento.

O sequestro  da opinião pública pelo denuncismo conservador   --que radicalizou um clima de indiferença e prostração semeado pelo próprio recuo do PT no ambiente intelectual -- evidencia o  tamanho do equívoco cometido.

Leia, abaixo, a manifestação do cineasta Jorge Furtado (diretor do recém  lançado ‘Mercado de Notícias’ e Urso de Prata em Berlim, em 1990, com ‘Ilha das Flores’)  sobre  esses acontecimentos, que marcam e vão marcar o ar pesado da disputa eleitoral de 2014.

'A mim não enrolam' , diz o diretor gaúcho que questiona em  seu blog a tese de que o Brasil  nunca esteve tão mal: pior em relação a quando e, sobretudo, para quem, argui. http://casacinepoa.com.br/)

O desafio do campo progressista é expandir essa argúcia solitária.

A íntegra do texto de Jorge Furtado:

"Fico triste ao ver artistas brasileiros, meus colegas, tão mal informados.

Imagino que, com suas agendas cheias, não tenham muito tempo para procurar diferentes fontes para a mesma informação, tempo para ouvir e ler outras versões dos acontecimentos, isso antes de falar sobre eles em entrevistas, amplificando equívocos com leituras rasas e impressionistas das manchetes de telejornais e revistas ou, pior, reproduzindo comentários de colunistas que escrevem suas manchetes em caixa alta, seguidas de ponto de exclamação.

Fico triste ao ler artistas dizendo que não dá mais para viver no Brasil, como se as coisas estivessem piorando, e muito, para a maioria. Dizer que não dá mais para viver no Brasil logo agora, agora que milhões de pessoas conquistaram alguns direitos mínimos, emprego, casa própria, luz elétrica, acesso às universidades e até, muitas vezes, a um prato de comida, não fica bem na boca de um artista, menos ainda de um artista popular, artista que este mesmo povo ama e admira.

Em que as coisas estão piorando? E piorando para quem? Quem disse? Qual a fonte da sua informação?

Fico triste ao ouvir artistas que parecem sentir orgulho em dizer que odeiam política, que julgam as mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos 12 anos insignificantes, ou ainda, ruins, acham que o país mudou sim, mas foi para pior.

Artistas dizendo que pioramos tanto que não há mais jeito da coisa "voltar ao 'normal '", como se normal talvez fosse ter os pobres desempregados ou abrindo portas pelo salário mínimo de 60 dólares, pobres longe dos aeroportos, das lojas de automóvel e das universidades, se "normal" fosse a casa grande e a senzala, ou a ditadura militar. Quando o Brasil foi normal? Quando o Brasil foi melhor? E melhor para quem?

A mim, não enrolam. Desde que eu nasci (1959) o Brasil não foi melhor do que é que hoje. Há quem fale muito bem dos anos 50, antes da inflação explodir com a construção de Brasília, antes que o golpe civil-militar, adiado em 1954 pelo revólver de Getúlio, se desse em 1964 e nos mergulhasse na mais longa ditadura militar das américas. Pode ser, mas nos anos 50 a população era muito menor, muito mais rural e a pobreza era extrema em muitos lugares. Vivia-se bem na zona sul carioca e nos jardins paulistas, gaúchos e mineiros. No sertão, nas favelas, nos cortiços, vivia-se muito mal.

A desigualdade social brasileira continua um escândalo, a violência é um terror diário, 50 mil mortos a tiros por ano, somos campeões mundiais de assassinatos, sendo a maioria de meninos negros das periferias, nossos hospitais e escolas públicos são para lá de carentes, o Brasil nos dá motivos diários de vergonha e tristeza, quem não sabe? Mas, estamos piorando? Tem certeza? Quem lhe disse? Qual sua fonte? E piorando para quem?"

terça-feira, 13 de maio de 2014

Os Instituto Brasileiro de Estudos Políticos ( IBEP ) vem fomentando debates sobre os mais variados temas nas esferas politica, econômica e social. Em função das eleições que se aproximam, vale a pena refletir sobre a análise do cientista político Aldo Fornazieri. Além de avaliar a possibilidade de um segundo turno, ele avalia o perfil e, pela primeira vez, a competitividade do tripé de candidatos à presidência da República num eventual segundo turno.


A tripolaridade das eleições presidenciais

A última pesquisa Dataflha (9/05/14), colocou as tendências eleitorais nos seus devidos termos e os que julgavam que Dilma poderia vencer no primeiro turno terão que rever suas posições. Ou seja: mantido o atual quadro de candidaturas, dificilmente não haverá segundo turno. Se a pesquisa for levada a sério, o PT e a presidente poderão rever sua estratégia e assentá-la sobre bases realistas para enfrentar seus adversários e buscar meios e caminhos para sair da defensiva política – condição necessária para evitar riscos maiores na busca da reeleição.
Se os petistas e governistas tiverem a competência para definir uma estratégia ofensiva e se navegarem com firmeza e sem precipitações nos mares revoltos da copa do mundo, Dilma, em que pese os erros na condução econômica e os problemas na Petrobrás, poderá adentrar o mês de agosto navegando nas águas calmas do favoritismo. A principal coisa que petistas e governistas terão que fazer é reduzir a ansiedade do eleitorado por mudanças e mostrar que os ajustes necessários que o Brasil terá pela frente serão feitos com maior segurança se a atual coalizão governamental e se a presidente Dilma permanecerem no comando. Quanto mais insegurança o eleitorado sentir em relação à economia e ao futuro, mais propenderá aos candidatos oposicionistas. Além de gerar segurança em relação a si, Dilma terá que gerar insegurança e desconfiança em relação a Aécio e a Campos.

Quem é Inimigo de Quem
Até agora, Eduardo Campos vinha se conduzindo como linha auxiliar de Aécio Neves. São jantares em restaurantes de luxo, declarações de convergências programáticas, tapinhas nas costas, camaradagens e juras de que estarão juntos no futuro governo. Parece que agora percebeu que será necessário diferenciar-se. O problema é que não basta apenas a diferenciação. Se os campistas forem bons analistas políticos e observarem a conjuntura presente (2014) e o futuro (2018), perceberão que o candidato tucano deve ser encarado como principal inimigo. Analise-se os interesses que estão em jogo em 2014. Tanto as tendências eleitorais, quanto a lógica, indicam que dificilmente Dilma não estará no segundo turno. Mesmo com o forte anseio por mudanças, o fato é que Dilma terá uma coalizão forte, terá o maior tempo de TV, poderá mostrar que as conquistas econômicas, salariais e sociais dos governos petistas continuam de pé, que o emprego e a renda estão em patamares altos etc. Claro que tudo isto dependerá da competência dela e daqueles que irão conduzir sua campanha.
Assim, se o primeiro objetivo de Campos consiste em passar para o segundo turno, terá que travar uma batalha contra Aécio, mostrando ao eleitor por que ele deve ser o escolhido e não o candidato tucano. Isto implica em desfazer camaradagens, desfazer palanques conjuntos e partir para a briga. E no caso de Campos não passar para o segundo turno, mesmo assim atingirá um objetivo secundário, que é o de semear a sua candidatura para 2018. Neste caso, deverá preferir uma vitória de Dilma e não de Aécio. Mesmo vencendo, Dilma não estará mais no páreo em 2018. O cenário da disputa presidencial, assim, estaria mais aberto sem candidato à reeleição. No caso de uma vitória de Aécio, o cenário estaria mais fechado, sendo que este buscaria a reeleição. Sabe-se que os candidatos que buscam a reeleição têm mais chance de vencer do que os outros.
Dentre os três principais candidatos, Aécio Neves parece ser o jogador mais solitário. Com Dilma não tem jogo: é inimiga e ponto. Mas poderá sofrer a ameaça de Campos. Poderá ter que atacá-lo, mas não a ponto de inviabilizar um eventual apoio no segundo turno. Até agora, Aécio vem se saindo bem em tornar o candidato do PSB em linha auxiliar. Mas como as pesquisas mostram que Campos é o candidato que tem o maior potencial de crescimento e levando em conta o suposto de que Dilma estará no segundo turno, o ex-governador de Pernambuco surge como uma ameaça real.
Dilma, por sua vez, deve preferir Aécio como adversário no segundo turno. Dado o alto percentual de eleitores que querem mudança, Campos poderá encarnar melhor este desejo do que o candidato tucano. Seria um candidato mais perigoso num segundo turno. E dada a lógica de Campos de que deve preferir Dilma à Aécio ela terá mais chance de trazê-lo de volta à antiga aliança no segundo turno.

A Singularidade das Eleições de 2014
O fato é que as eleições presidenciais de 2014 serão marcadas por uma singularidade em relação a todas as outras eleições do período da redemocratização. As eleições de 1989 foram presididas por uma lógica multipolar: Collor, Lula, Brizola, Covas, Ulisses Guimarães, Maluf, Afif Domingos, Aureliano Chaves, Roberto Freire, entre outros, todos lançaram-se à disputa num cenário aberto e numa conjuntura marcada pelo anseio de mudanças. Não é por acaso que os dois candidatos que mais expressavam ideias de mudança – Collor e Lula – disputaram o segundo turno.
De 1994 a 2010, as eleições foram presididas por uma lógica bipolar, sendo os candidatos do PSDB e do PT os protagonistas dessa polarização. Em 1994, em que pese as candidaturas de Enéias, Quércia, Brizola e outros, a bipolaridade se definiu mesmo antes do início da campanha. No mês de junho daquele ano, as pesquisas apontavam um empate técnico entre Lula e FHC em torno dos 30% das intenções de voto. Em 1998, 2002, 2006 e 2010, a bipolaridade foi mais nítida ainda.
Em 2014, as tendências de momento indicam que poderemos ter eleições presididas por uma tripolaridade, mesmo que se considere Dilma primus inter pares. A tripolaridade é marcada pela existência de três candidaturas competitivas, que expressam alternativas diversas de poder. A competitividade se define pelo fato de que cada uma das três postulações tem alguma chance de vencer. Em sendo o segundo turno uma variável altamente provável, os três candidatos desenvolverão esforços, ainda no primeiro turno, para tornar a disputa bipolar. Levando em conta o que está em jogo, os interesses e as preferências de cada uma das candidaturas, as estratégias tenderão a ser complexas e poderão implicar em mudanças no meio do caminho.
Dilma terá que evitar a bancarrota de um projeto que se proclamava transformador, buscando ganhar tempo com um novo mandato para redefini-lo. A Aécio não bastará restaurar os parâmetros de um projeto que teve força na década de 1990 com a edição do Plano Real. Terá que lutar para evitar a irrelevância do PSDB, não permitindo que o partido se torne nanico. Campos é o que menos tem a perder. Está buscando um lugar ao sol para si e para o seu partido como jogadores relevantes no futuro próximo do Brasil. Se vencer será a glória. Se perder, terá plantando as sementes para 2018.

Aldo Fornazieri – Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O país do maniqueísmo: direitos humanos versus repressão

Direitos Humanos não é uma bandeira da esquerda, assim como aumentar a repressão aos movimentos sociais e manifestantes não é privilégio da direita. Basta olhar o mundo e a gente vê nas chamadas civilizações históricas que a legislação penal é muitas vezes mais rigorosa que no Brasil e a ressocialização dos presos é maior em países de cunho conservador. No Brasil, temos poucas prisões de marginais sociais. Optamos pela execução.

É tosco ideologizar o debate sobre o combate à violência. Defender respeito aos direitos humanos não é privilégio da esquerda, nem aumentar a repressão é característica da direita.
Na esquerdista China vigora a pena de morte e a família do criminoso ainda é obrigada a pagar pela bala gasta no executado. A conservadora Suécia é a campeã de ressocialização dos presos e seu exemplo é seguido por Noruega e Canadá.
EUA e França seguem a linha da maior repressão. França reduziu a maioridade penal, que já atinge crianças de 12 anos, sem reduzir a violência. Nos EUA existem mais de 7 milhões de pessoas na cadeia, 80% deles negros.
No Brasil, onde a segurança pública é responsabilidade de governos estaduais de diversas vertentes ideológicas também é a repressão que é reforçada. Nossa polícia é uma das que mais mata no mundo, temos 500 mil presos, número que cresceu 400% nos últimos 20 anos e 30% só nos últimos cinco anos. Existem ainda 60 mil menores presos em instituições, que são idênticas a cadeias.
Nossas cadeias são campeãs em reincidência: 70% dos presos libertos voltam a cometer crimes, tornando as prisões verdadeiras universidades da violência e ironicamente gerando a contradição de que quanto mais se prende mais criminosos existem.
É hora de reduzir o impacto das ideologias nesse debate e aumentar a inteligência. O país precisa debater a questão de forma desapaixonada em busca de soluções.
Fonte: Política no Face

domingo, 4 de maio de 2014


As agências internacionais de risco ( que quase sempre erram ) avaliam o Brasil e quem paga a conta somos nós

A agência Standard & Poors, uma das que fazem classificação de risco de países e empresas, alterou a nota do Brasil para pior: de BBB para BBB-.

E se alguém acha que esse é um debate econômico, está redondamente enganado. A economia continua sendo um assunto importante demais para ficar restrito aos economistas.

A elevação ou o rebaixamento da nota de um país são entendidas, mundo afora, como um sinal do quanto um país é rentável e confiável.

Confiável segundo agências de classificação especializadas em dizer aos grandes financistas internacionais onde investir seu dinheiro para obter maiores lucros, com a garantia de que não tomarão um calote.

 A Standard & Poors foi criada no século XIX, nos Estados Unidos, por Henry Varnum Poor, em plena época dos chamados barões ladrões.

Os grandes investidores que Henry Poor avaliava e recomendava ganhavam dinheiro com ferrovias,  siderúrgicas e empresas de petróleo.

Uma parte significativa dos lucros desses magnatas vinha da apropriação de terras e outros ativos públicos e da arte de usar e roubar o dinheiro de pequenos investidores desavisados, que depositavam suas economias no nascente mercado de ações.

Esses barões ladrões do século XIX não eram tão diferentes dos mais recentes, que causaram a grande crise financeira de 2008 e 2009. Todos bem recomendados pela Standard & Poors.

A avaliação de risco do Brasil basicamente expressa o quanto o país continua sendo um dos paraísos mundiais do rentismo, a mágica de ganhar dinheiro com o trabalho dos outros. Quanto mais a política econômica de um país é ditada pelos interesses dos rentistas, melhor a nota.

Para não ser rebaixado pelas agências, um país precisa rebaixar sua política econômica. Tem que seguir uma receita orientada pelo objetivo de fazer crescer o volume de dinheiro movimentado pelas finanças, e não o de fazer crescer o país.

E ainda tem gente que acha que nosso grande problema é a Copa

Se o Brasil sofreu o rebaixamento de um único pontinho, “o que eu tenho a ver com isso?”, pode e deve perguntar o cidadão. Como diria o velho Brecht, tem a ver com o custo de vida, o preço do feijão, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio. Não deveria ter, mas tem.

Para dizer a verdade, esse rebaixamento tem a ver até com a Copa do Mundo de futebol, pois, enquanto tem gente preocupada, com razão, com o custo dos estádios, esqueceram-se do principal.

Para se ter uma ideia: o País vai gastar cerca de 8 bilhões em estádios. É, de fato, muito dinheiro. Mas o analfabetismo econômico ajuda todo mundo a se esquecer de fazer a conta que importa.

O Brasil gastou, em 2013, R$ 248 bilhões com o pagamento de juros, segundo o Banco Central. Pois bem, dividindo esse valor pelos 365 dias do ano, pagamos mais de R$ 679 milhões por dia.

Vamos comparar com a copa? Dá quase para construir um estádio do Mineirão por dia. Aliás, registre-se que o Mineirão só tem R$11 milhões de dinheiro público envolvido em seu financiamento. O restante será pago pela iniciativa privada. Dois dias de juros da dívida pagam mais de um Maracanã.

E ainda tem gente que acha que a copa é o absurdo dos absurdos do gasto em dinheiro público. É a prova cabal do quanto perdemos a noção das coisas.

Perdemos a noção de grandeza e a de proporção. Com isso, perdemos também o senso crítico em relação a esse buraco negro de nossas finanças públicas. Depois, perdemos o foco das prioridades.

Finalmente, erramos o alvo das manifestações. Tem gente malhando o Judas (a Copa, a Fifa) fingindo que está enfrentando o Império Romano. Se não for piada, é teatro.

Quem sabe, um dia, alguém se lembre de escrever a frase em um cartaz: “Cada 1% de aumento na taxa de juros custa R$20 bilhões aos brasileiros”. É uma mensagem mais consistente e valiosa do que “Não é só pelos 20 centavos”.

Vinte bilhões são duas vezes e meia, por ano, o que iremos investir em estádios, que serão pagos em 15 anos em empréstimos ao BNDES – ou seja, dinheiro que voltará aos cofres públicos.

O rebaixamento do debate econômico nos fez perder a noção das coisas

O verdadeiro rebaixamento que o país sofre não é de hoje e não é só o da Standard & Poors. O mais prejudicial de todos é o rebaixamento do debate sobre os rumos da economia do país.

O Brasil continua sendo um carro em que os mecânicos  do mercado puxam o freio de mão e culpam o motorista pela dificuldade de acelerar o crescimento, melhorar a infraestrutura e a qualidade do serviço público.

A primeira mudança para uma tomada de consciência é superar a visão de que os juros são um problema só da macroeconomia e que sua conta é paga pelo governo. Não é.

O governo é apenas quem assina o cheque. Quando falamos “o Brasil”, muita gente ainda acha que estamos falando do governo. Perdemos, talvez na ditadura, e ainda não recuperamos a noção de que o Brasil são os brasileiros.

Quem confunde isso com nacionalismo barato e governismo acaba por reproduzir, às avessas, a velha maneira de pensar ensinada pela própria ditadura. Puro analfabetismo cívico.

Quem paga a conta cara dos juros altos são todos os que pagam impostos, principalmente os mais pobres, que, proporcionalmente, pagam mais impostos.

A luta para inverter prioridades precisa convencer milhões de brasileiros de que é preciso virar as finanças públicas de cabeça para baixo.

Hoje, a principal função do Estado brasileiro é pagar juros, os maiores do planeta. O Brasil é um dos três países que mais comprometem recursos públicos com o pagamento de juros, em proporção do PIB, conforme diz até o Fundo Monetário Internacional.

A educação, a saúde, a segurança pública e os investimentos em infraestrutura são pagos com o troco do que sobra do pagamento de juros.

Somos educados para o analfabetismo econômico

O problema que temos em mãos lembra o alerta feito por um professor de Matemática, com cara de cientista maluco, chamado John Allen Paulos, em seu livro “O analfabetismo em Matemática e suas consequências" (publicado originalmente em 1988).

O divertido livro de Paulos relembra casos famosos que denunciam a falta nem tanto de habilidade, mas de uso prático e corriqueiro até das operações matemáticas mais simples.

A principal denúncia de Paulos é ao quanto nos desacostumamos da operação mais essencial de todas, não exclusiva da Matémática: pensar sobre os problemas e raciocinar logicamente sobre eles.

Paulos nos avisa que isso é um perigo. Corremos riscos diários com essa nossa preguiça de pensar logicamente sobre os problemas e com a nossa incapacidade de extrair resultados práticos e numéricos dessas operações.

O que acho mais curioso nesse livro, e muito similar ao que acontece em nosso debate econômico, é que esse tipo de analfabetismo é ensinado diariamente.

É como se fôssemos educados para o analfabetismo. Somos treinados a esquecer a lógica dos argumentos e a concordar com coisas que não fazem o menor sentido.

Paulos usa, dentre tantos exemplos, o livro “Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift (1667-1745). O matemático nos mostra como o autor de Gulliver, ao descrever um gigante em uma terra de pequeninos (Lilliput), lascou o livro de grandezas absurdas, que não fazem o menor sentido.

As histórias de Gulliver são de 1726. Para não parecer tão distante, Paulos escreveu, em 1995, “Como um Matemático lê os Jornais”, publicado no Brasil como “As Notícias e a Matemática” ou “Como um Matemático lê jornal”.

Acertou na mosca. A imprensa é useira e vezeira em nos deseducar a usar não só os números, mas a lógica. É assim também com as notícias cujo título é contraditado pelas próprias matérias, armadilha comum aos que leem jornal com o espírito crítico repimpado e babando no sofá.

Terrorismo fiscal, um atentado ao raciocínio lógico

A notícia sobre o rebaixamento da nota do Brasil foi uma farra nesse sentido de propagar o analfabetismo econômico.

A conclusão enfiada goela abaixo é a de que o País precisa aumentar seu rigor fiscal e seu controle sobre a inflação.

Ou seja, o Brasil precisaria urgentemente cortar gastos e continuar elevando sua taxa de juros. Como assim, se o nosso principal gasto extraordinário é com juros? Não faz sentido, faz? Depende pra quem.

A ideia brilhante para atender às agências de risco é cortar o que o governo faz para pagar mais juros. Faz todo o sentido – para o financismo, não para a maioria dos brasileiros.

Mal começou o ano, os problemas sazonais dos preços dos alimentos, que impactam também os alugueis, são traduzidos na conclusão disparatada e tão absurda quanto os números das “Viagens de Gulliver”.

A lógica é a seguinte: se choveu muito, ou se choveu pouco, a inflação de alimentos elevou-se. Solução: aumentem os juros. Elevando-se os juros, as pessoas vão comer menos alimentos e os agricultores assim plantarão mais alimentos. Com juros mais altos, choverá a quantidade certa, no lugar certo. Entendeu? Nem eu.

O preço do tomate disparou, então o remédio é aumentar os juros. A pessoa irá desistir de levar tomates quando pensar que a taxa Selic está mais alta. Quando a taxa Selic alcança dois dígitos, as pessoas trocam a macarronada a bolonhesa por lasanha ao molho  branco.

Os alugueis subiram, então os juros precisam aumentar, pois, em Lilliput, a terra de quem pensa pequeno, quando os juros sobem, ao contrário do que ocorre em qualquer lugar do mundo, mais imóveis são construídos e os alugueis baixam.

Engraçado, pensávamos que seria o contrário; que, com juros mais baixos, mais pessoas poderiam comprar seus próprios imóveis e se livrar dos alugueis. Aumentaria a própria oferta de imóveis e os aluguéis cairiam. Difícil entender os lilliputianos.

Essa falta de parâmetros e de noção do debate econômico causa uma deficiência grave em nossas políticas públicas.

Figuras exemplares que alertam sobre isso, como fazem Paulo Kliass, Ladislaw Dowbor e Amir Khair aqui na Carta Maior, há muito tempo, falam de coisas sobre as quais deveríamos não só prestar mais atenção, mas usar em nosso dia a dia.

Os movimentos sociais precisam se lembrar de explicar essa lógica dos argumentos aos seus militantes.

Precisam fazer as contas de quantos trabalhadores do setor público poderiam ser contratados e pagos com esses valores estratosféricos e escatológicos pagos com juros.

Precisam mostrar para a opinião pública quanto custa o reajuste de salários de suas categorias e compará-los com o que se paga em juros aos banqueiros.

Quem sabe, uma boa ideia seria acampar no gramado em frente ao Banco Central toda vez que ocorre uma reunião do Copom. E por que não fazer pelo menos um dia de luto quando se decreta aumento na taxa de juros.

Imagine todo mundo com a fitinha preta no braço explicando quanto vai nos custar pagar 0,25 ou meio ponto percentual a mais na taxa Selic, e quanto deixará de ser aplicado em prioridades para o país.

Pode até não ajudar a pressionar a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, mas, pelo menos, seria um sinal de quantas pessoas terão se livrado do analfabetismo econômico atroz que nos acomete.

(*) Antonio Lassance é cientista político ( texto para Carta Maior )

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Afogar a Amazônia ?

  • TEMA EM DISCUSSÃO: Hidrelétricas na Região Norte
Publicado:
Diante da desastrosa gestão do setor elétrico que faz o Brasil enfrentar mais uma crise de fornecimento de energia, setores do governo e da indústria têm sugerido o retorno das hidrelétricas com grandes reservatórios. Estas seriam capazes de garantir mais energia e segurança para o país. Mas isso não passa de pura ilusão. Não é mais possível construir hidrelétricas com reservatórios na Amazônia devido a limitações técnicas e naturais. O próprio Ministério de Minas e Energia reconheceu que a ausência de quedas d’água forçaria o alagamento de imensas áreas. Isso sem contar o extenso histórico de falhas e erros que marcam o processo de licenciamento dessas grandes obras, com graves impactos socioambientais.

Historicamente, os direitos dos povos indígenas e ribeirinhos vem sendo desrespeitados. E hidrelétricas como as de Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira, foram construídas sem planos de contingência para lidar com cheias anormais que tendem a ser mais comuns com o agravamento das mudanças climáticas. O caso de Jirau é ainda mais complicado uma vez que deveria estar pronta em 2013 e cujo custo previsto em R$9 bi sairá por nada menos que R$17,4 bi e, talvez, comece a gerar energia em 2016. A ilusão se intensifica ao lembrarmos do anúncio da redução da conta de luz em 2012. O populismo tarifário praticado pela presidenta Dilma terá o efeito contrário e as tarifas de energia ficarão mais caras a partir de 2015.

 As distribuidoras, sufocadas diante do alto custo do acionamento das termelétricas, lidam com um rombo de R$12 bi que pesará no bolso dos consumidores. Claro, apenas após as eleições. Não há mágica que resolva as contas do governo e não há solução ‘simples’ como a das hidrelétricas com grandes reservatórios. Para alcançar uma matriz elétrica confiável e econômica, o país precisa de planejamento sério para diversificar suas fontes e assegurar o abastecimento de energia. É necessário investir em renováveis, como eólica e solar, que dispensam obras caras e demoradas e evitam custos com linhas de transmissão já que estão mais próximas aos centros consumidores.

 Em 2013, o valor mais alto para essas fontes foi de R$228/MWh para energia solar, ainda assim quase quatro vezes mais barata do que os R$822/ MWh alcançados em razão do acionamento das termelétricas. E a energia eólica contratou 4.700 MW no ano passado, valor capaz de atender quase 70% do que a matriz elétrica brasileira precisa crescer anualmente. Enquanto não houver planejamento nem diversificação do setor elétrico, o Brasil vai continuar patinando em busca de soluções não apenas caras a curto prazo, mas também tecnicamente inviáveis. Não será transformando a Amazônia em um imenso lago onde serão afogados todos aqueles que ousam mostrar caminhos novos para a condução do planejamento do setor elétrico que iremos resolver o problema.
Sérgio Leitão é diretor de políticas públicas do Greenpeace Brasil.
Tica Minami é coordenadora da campanha da Amazônia do Greenpeace Brasil


Desperdício de comida e fome

Metade da comida do mundo vai parar no lixo. Relatório Global Food divulgado pelo Reino Unido aponta que até 50% dos alimentos que são produzidos, todos os anos, nunca são ingeridos e tem a lata do lixo como destino. O desperdício de comida acaba provocando, também, o uso exagerado de outros recursos em escassez, como a água
A fome é, hoje, um dos principais problemas mundiais: cerca de três bilhões de pessoas - que representam quase metade da população do planeta - sofrem com a insegurança alimentar, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que ainda garante que esse número, infelizmente, não para de crescer. E o pior é que a comida que poderia alimentar grande parte dessas pessoas existe e está sendo jogada, todos os dias, na lata do lixo.
O relatório Global Food: waste not, want not ("Comida Global: não desperdice, não queira", em tradução livre), divulgado dia 10.04.2014 pelo Instituto de Engenheiros Mecânicos (Imeche), do Reino Unido, apontou que entre 30 e 50% dos alimentos produzidos anualmente no mundo nunca são ingeridos. A porcentagem representa de 1,2 a 2 bilhões de toneladas de comida, que têm o lixo como destino.
Classificado como "assombroso" pela instituição, esse desperdício de alimentos é consequência de uma série de problemas. Entre eles:
- técnicas insatisfatórias de engenharia e agricultura;
- infraestrutura inadequada de transporte e armazenamento;
- exigência dos supermercados de que os produtos sejam visualmente perfeitos nas prateleiras;
- promoções "compre um, leve dois", que incentivam as pessoas a levar para casa mais do que precisam e
- claro, falta de consciência dos consumidores.
O desperdício de alimentos ainda provoca o uso exagerado de outros recursos que já estão em escassez, como água e energia. De acordo com o relatório britânico, atualmente, cerca de 550 bilhões de metros cúbicos de água são desperdiçados, todos os anos, na produção da comida que vai para o lixo. E a situação pode ficar ainda pior, se não repensarmos a forma como estamos consumindo os alimentos: segundo o estudo, até 2050, o uso de água no mundo chegará a 13 trilhões m³/ano, sobretudo por conta da demanda para produção alimentícia.
Em 2009, campanha lançada pelo Instituto Akatu alertou a população de que um terço dos alimentos comprados pelos brasileiros vai direto para a lata do lixo.
(Débora Spitzcovsky)

segunda-feira, 28 de abril de 2014

A guerra da internet está apenas começando

Por Carlos Castilho em 25/04/2014, no Observatório da Imprensa



A internet passou a ser um tema diário na agenda da imprensa mundial ao se tornar parte quase obrigatória em conflitos étnicos, militares, econômicos e legais, bem como assunto do quotidiano doméstico. A rede deixou de ser um assunto exclusivo dos admiradores das novas tecnologias para monopolizar as atenções de juristas, governantes, militares, políticos, empresários e pais de família.
Prova disso é o fato de governos trocarem farpas e ameaças de retaliações digitais, dos políticos dizerem asneiras a granel sobre a internet, dos juristas e magistrados baterem cabeça para achar soluções para intrincados dilemas legais, enquanto as empresas partem para a guerra aberta por posições de força no mercado de usuários e o cidadão comum mostra uma crescente aflição por estar no meio de um bate-boca sobre um tema que ele só conhece a partir de informações dadas por filhos e netos. 
Querendo ou não, nossa vida já está condicionada pela internet. Entramos, gostando ou não, na era da cultura digital, da perda de privacidade, dos crimes online, da militarização dos bytes e bits, da batalha entre empresas novas e antigas pela sobrevivência econômica num ambiente que ainda é desconhecido pela maioria dos empresários, de polêmicas judiciais difíceis de entender e mais ainda de julgar. Tudo isso em meio à sensação de que não há mais certezas e que tudo passou a ser fluido, mutável.
O Brasil aprovou uma lei chamada Marco Civil da Internet com o objetivo de tentar organizar o ambiente cibernético, ao mesmo tempo em que, em São Paulo, acontecia uma reunião mundial para resolver quem manda e como manda na rede, um tema que ainda vai dar muito pano para manga. Nos Estados Unidos, os internautas entraram em pé de guerra por conta da possibilidade de o governo acabar com a chamada neutralidade da internet, uma norma vigente desde o surgimento da rede e que estabelecia a igualdade direitos de acesso e navegação entre todos os usuários. 
A batalha na opinião pública sobre a neutralidade está apenas começando e vai longe porque está em jogo o princípio que deu origem à rede mundial de computadores, o da liberdade de navegação virtual. Se não bastasse tudo isso, o americano médio ainda está sob o impacto da revelação de que suas conversas por celular e pela rede foram monitoradas pela Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) e descobre que a CIA está usando redes sociais virtuais para promover manifestações antigovernamentais em Cuba.
Na Rússia, o presidente Wladimir Putin assoprou as cinzas da Guerra Fria ao afirmar que a internet é uma invenção da CIA, dando a entender que vai usar a força para impedir que dissidentes usem a rede para veicular críticas ao autoritarismo do Kremlin. A aversão de Putin ao mundo digital foi aguçada com o uso intensivo da internet na crise da Ucrânia e nas esporádicas demonstrações de rebeldia antiautoritarismo noutras antigas repúblicas da extinta União Soviética.
O governo chinês há muito tempo vem tentando domesticar os internautas do país para evitar sustos como uma eventual “primavera chinesa”. A Turquia é outro país que olha a internet com profunda desconfiança e já bloqueou temporariamente o acesso ao YouTube e Twitter por não gostar de opiniões hostis emitidas por internautas locais. E no Oriente Médio, Israel e os palestinos incorporaram o espaço cibernético ao teatro de operações militares.
Além disso, há uma sucessão de batalhas econômicas entre projetos surgidos na internet e empresas convencionais inconformadas com a perda de clientela e receitas. Os juízes da Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos têm nas mãos, há mais de mês, a batata quente de resolver se uma pequena empresa, chamada Aereo, pode ou não veicular pela internet a programação das grandes redes de TV. A decisão afetará todo o bilionário negócio da computação em nuvem, segmento que mobiliza a atenção de todas as grandes empresas da internet como Google, Facebook, Microsoft, Cisco, Apple, Samsung e Oracle.
Outras duas batalhas legais nos Estados Unidos mostram que chegou ao fim a coexistência pacífica entre empresas de estrutura analógica e as de estrutura digital. O site AirBnB , o grande sucesso em matéria de aluguéis de curta temporada via internet, está sendo processado pelas imobiliárias e pela prefeitura de Nova York por ignorar uma obscura lei que impede locações com prazo inferior a 30 dias. E o site Uber, que provocou um terremoto entre os taxistas norte-americanos, está sendo investigado a pedido dos sindicatos inconformados por perderem a exclusividade no atendimento de clientes.
Daqui para frente teremos cada vez mais notícias sobre conflitos de interesses sendo encaminhados para os tribunais ou para a diplomacia da força. É o sinal mais evidente de que a internet está mexendo para valer nas estruturas políticas, sociais, econômicas e militares do mundo em que vivemos. Os interesses afetados pela mudança e pela inovação reagem usando as instituições e leis que ainda não foram adaptadas aos novos tempos.
Os conflitos em torno da internet estão embaralhando os parâmetros políticos convencionais. Personalidades e empresas consideradas antes como progressistas passaram a resistir à inovação quando seus interesses foram afetados; enquanto outras, tradicionalmente conservadoras, apostam no digital por conta da expectativa de lucros. Estamos realmente no limiar de uma era de dúvidas e perplexidades muito mais profundas do que as previstas por John Kenneth Galbraith no seu famoso livro, a Era da Incerteza